Blogue de apoio ao "Boca de Incêndio"

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

sábado, 4 de outubro de 2008

147/260


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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Kit para o Jarmelo

(exposição na Assembleia Municipal da Guarda no dia 30 de Setembro de 2008)

Contrariamente ao que se possa pensar, quase todas as intervenções que aqui tenho tido, poderiam ser interpretadas com e não o contrário.

Vejamos que faço aqui apelo ao equilíbrio que deve haver pelo menos na mesma unidade geográfica/administrativa.

Alguém aqui é contrário à igualdade de oportunidade ou condições de vida entre as gentes do mesmo concelho?

Volto aqui a reafirmar que aquilo de que nos queixamos em relação ao Litoral(Lisboa) é à mesma escala (ou até maior o abismo) verdade em relação ao próprio concelho.

Como não temos escola primária, não podemos lançar o Magalhães… também não temos mar… nem sequer água para todos.

O lançamento (apresentação pública) que hoje aqui fazemos é um Kit.

Um kit para visitantes a terras do Jarmelo (pois os que lá moram… amanham-se de outras formas, talvez herdadas desde antes da nacionalidade.

Trata-se de um kit de necessidades básicas, como disse, mais dirigido aos que visitam ou se pretendam instalar nas terras do Jarmelo.

Este kit é composto pelas analogias que seguem:

- Garrafa de água, que analgésicamente substitui a própria torneira ou contador.

- Papel higiénico, que analgésicamente substitui o saneamento

- O paralelipípedo granítico, que por analogia substitui o piso das ruas e acessos.

Embora se diga tratar-se de um analgésico (pelo menos é o que diz a embalagem) e como não sei o que significa… aviso que nenhum dos componentes, deve ser entendido como supositório.

O uso deste kit, é da exclusiva responsabilidade dos utentes.

A obtenção deste kit, não isenta a cobrança pela C. M. Guarda da taxa (ao que parece de 200€) referente à fossa, que se cobra a quem quiser fazer uma habitação nessa aldeias que não têm saneamento.

Será que esta taxa deve ter como objectivo diminuir a percentagem de habitações sem saneamento? Pelo raciocínio lógico quem não tem casa, também não tem falta de saneamento nem de água ou piso.

Quanto à validade deste kit; este género de produtos, expira a cada 4 anos que passam.

O Jarmelo, desde o tempo de D. Afonso IV (pai de D. Pedro) deixou de ter influência… Basta recordar que um dos conselheiros reais da altura (equiparado hoje a amigo pessoal de Primeiro Ministro) de nome Pêro Coelho, era do Jarmelo… daí para cá… D. Pedro mandou destruir a vila do Jarmelo e salgar como castigo, as suas terras; dizem por lá as pessoas que desde então, pouco ou nada tem acontecido de relevante.

Guarda, 30 de Setembro de 2008.

Agostinho da Silva

(Presidente da Junta da freguesia de S. Pedro do Jarmelo)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Albert Cossery

Os Homens Esquecidos de Deus (1940)
A investigação policial deu origem a uma descoberta sensacional. Não a do assassino, que não tardou, mas uma descoberta de outro interesse, profundamente humana. O vendedor de hortaliça tinha sucumbido, ao que parece, sob a pressão fortíssima de um penico em Terracota que lhe atirou à cabeça, da janela do seu pardieiro, Radwan Aly, o homem mais pobre do mundo. A profunda humanidade do acontecimento residia no seguinte: o penico com que Radwan Aly tinha atingido o vendedor era o único bem, o único móvel da sua casa, e não hesitara em sacrificá-lo para salvaguardar o sono de toda a rua. Perante um tal sentido do sacrifício, até os próprios polícias ficaram confundidos.

A Casa da Morte Certa (1944)
Parecia que a casa, não contente por desabar, encerrava, nas suas profundezas, um espírito doentio que alimentava a perturbação das almas. Com o seu silêncio hostil, Rachwan Kassem exercia uma influência oculta verdadeiramente devastadora. A todos quantos o foram ver tinha oferecido o espectáculo de um homem submetido às piores dores, congeminando vinganças inflexíveis e tenazes. A atitude enquadrava-se com a personagem, mas, desta vez, ultrapassava as medidas. Chegaram a odiá-lo e a desejar a sua morte imediata, a fim de poderem respirar.

