Blogue de apoio ao "Boca de Incêndio"

terça-feira, 30 de junho de 2009

A Aversão (2ª parte)

II

A meio da manhã, foi fazer compras. Atravessou o jardim até à garagem pela trilha de pedras, como se caminhasse já pela rua central de Cascais. Olhou de relance o jardim e viu a piscina onde o filtro mergulhava como um animal pré-histórico a beber. Achou que assim estava bem, deixava a casa numa perfeita tranquilidade ( “pax tranquilla libertas est” já dizia o Cícero). Sentiu-se agradecida a Deus por viver naquele sossego, longe da brutalidade de Lisboa. No entanto, quando punha o carro a trabalhar, subiu-lhe uma comoção profunda pela cana do nariz e desaguou num pranto inexorável. Baixou a cabeça de modo a que o chapéu de aba larga lhe ocultasse a cara e... chorou mesmo. “Meu Deus! Como é possível!?”, bramiu, enquanto desferia os punhos no volante. Sentir-se observada daquela maneira, esquadrinhavam-na a cada canto da sua vida íntima, a perseguiam-na a cada segundo!”. Será que a inveja pairava no ar, era o anjo da Morte dos primogénitos, depois das pragas da brutalidade e da falta de educação generalizadas?! Porque é que a perseguiam daquele modo quando escrevia? Sentia os dentes de predadores rangendo nas obscuridades daquela Lisboa de falhados, sentia o catarro de aves absurdas preparando-se para romperem o silêncio, à gargalhada. Tinha a alucinação de que passava numa floresta de espinhos em camisa de noite e uma das fímbrias prendia-se, ela não conseguia libertá-la, ficava nua e esfarrapada à vista das árvores ululantes ( devia andar a ver demasiados vídeos...).

Meu Deus! Tinha de se dominar! Era uma mulher dura! E fria! Não podia deixar-se vencer por estes pânicos sem razão. À noite, isso implicaria no relacionamento conjugal. E começaria logo ao fim da tarde, quando o marido chegasse. Tinham assinado com os olhos um pacto tácito para não jogarem os temores que traziam da rua, na mesa de jantar. Antes de se sentarem à mesa tinham de estar completamente libertados dos pesos do exterior. Se o jantar tardasse, iriam dar uma volta, ao jardim ou às traseiras. Os ligeiros atrasos, por ordens desencontradas e terrores de polémica, tinham valido uma úlcera à Muana. Nem fora preciso falar para que se convencionasse assim. Cerrou os punhos e levantou os joelhos, dominando o próprio exaspero. Ah, Meu Deus! Como sentiu saudades da ordem antiga, dos velhos casarões onde refulgia sabiamente o cristal antigo, onde até a luz das pratas se amassava sob a demão lenta do tempo. As mulheres de outrora, caminhando de sala para sala, reflectindo nas contas da casa, sempre de olhos nos filhos, sabendo em silêncio, não cada passo que davam, mas cada estado de alma, actualizando sempre as tendências que tinham experimentado, ainda ao peito, nos primeiros gestos ou sorrisos.

Ao entrar na loja do costume, deu-se conta que tinha de ir a uma festa. Encarou com calma todas as providências a tomar. O que ia levar, o encontro com o marido em plena sala, ele já de copo na mão... era aliás incomparavelmente elegante acercar-se dele assim, falar-lhe de um modo que espalhava sensação em torno! Ah!... e o som dos fotógrafos a disparar os “flashes” ( mesmo quando era uma máquina registadora a trabalhar...).

Mais nada lhe ocupou a cabeça até ao fim da tarde. Tinha uma lista de coisas para a casa: condimentos, um tempero francês, bolinhos de sândalo, um creme de dia e outro de noite para a Pi, um boné a dizer “Eu amo Nova Iorque” para o Ni, um eliminador de odores para tabaco e um saquinho de alfazema que já não se encontrava em lado nenhum porque já não se fabricavam (sinceramente!!!).

Deixou tudo nas mãos da criada, incumbindo-a laconicamente de ter aquilo tudo à noite. Era para isso que serviam as criadas, afinal. Quando se afastou para ir ver se o fato saia-e-casaco cinzento servia para a recepção, não deu conta que a criada, abúlica, olhava a lista de pernas para o ar.

Ao chegar ao pé do Continental ia tendo uma depressão. Depois de andar meia hora ou mais à procura de lugar, descobriu que o porteiro lha fazia sinais. Era um rapaz todo bem posto, músculos proeminentes sob a farda óbvia tipo Disneilândia, de olhos azuis com aquela “faísca” militar que, infelizmente, o marido nunca patenteara. Todo solícito, esperou que abrisse o vidro (os carros atrás apitavam, contraía-se-lhe o fígado imaginando íris sequiosas nos olhos cegos do pára-brisas) e gaguejou: “Se a senhora quiser, deixe-me a chave, que eu procuro lugar. A senhora vem para a recepção da “Fama”, não é?”

Ela sorriu esfuziante e deu-lhe logo a chave. Apressou-se a dar-lhe também umas indicações sobre a embraiagem que não estava a funcionar bem, o que daria uma conversa de garagem ou de telenovela picante tipo “A senhora e o mecânico” que o rapaz cortou logo para canto, fungando brasas e estalando os dedos. Depois, saiu apressada, meneando os joelhos e mordendo os lábios, visto que pisava o território selvagem de Lisboa.

Uma comodidade extemporânea relaxou-a. “Como era boa ideia porem aquele rapaz à procura de lugar!” Certos hábitos antigos renasciam dos escombros e isso dava-lhe espontaneamente uma das sensações que mais procurava: a da longevidade das instituições, no topo das quais os gestos eram todos cheios de flores e de nobreza (mas também uma sanha de gato só de pensar que lhe queriam roubar esse mundo!). Bom, inquietações à parte, tinha a certeza que ia encontrar um ambiente a condizer consigo, lá em cima.

Ao subir, encontrou a Mi, a mulher daquele negociante francês que brilhava em todos os salões, quase sempre sem o marido. Deram três beijinhos supinos, com uma animação que teria suscitado as imprecações dos antigos carrejões e os “ahh!” dos viciados no olhar, mais conhecidos noutros meios por voyeurs (ou “espreitas”). Mas agora, a cidade era um campo de asfalto eriçado de gafanhotos com três olhos e um pavimento móvel de lata, platinados e berros que semeavam o deserto nos espaços. Cirandando entre os carros, já não havia carrejões, nem “espreitas” tropeçando dramaticamente das falésias mas miúdos bem vestidos acercando-se com um ar alucinado e dizendo que precisavam de certo montante para uma agulha, a reverter oportunamente, já.

O musculoso porteiro estacionara o carro em dois palmos de passeio, um pneu no ar, bloqueando dois já estacionados. Saía compondo as abas do uniforme e inspeccionando a rua sem medo, apenas com consideração. O guarda do banco acenou-lhe e o porteiro esvaziou o peito devagar ostentando o mesmo ar satisfeito, de riso latente e olhos brilhantes com que ia abrindo e fechando as facilidades daquele perímetro e o direito de olhar para o céu, a única coisa clara ali à vista desarmada. Tinha momentos em que não fazia nada e, assim, à beira-mar, com uma rotina de aventuras não só futebolísticas e uma mulher prometida desde a infância, já ninguém o tiraria dali, a não ser a reforma.

Isto tudo se via de longe, enquanto a Mi a empurrava pelas escadas acima. À entrada, tinham sido apanhados pelo fotógrafo da revista mundana do costume. Ela fez para a lente um ar bem estudado enquanto a Mi se compunha subitamente numa posição de descanso, de quieta serenidade, puxando um cilindro de ar divino da cabeça até aos pés. A gesticulação de colégio, entre ambas, ficaria fixada para a posteridade, por graça de uma disposição instantânea treinada várias vezes naquelas mulheres que atravessavam o passeio, uma sorrindo como quem a mirasse de olhar pandos, outra enfrentando o auditório dos súbditos que nela cobravam, narinas frementes e olhos esbugalhados, a essência do esplêndido. Via-se dois dedos do joelho moreno esticando a saia. Podia-se imaginar o corpo enxuto, fulminante e já se adivinhava a boca sedenta, de lábios recolhidos para dentro, que se esticariam, com o tempo, até ao esgar, quando a embirração espremesse o seu quinhão de lágrimas. Por agora, os pingentes razoáveis e as pulseiras que as miúdas usavam, a alternância entre o castanho da pele e a brancura da camisa, davam-lhe um ar muito desportivo, de rainha egípcia em saiote. Mas já algo nela era corcunda e sequioso, já algo nela era usado e vendilhão como quem toma o embaraço do comprador por um sacrilégio. Era engraçado, diria um observador, como a boca entreaberta nela, a mistura de impressão e rejeição em toda a figura, se tornariam com o tempo numa espécie de quilha, remoendo as palavras. Os seus últimos gestos de velha seriam de certeza, já sem dentes, abrir e fechar a boca muda, como um papagaio atónito, de penas eriçadas e arrancar em terceira...

Depois, apareceu um homem. Era o negociante francês que, afinal, desta vez, vinha acompanhar a mulher. A sua figura, a cada passo, não descompunha o vinco das calças, e era como uma queda vertical na depressão. Ao cabo dela, com os cabelos já encanecidos, um balão branco com duas azeitonas pretas e um rabisco ofendido, torciam-se até às lágrimas.