Mandriões no Vale Fértil (1948)
Se o mundo se transformou numa coisa mal-humorada, isso deve-se, sem dúvida, ao facto de agora ser preciso muito dinheiro para viver. A vida é muito simples, mas tudo conspira para a tornar complicada. É quando nos vemos livres da ambição do dinheiro, do orgulho ou do poder que a vida se revela formidável.» A mandriice, longe de ser um defeito, é cultivada como uma flor rara e preciosa pelas personagens deste livro. Galal, o filho mais velho, é considerado o mais sábio de todos porque passa a vida na cama desde há sete anos e só se levanta para ir à mesa. Rafik, o do meio, renuncia a casar-se com a mulher que ama temendo que ela perturbe para sempre a doce sonolência que reina lá em casa. Como terá Serag, o mais novo, a loucura de ir trabalhar para a cidade? Porque a verdade é esta: o trabalho só pode engendrar desordem e desgraça.

Mendigos e Altivos (1955)
Por intermédio da personagem central, Gohar, ex-professor universitário de Literatura e Filosofia, mendigo por decisão própria, conduz-nos a uma visão do mundo civilizado, enquanto inutilidade orgânica, num explosivo cocktail de escárnio e reflexão.

A Violência e o Escárnio (1964)
Numa cidade do Próximo Oriente, governada por um tirano grotesco, um pequeno grupo de contestatários, trocistas e cépticos, decide combatê-lo pondo-o a ridículo. Para isso, espalham por toda a cidade um belo cartaz contendo o retrato do governador e um texto tecendo os maiores louvores à sua acção governativa. Inventam assim uma nova forma de acção política...

Uma Conjura de Saltimbancos (1975)
Todos os países tinham o seu contigente de imbecis, de sacanas e de putas. Era preciso ser um débil mental para acreditar que se passavam coisas importantes noutros lados. A única diversidade era a da linguagem e a única novidade era que os mesmos imbecis, sacanas e putas se exprimiam numa língua diferente. Medhat recusava-se a absolver a aberração dos que aprendiam toda a espécie de idiomas estrangeiros a fim de penetrar o sentido das mesmas palermices que podiam ouvir na sua terra, sem precisar de se deslocar e gratuitamente. Pela sua parte, nunca se sentira tentado a percorrer o planeta à procura se sensações ditas transcendentes por se situarem em hemisférios distantes. De que servia mudar de continente, aspirar a outros climas, se não se conseguia ver, em primeiro lugar, o que se passava à nossa volta?

Uma Ambição no Deserto (1984)
O xeque Ben Kadem, Primeiro-ministro do emirado de Dofa, interroga-se sobre como conseguir um papel na cena internacional, encontrando-se ele à frente de um Estado miserável, completamente eclipsado pelos Estados vizinhos, produtores de petróleo. Inventa um estratagema: simular atentados à bomba, reivindicados por uma denominada Frente de Libertação fantasma. Tal medida corre o risco de fazer despertar a simpatia por parte de movimentos revolucionários internacionais e a inquietação dos grandes poderes tutelares. Para executar o seu plano, recorre a um jovem aventureiro, Shaat, que retira da prisão onde este cumpria pena por tráfico de ouro. Shaat passa a fabricar as bombas que Mohi se encarregará de fazer explodir. Mas o controlo desta falsa vaga de terrorismo escapa ao Primeiro-ministro, e Mohi - nem mais nem menos do que o seu próprio filho - é morto pela explosão prematura da bomba que transporta.

As Cores da Infâmia (1999)
O que mais agradava Ossama era contemplar o caos. De cotovelos apoiados no corrimão da passagem aérea cujos pilares metálicos rodeavam a praça de Tahrir, ruminava ideias atrevidamente contrárias aos discursos propagados pelos pensadores oficiais, os quais garantiam que a paternidade de um país estava subordinada à ordem. O espectáculo que tinha diante dos olhos condenava sem apelo essa afirmação imbecil. Desde há algum tempo que aquela construção, imaginada por engenheiros humanistas para evitar aos infelizes peões os perigos da rua, lhe servia de observatório panorâmico, reforçando a sua íntima convicção de que o mundo poderia continuar indefinidamente a viver na desordem e na anarquia.