Ao invés, a entrada de ambas, era fenomenal. Já tinha passado o tempo dos braços no ar e dos enlaces sonoros. Já ficavam mal as gargalhadas e os gritos histéricos de estapafúrdia. Agora todos se deparavam num engelhamento cúmplice porque permitia que cada palavra fosse um gesto de solidariedade. A “solidariedade”, agora, estava na moda. E as reportagens também. Havia aventureiros de corredor de repartição pública com o copo na mão, mesmo atrás, escondidos por umas braças respeitáveis de “tweed”. Além disso, estas recepções de fim-de-tarde ainda não tinham chegado à intimidade, estavam naquele passo em que a pele se revoltava contra a frieza da mármore, se arranhava nas colunas de betão e as Instituições Públicas não eram ainda nossas, as mucosas dos lábios não se tinham habituado a gostar de sal e os tornozelos a serem furados pelas esquinas de aço das secretárias pós-modernas. Havia muitas escorregadelas e sequências de acidentes estúpidos. Por isso, todos caminhavam com cuidado, porque a superstição uivava...

O clamor da recepção já fazia recear quem viesse ainda a meio das escadas. E a quem chega, os olhos fixam-se com calma, mas com nitidez. Há um vislumbre súbito de que são todos uns “fôfos”. Nada mais falso, sabia ela. Tirou o chapéu e deixou-o nas mãos dum indivíduo carrancudo que se esforçava por não parecer criado, correndo para o bengaleiro e correndo mais depressa a aninhar-se noutro sítio, onde escondia os manuais da Universidade.

Em breve, a Mi se despedia. Quanto a ela não lhe faltava com quem conversar. Acercou-se logo do Director do “Europa”, um acossado, e, mirando-lhe subtilmente os sapatos, articulou-lhe uma piada só para ele, acerca da Integração na Euroupa. Ele inclinou-se, é claro, pois não era dos que passasse à vénia por ironia depois de ter tentado alguma coisa.

Antes pelo contrário, era dos que se curvava logo, por precaução, fendendo o peito com a mão desocupada do cumprimento e deixando a voz estalar como colheradas de geleia. Com aquilo, dizia: “Minha senhora, como eu sou humilde curvo-me à senhora, queira desculpar não saber se a estou a cumprimentar como deve ser mas eu sou uma pessoa muito humilde” e, ao repetir aqueles despojamentos até ele próprio estranhar, sabia ela muito bem que era para a isolar e segregar aparatosamente. Mas ela insistia, simulava uma conversa e virava-lhe as costas à primeira oportunidade com um sorriso de rainha cumprimentando laboriosamente o povoléu. Depois de proceder a isto, que considerava as suas desfeitas, era capaz de se sentar num canapé, ou no que houvesse, e mostrar aquilo que considerava o seu fabuloso joelho ebúrneo, como talvez as costas da Maria Eduarda a estrear um salão d’ “Os Maias” e também de acordo com um soneto descabelado dum colega universitário que não seguiu as Letras. Aí, a cabeça desfiava-lhe pensamentos aparentemente importantes, cabalas que ela julgava ser ciência e cultura só porque alguém a impressionou sobre o assunto, fumando cachimbo, numa poltrona de couro. Era o momento das genealogias que alguém lhe fizera, como quem faz uma carta astrológica cheia de bons augúrios (ou agoiros). Todos os dias lhe descobriam mais um primo ilustre e, como nenhum problema se lhe punha, quando cruzava a perna e ajeitava as mãos, já tinha chegado à conclusão segura de que não era uma pessoa qualquer . Por conseguinte, quanto mais aprofundava, mais pressuposto “bom sangue” entretecia nos ramos da sua árvore.

O Director do “Europa” corria de um lado para o outro. E ela observava-o. Não via que ele se desgraçava a cada momento, agora já com os óculos escuros e o cabelo ligeiramente crescido atrás, tomando a posição do adolescente a qualquer personagem professoral e rabiando para que aquilo acabasse, deixando-o ir embora. Não via como ele, depois das gravatas institucionais e dos consensos geométricos que tinham levado a Revolução para a câmara de gás dizendo que era um duche, caía agora na segunda adolescência, apaixonando-se a cada “cocktail”, dando de barato a sua firme moral socialista-e-cristã e tremendo todo, já de um modo estranho, frente a um jovem de busto largo. Mas este era um mundo impiedoso, que ela nem via, disposta que estava no centro de outro sistema solar.

E, já que estamos na Astronomia, os satélites vinham fazer-lhe a corte. Falava-se de coisas importantes como a próxima festa em casa da Fulano de Tal ou na seguinte que, dois dias depois, seria na casa de Sicrano, o tal. Falou-se de roupas, mas brevemente, só por causa da jovem Bi que se iniciara nestas andanças (e noutras também...). Ela gabou-lhe o corpo, sem escolher as palavras. Nestas coisas era muito directa, muito rapariga! E soltou um riso fresco! Achou que a jovem estava com uma cinta formidável e tinha um bronzeado apetitoso. Ela sabia-o porque se apercebia da maneira como os homens perdiam a memória quando a moça, rodando com ódio a si própria, lhes oferecia à vista tudo o que bastava, mesmo se desse um grito ou lhes arrotasse em cima.

Sentou-se ao lado e fez-lhe um grande sorriso, pousou-lhe a mão na mão e tudo corria às mil maravilhas se não fosse o criado, pressuroso, certamente preocupado em ainda ir à aula do Instituto Superior Autónomo que frequentava à noite, depositar-lhe um bilhetinho a dizer que o marido não podia vir.

Não era mulher para dizer, encolhendo os ombros, que isso não lhe interessava... e a festa prosseguia. É evidente que o marido devia ir ali, nem que fosse para esmagar o atrevimento do Director do “Europa”. Sim, porque era daqueles casos em que não bastava relegá-lo para um canto! Era preciso dar-lhe uma lição.

Eis que, já à saída - o Director do “Europa” ouvia espantado, de joelhos unidos e pés para dentro, um deputado qualquer - deu um encontrão no braço de alguém. Não a tinha visto. Quando se voltou, era a Si. Disseram um “Olá-estás-boa” muito rápido e simultâneo enquanto a Si a deixava sumir, atirando-lhe um sorriso aos calcanhares.

Cá fora, o porteiro musculoso provocava-lhe sentimentos sulfurosos, os carros resfolegavam nos semáforos e um grito de bêbedo incomodava-a fortemente. Pensou que aquilo não podia ficar assim. Desde que saíra o seu último livro, ela fizera-lhe uma paródia pública em casa do barão Ti, pusera-se a citar frases inteiras, os convidados fizeram um círculo em torno e saiu com aplausos depois duma onda de gargalhadas que - diz-se - fez abanar o lustre do teto!. Agora, não a podia ver ao fundo de uma sala que estremecia logo. Era uma coisa epidérmica, como o anunciar de um duelo no Oeste. Sentir aquilo já a fazia ponderar em certos convites, ela que, desde há algum tempo, fora chamada a “Restauradora” da vida social, ela que, a partir da sua própria casa, por meio dum cuidado calendário de jantaruchos e recepções, esmagara em prestígio e glamório as tainas oficiosas dos palermas como o Director do “Europa”, onde até eram convidados comunistas. Ela, que desenterrara finalmente as casas da gente bem, devolvendo-as ao roteiro anual de boa sociedade. As constelações sobrepunham-se já há anos em seu favor, anunciavam-lhe uma estrada larga na História. O aparecimento daquela personagem não podia perturbar-lhe os planos. Mulher determinada, tinha simplesmente de esmagar aquela ameaça! Não a preocupava nada a paixoneta que a Si tivera pelo seu (dela) marido quando eram finalistas no liceu. Com isso, até se ria. Aquele grandalhão de fatos britânicos tinha-o pelos colarinhos desde quando quis, e sabia como. O que a preocupava era a insídia latente e isso era imperdoável. Ah, se a pudesse esbofetear! Nem media a diferença de estaturas. A Si era uma mulher nortenha, de olhos claros, com a raiz dos cabelos e dos dentes bem ajustados, quase brancos. Apesar de um bocado apodrecida pelo álcool, rolava o seu corpo grande nos salões com uma segurança considerável e, quando chegava ao pé dela, parecia um urso polar ao pé dum pinguim.

Ah! Se lhe pudesse chegar! Já por causa dela se deixara cair, num momento de depressão, em frente aos canais internacionais a ver lutas de boxe e só tocara o fundo durante um desses torneios entre mulheres e em que as adversárias rebolavam uma na outra, num ringue de lama. Estava quase a definir o que queria... quando o carro se foi abaixo. Depois, um idiota qualquer pôs-se a apitar e fechou o vidro. Estendeu as pernas que, assim, sob a saia torcida, pareciam dois braços esquálidos agarrando o chão e fez uma cara de profundo nojo pelas ruas de Lisboa. Ao lado dela, um taxista de bigode horroroso, veterano da guerra, articulara-lhe à espessura do vidro, algumas perversões, escapulindo-se facilmente. Porque é que ele, o marido, não estava ali?! Sabia perfeitamente que o reconheceriam e, graças a Deus, que ainda havia temor em Portugal! Olhou para o painel de comandos, para os botõezinhos e para os mostradores esperando que aquilo andasse. Mais um instante de espera e voltou a dar à chave. Como previra, o carro avançou e tudo se desenrolou normalmente.

Enquanto isso, a Si voltava a surgir-lhe em cena e não podia deixar de sentir dores no estômago, como se lhe agarrassem a pele da barriga e a arrepanhassem às mãos cheias.

As pernas desconjuntavam-se entre os pedais, as rótulas salientes puxavam-na para fora da lisura da roupa, transformavam-na num bicho feio, nu, que esbracejava e esperneava.

Entretanto, os famosos cabelos dos anos cinquenta, pareciam também que se esboroaram. Olhou-se ao retrovisor e parou de repente, sobrelevando mais uma vaga de apitos. Meu Deus, gritou. Em Lisboa, todos se perseguem uns aos outros! Tentou acalmar-se e desenhou uma expressão que lhe destilava um eflúvio brilhante, capaz de a fazer sentir-se outra vez uma figura de proa de um Portugal onde desse gosto voltar a viver, onde todos os sonhos truncados com o 25 de Abril voltavam a valer a pena. Só a imagem da Si a fazia erodir-se lentamente em bílis ácida e humores oxidantes. Ah! Parou pela terceira vez o carro. O fígado saltava-lhe, pulsava-lhe grande como uma bola de futebol e o resto do corpo esticava-se mortiço, com frio e comichão. Apetecia-lhe esmagar as unhas para voltar a sentir. Por baixo do fígado crescia-lhe um vapor entorpecente que a elanguescia para um canto, despenteada e mesquinha como uma miúda humilhada pelos rapazes. Depois, tinha vontade de espirrar e, subitamente vinha o sono. Ah! O pior que a Si lhe fazia, era ver-se naquele estado, irritada, nervosa, incapaz de se dominar. Esperava por estar em frente dela para a reduzir a bocadinhos e pôr toda a gente a segurar-lhe a mão, pedindo-lhe, por sua alta recreação, que se acalmasse. (continua)

André de Melo

quarta-feira, 24 de junho de 2009

"A Aversão" (1ª parte)

Quinshaza/ Viena de Áustria 1991- 1994

A Clara, pela telepatia, porque a Amizade também é uma forma de Amor

I

Antes do sol nascer, já dói o fígado a quem tem de se levantar.

Se espreitar pela janela descobrirá, então, um pequeno dia, completo, entre as casas. Às vezes há também a neblina que convém num frio atrevido e pica o novelo dos olhos estremunhados, convocando um espirro como uma bala na câmara.

Por outro lado, o arfar – primeiro, compassado, depois sem ordem - dos autocarros, já tinha atravessado o sono há muito tempo, ainda era noite cerrada, até o deixar exangue de anjos e prenúncios. Os boémios vinham esconder-se à pressa, por trás da porta vacilante antes de o sol - se viesse - cerrar o punho flamejante sobre a avenida, onde as manhãs não cantam, nem assobiam.

Longe dali, há orvalho e sarças, vegetação espinhosa, ainda ao alcance do mar. E a manhã pede licença. Os besouros e as cigarras cantam até mais tarde e há sempre alguém percorrendo um carreiro entre a vegetação que, a certo ponto, julga estar sozinho e começa a assobiar... ou até a dar até uns passinhos de dança. Ao longe escuta-se a sirene de um comboio. Sons metálicos, singulares, dobram por roldanas e êmbolos um tempo que apenas pairava.

Neste cenário, posto em movimento atrás do vidro, só o mármore é frio, como é bem capaz de estar lá fora.

A ínfima figura madrugadora que perfazia o semicírculo amarelado sobre a relva ia desaparecendo e o assobio já não atravessava o vidro. Em breve seriam nove horas e o pasmo apossar-se-ia dos indivíduos acordados que dariam os braços como dois peixes compridos ao altar do trabalho, empurrando-se ensonados na fila do sacrifício. Seria doce dormir ali mesmo, à janela, ao ritmo monótono dos insectos que teimavam contra o vidro em bátegas tontas. Alguns dos melhores sonhos, recordações de infância, de Verões largos e entardeceres floridos, vêm naquela altura. Mensagens do fundo, boas notícias, avisos seguros sem violência. De um lado e do outro do vidro, peixes de aquário agitavam com as barbatanas, torrentes de recordações, palmeiras despejavam-se em céus laranja afagados pelo Mar, rimas verdes de Verões parados no começo, eternamente, como um diaporama...

...mas ela queria lá saber disso!

Caminhava pela casa, de joelhos nus, a camisa de noite tinha uma série de fímbrias que se arrastavam pelo chão, como a asa de uma águia a fazer cortesias. O ar condicionado funcionava perfeitamente (este pensamento irritava-a como uma frase publicitária mas sem chegar à fúria, pelo que a repetia como quem alimenta um eco), andava descalça pela alcatifa e, ao passar pela porta envidraçada, achou que talvez fosse a reencarnação duma senhora romana, ou a sua própria reverberação num mundo paralelo deambulando pelo triclínio duma "villa", na Campania romana. Encheu-se de vaidade por conseguir evocar um mundo assim, distante. É este o poder inigualável das pessoas cultas, pensou. Mas não podia perder tempo em devaneios. Não podia adormecer!

Debruçou-se sobre a secretária que sabia manter numa ordem “impecável” e... começou a escrever furiosamente! Com setas e notas à margem, com fotografias que tirava da gaveta e entremeava entre as páginas, para não se esquecer.

Parou uns momentos. O marido estava agora a acordar. Devia ter metido a viola no saco há alguns dias porque deixara de rabujar por dormir sozinho ao angustiante deflagrar da madrugada, quando as gaivotas avisam o Sol ou a chuva, em voos rasantes. Já sabia que aquilo, para ela, era um imperativo, que não podia deixar de o fazer! Era parte integrante da sua condição de mãe e de filha contar a história da família, descrever as paisagens que, como vales secretos, perduravam na vida das pessoas da sua “allure”, pontes do Invisível unindo este Mundo e o outro.

Bom! Uma escritora precisava de ambiente. Desarrumou ligeiramente a secretária antes que o marido lhe pusesse as mãos nos ombros e lhe picasse a cara com um beijo desagradável, agudo como o voo das gaivotas. Apesar da encenação mental, mordeu uma fúria repentina e conseguiu mostrar os dentes sem perturbar minimamente o correr da pena. Nunca lhe faltava inspiração, nem percebia como podia faltar! Havia milhares de coisas para contar e ela fazia-o meticulosamente, registando todos os pormenores, cada cena, uma a seguir à outra. A “estrutura da narrativa” - reflectiu em azáfama - viria mais tarde. Cada coisa a seu tempo, como quando cuidava dos filhos, como quando advogava. Se houve alguma coisa que saiu fora do plano, foi só o casamento. Talvez tivesse sucedido depois de começarem os preparativos. Mas, ainda aí, a decisão foi do coração, foi de repente. Quando deu por si já estava apaixonada e sabia que era ele quem ia ser o pai dos seus filhos, decididos mentalmente, um a seguir ao outro, desde a infância ou talvez, desde o passeio no triclínio na “Villa” romana, da Campania, com o Vesúvio ao fundo.

Bateram as nove horas, no relógio da sala. O marido saía, desapertando o último botão do colete com aquele ar de quem usa o fato como um uniforme militar. O..., tratou-o pelo nome íntimo que era aliás usado pelos amigos da universidade (e que suscitava equívocos em encontros casuais - raros - com antigas colegas) onde brilhou desde o primeiro momento que lá pôs os pés, usando sempre uns fatos elegantíssimos e um relógio de corrente, augúrio de altos voos, entre cascatas de aplausos. O facto de os estudantes serem todos tratados assim, até pelos pioneiros do fornecimento de droga, no “campus”, passou-lhe despercebido. Não tinha sequer entrado e os contínuos tratavam-no por “senhor doutor” fazendo uma boca muito pequena no assento circunflexo que deve ser a prova da não-arbitrariedade do signo português. Voltou a enlevar-se com os estudos que fizera de Semiologia e riu-se ao mesmo tempo do caricato da situação. Gostava de se rir sozinha do marido, de vez em quando, primeiro, porque achava que isso era um sinal de intimidade e a distinguia ainda mais no altar da excelência matrimonial. O riso, o pranto e os suspiros, tudo na mesma bandeja. Mas depois, pensando um bocadinho mais, receava que a tomassem por tola, quando a imagem que se reflecte no rio dos outros, despojados aos nossos pés, nos enlouquece...

Ficou a olhar o marido, durante um bocado, pela janela. Não vestia um fato sem que ela lhe desse a opinião final e, geralmente, era ela mesmo que ia ao alfaiate orientar as modificações, algumas em segredo. Claro que não o contrariava muito. Mal o sentia a rabujar, adaptava-se rapidamente aos seus desejos, pelo menos no momento. Era assim que se entendiam e o casamento durava há vinte anos.

Em geral - pensava enquanto o observava, ela de caneta suspensa sobre o papel e ele manobrando desenvoltamente o carro para abrir e fechar a garagem - gostava do seu estilo britânico e professoral. Quando lhe viu o pé estirado para fora, o brilho polido do metal azul, o grosso sapato de cerimónia “Church`s”, numa terça-feira, e a bainha exterior da calça oscilando atrevida, achou que tudo estava perfeito e que era aquela perfeição que devia transmitir na sua escrita. Sobretudo, provar que essa perfeição era uma possibilidade histórica, existindo nas cidades do passado submersas inteiras no oceano do tempo sem que uma trave vacilasse. Provaria assim que este era o Referente de tudo o que havia de sólido, pertinente ou com sentido para dizer na sua História: a sua Atlântida.

Ele parecia pressentir-lhe o correr do pensamento. Ultimamente andava um bocado alvoroçado e agitava-se a qualquer gesticulação, a qualquer presença, de súbito tornada decisiva, sem que se soubesse porquê. Olhava-a agora por cima dos óculos e fez-lhe um sorriso com aquele ar de rapaz extemporâneo, ao atravessar o recreio de um colégio feminino que formara no pátio de saia engomada e suspirava por lhe desabotoar o colete numas inspirações pecaminosas que vinham não se sabe de onde. Rodava o volante, quase sem mostrar as mãos, um pouco ministerial, talvez, traçando os rumos da História com um pequeno meneio que telepaticamente deslocava a esferográfica dela, guiando uma neblina sobre a folha como um flamingo azul. Era assim que ela gostava de o ver. Era o que possuía nele, para inveja das amigas. O domínio do seu riso, o seu segredo de masculinidade, o interruptor daquele pomo de Adão a subir e a descer, como uma aflição, como uma…bem!

Mas era preciso continuar a escrever. Era mulher e não podia deixar de sentir que havia um vale a lavrar com a esferográfica. Não precisava de ser feminista mas era um facto a ter em consideração: todos os desprezos e, pior que isso, todos os paternalismos a que se sujeitava. A mesura não a amedrontava. O mal das feministas é que não sabiam distinguir Educação de sobranceria.

Falar com as raparigas da terra ou com aquelas mulheres dos partidos de esquerda a que a carreira do marido a obrigava, ser despachada e concisa na transmissão das ordens aos criados, evitar cumprimentar na igreja muita dessa gentinha que para lá se acotovelava, não era a mesma coisa que conter-se numa crítica em frente à audiência ou adiar uma inflamação verbal. As críticas guardavam-se para privado, para os amigos íntimos, na tranquilidade dum chá. Ah! A ideia de intimidade fê-la cruzar as pernas. Sentiu-se um pouco desnudada e susteve a custo uma espécie de langor, muito súbito, que lhe tomava matreiramente os braços e lhe evocava um desses ambientes íntimos, no escritório do Tó, ali à avenida de Roma ou numa escapada ao “atelier” da Bé, com os amigos da Lá. As mulheres sabem tanto, dizia de si para si e não continha um sorriso de mulher da sua época, bem inserida na estrutura social, no mecanismo do relógio do tempo.

O filho mais velho tinha ido passar uma semana fora. A Pi e o Ni, os gémeos, iam-se levantar daqui a pouco, como sempre, aos arrulhos. Já sentia a Muana, a criada prêta, a remexer na lata dos biscoitos para escolher os mais branquinhos para a Pi. Suspirou ante a visão do anúncio de pequeno-almoço que era o mote da sua vida. Escrever antes o cenário da Vida. Era esse o seu privilégio, sim...mas também um dom.

Nem todos se lembrariam de pôr em ordem aquelas sensações e recordações, de pegar no fio das coisas e, sobretudo, de explicar ao mundo que o passado é um presente perfeito muito mais-que-perfeito (e sério) do que se julga.

Ai! Suspirou longamente. Ser mãe, mulher, namorada, filha e descendente ao mesmo tempo era um desafio ao qual nunca pensou ter aquele dever, aquela predestinação de corresponder.

As folhas submergiam sob a vaga névoa azul, como se fosse uma relva impressionista ou uma malha regular tecida febrilmente pelo esgravatar dos dedos, ao correr do coração transbordando como uma cornucópia. Tinha a sensação de dar, de ofertar a sua imaginação, a sua inteligência, a sua sensibilidade, a sua carne... ao auditório, às pessoas que corriam no dia-a-dia, em azáfama por causa dos maridos, com os namorados, aflitas com o que iriam servir aos convidados de improviso, naquela noite, com o preço das coisas, com um ou outro pormenor que poderia espalhar o calor e a comunicação em paredes sem alma, como os pequenos boiões de caviar a que hoje qualquer um tinha acesso e que podiam transformar uma vida cinzenta, sem requinte, numa nova troca de alentos, de preocupações, em suma, de vida social. Até os operários, hoje, podiam tentar enriquecer as suas mesas com caviar..! Olhou pelo canto e viu o próprio busto reflectido num prato de baixela. A camisa de noite escorregando um pouco sobre o ombro, a emocionante cabeleira negra que teimava em usar como no tempo dos fabulosos anos cinquenta e aquelas pernas cruzadas, sem manchas nem pontos, deixando balouçar o pé em topete negligência. Gostava de se ver. Estava ali alguém, pontuando um tempo que, como a miniatura da sua trisavó religiosamente passada de mão em mão entre as filhas mais velhas, seria de novo transmitida até às mãos dos arfados e suspirados amores impossíveis dum futuro longínquo. Seria investigada e perscrutada em busca do segredo apaixonante dos seus olhos negros e do seu sorriso - havia que admitir - distinto. Ah, isto era incontestável!

Por agora não sabia mais do que escrever ( as Musas picavam um bilhete no Metro). Por volta das dez, a fonte esgotara-se. A Pi e o Ni tinham ido para Lisboa. Resolveu-se a dar o carro ao Ni em dez vezes menos tempo que a mãe a autorizara, um dia, a ir ao cinema com o primo e escreveu mais uma página sobre o senso dos progenitores de antanho, das catedrais de critério que moviam as pálpebras, por cada resposta enigmática.

Pousou a caneta e olhou o conjunto da secretária com um certo enfado. Ia fazer agora aquilo a que uma mulher como ela não podia deixar de consagrar pelo menos duas horas diárias: a imagem. Não tinha ninguém em casa a não ser a cabo-verdiana. Sentiu-a remexer em qualquer coisa. Devia estar a limpar a cozinha ( na verdade, a mulher fartava-se com o resto mais escuro dos biscoitos, que lhe era sempre concedido, talvez em jeito de crase, e que ela engolia como as piadas a prêto e branco). Fechou a porta que comunicava com a sala e passeou negligentemente até à casa de banho, pôs a água a correr e procurou os sais, tacteando para não desfazer a pose. Não, não ia tomar um banho de imersão. “I”, sibilou entre os dentes! Era uma mulher activa. Ajustou o chuveiro e, leitor, saia enquanto eu me volto de costas... estes eram momentos íntimos, não temos relato possível. (continua)

André de Melo

A Aversão (sinopse)

Sem ser jovem, frequenta um círculo de pessoas fotogénicas e endinheiradas que não perdem uma oportunidade para apareceram na Imprensa de sala-de-espera de dentista. Ela lidera mesmo um processo que chama “ restaurar a vida social de Lisboa”.

A certo ponto, conhece o Director de um jornal da antiga e prestigiada Imprensa nacionalizada que se conseguiu equilibrar, como principal Executivo da Empresa, no mercado livre, de tal modo que o Jornal funciona como uma espécie de Instituição oficiosa do Estado, onde o emprego e a gestão se assemelham aos de uma Repartição.

O Director, vindo duma classe média, laboriosa e republicana, passa assim das “tainas da Presidência da República”, em dias aprazados, para uma vida social intensa onde mulheres-raparigas o deixam à beira de uma crise de idade. Aí, o Director conhece uma antiga colega da Escritora com quem alimenta primeiro o despeito que partilham ambos pelas arrogâncias desta e com quem se envolve depois sentimentalmente. Esta mulher, mais ou menos trágica e semi-alcoólica, não deixa por isso de ser atraente e a sua ingenuidade actua como um formol dentro do qual a degradação da carne e do espírito pararam.

A pretexto de um projecto de triagem rotineira da literatura de cordel, mais ou menos promovida nas classes altas, o Director resolve encomendar uma série de artigos a um profissional do jornalismo venenoso, daqueles ainda encalhados na nostalgia da Revolução, com os quais pretende ridicularizar a Escritora.

Os artigos acertam tão bem no alvo, que a Escritora se vê ridicularizada em público e entra em depressão, passando depois a um estado de obsessão vingativa.

O Director, saciado com o primeiro efeito, passara depois o assunto para um jovem estagiário com pretensões literárias e lá vai progredindo despreocupadamente na sua nova vida social. A relação sentimental com a semi-alcoólica é-lhe consentida por esta, por inércia e devido à aversão da Escritora, que a detesta desde menina.

Após uma breve investigação, a Escritora, determinada a não se deixar ridicularizar, descobre por intermédio de um amigo solteirão, bem instalado no mundo Académico e na Política e que sempre alimentou uma paixão frustrada por ela, quem é o jovem estagiário a espetar-lhe farpas, bem como a arrastar os seus romances pela lama. Vai mesmo ao ponto de, oportunamente, se relacionar com uma colega do rapaz, uma jovem mãe, com quem este tem uma relação de amizade cada vez mais equívoca.

Depois de tentar recorrer, sem êxito, aos conhecimentos marginais do marido, do tempo da Contra-revolução, para pregar uma partida ao rapaz, acaba por encomendar o “trabalhinho” a dois primos cabo-verdianos da criada. A coisa corre tão mal que o rapaz, suposto ser alvo duma “barrela” para que fosse obrigado, na sequência, a pedir ajuda numa casa vizinha, onde a Escritora, as amigas e os fotógrafos da Imprensa de quiosque o esperavam, chega atrasado e encontra-as, a ela e às amigas, por sua vez assaltadas e abusadas. Um dos cabo-verdianos decidira, à última hora, assaltar quem lhe encomendara o trabalhinho. É que a criada cabo-verdiana, mulher decidida, convencera-se que a Patroa estava possessa e fê-lo sentir aos primos: a Patroa precisava de um exorcismo que ele administrou ao seu modo.

A Escritora, presumivelmente violada e em estado traumático, teve de recolher ao hospital para exames. Tendo a criada sido presa por cumplicidade e permanecendo o agressor a monte, a Escritora, depois de se restabelecer, exige ao amigo solteirão que lhe arranje dois marginais competentes para, desta vez, fazer mais que uma simples “barrela” ao rapaz.

O amigo solteirão, desesperado, lá lhe faz a vontade e o rapaz, num dia preguiçoso, é alvo de uma tentativa séria de assalto, à saída da Redacção do jornal.

Ora a jovem mãe, colega do rapaz e, ao contrário deste, mais bem sucedida no Jornal, onde o Director acabara por desviar as forças mobilizadas pela Escritora e pelo seu amigo solteirão, contra o estagiário (erigindo-o como bode expiatório da campanha difamatória) ia a sair naquele preciso momento. Sem pensar, interpõe-se, quase inconscientemente, entre os assaltantes e o rapaz.

Após ter sido envolvida e tentada com a promoção social que a Escritora, entretanto lhe oferecera para saber os movimentos de quem continuava a ridicularizá-la, esta jovem mãe assume, naquele momento inesperado, o sentimento mais do que ternura que alimentava pelo seu desafortunado colega e leva com a facada que era dirigida ao rapaz.

Pouco depois, no carro onde ele e os colegas correm com a jovem mãe para o hospital, ela esvai-se em sangue e compreendem ambos por fim, o sentimento que os unia há muito tempo. Mas tarde demais...