Conversas com Albert Cossery (1995)
O escritor egípcio Albert Cossery conversou durante horas com Michel Mitrani das origens da sua obra e das influências e amizades literárias que atravessaram a sua vida. Nascido em 1913, Albert Cossery vive, desde 1945, em França onde publicou a maior parte dos seus livros. Os escritos de Cossery lançam um forte desafio à preguiça e à reflexão neste mundo de superprodutividade. Com o seu incomparável olhar sobre os costumes e atitudes contemporâneos, Cossery convida o leitor ao despojamento e ao riso como forma de subverter os valores dominantes, que alienam e oprimem as mulheres e os homens do nosso tempo.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O vómito (2)

(...) Excluo desta caracterização os epifenómenos criados pela voragem mediática, embora não a sua linearidade enquanto pano de fundo. O que se passou então? A investidura no reconhecimento público resulta de um deslumbramento, de um desejo alucinado de amor (lembram-se de "O Perfume"?), os mesmos que os media se prestam a alimentar, condicionar, e mais tarde destruir, se for o caso. Quem adquire a notoriedade sabe que tem um preço a pagar: cumprir o que se espera dele, sob pena de deixar de existir. Veja-se o caso de Luiz Pacheco. O "sistema" precisava desesperadamente de um "bobo da corte" e encontrou-o na personagem do escritor e editor. A partir daí, os media só queriam dele uma coisa: que o maldito dissesse umas "maldades". Nesta análise, notam-se já algumas diferenças entre o antes e o agora. Em síntese: hoje, a relevância pública perdeu o tom aristocrático, a independência; não resulta de um confronto ideológico ou colectivo; na grande maioria dos casos é puramente mediática, sem qualquer implicação social; resulta de um permanente compromisso; defende-se pela blindagem e não pela audácia; foge ao verdadeiro escrutínio público como o diabo da cruz, precisamente porque ele é a única condição para a transparência, a fluidez e a "inscrição", de que falava José Gil. Perceberam agora porque é que MST odeia os blogues? Precisamente porque lhe convém, como a muitos outros, uma redoma censória em volta da blogosfera, que garanta a sua domesticação e inoperância. No fundo, a imposição de medidas proteccionistas que impeçam o livre curso do mercado, da livre circulação das ideias. MST é o porta-voz de uma nomenklatura informal que domina o da opinião e da edição. Os livros que escreve é o que menos importa para o caso. Centremo-nos somente nesta imagem: um grupo de oligarcas defendendo o seu território, sabendo que não resistirá, por muito tempo, à verdadeira democratização do discurso público, à sua descentralização, à rede. Notável, também, a sua incapacidade em colocar a prudência à frente do pânico, ou seja, quanto menos se resiste, menos se pode temer.

sábado, 15 de março de 2008

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Comunicado

Excerto do comunicado do PSD - Guarda

Mas, nos dias que correm, parecem existir novos “grupos” noutras áreas. De facto, o PSD tem que realçar a forma como correu o “Julgamento do Galo” pois nos canais televisivos a Guarda ficou a ganhar. Questionamo-nos: a que preço?
Sabe-se que o grupo Todos à Roda apresentou um projecto, mas não ganhou a realização do evento. O grupo não teve, no entanto, possibilidade de negociar uma vez que rapidamente esse trabalho foi entregue à Culturguarda. O preço acordado foram os vinte e cinco mil Euros mais IVA, mas a despesa da CMG não ficava por aí, porque os funcionários da Câmara ajudaram à concretização do espectáculo. Porque razão essas despesas não foram incluídas no orçamento, ficando assim a empresa municipal em clara vantagem sobre o grupo que teve a ideia.
É notória a vontade que a Câmara Municipal da Guarda tem em financiar o TMG, dando-lhe cada vez mais poderes, sem os saber gerir em prol da cidade. Grupos culturais são ignorados, menosprezados com o objectivo claro de os aniquilar ficando assim, o TMG, rei e senhor de verbas oriundas da CM. que parecem não esgotar.
A contratação, por parte da Culturguarda, de grupos e actores fora da Guarda é a prova do que foi referido anteriormente. Os grupos da cidade são relegados para segundo plano, grupos estes que, não fazendo vida da actividade cultural, conseguem prestações que em nada ficam atrás dos que não sabem fazer outra coisa.
Deve por isso a Câmara Municipal tratar todos os seus munícipes de forma igual, olhando para as necessidades que apresentam com o objectivo de as resolver.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O nosso outro passado

Portugal é um caso de esquizofrenia histórica: tem dois passados. O mais antigo é quase sempre resumido a grandezas comemoradas com grande unanimidade. O mais recente, pelo contrário, fica-se por uma penosa crónica de decadência e opróbrio, que divide as opiniões e nos deixa desconfiados de todas as possibilidades. Nos últimos dois séculos, fomos sempre menos do que gostaríamos de ter sido: menos ricos, menos livres, menos unidos. (...) Entre outras questões, os portugueses dos últimos dois séculos tiveram de lidar com esta: a passagem da antiga monarquia absoluta para uma democracia moderna. (...) A chamado I República, entre 1910 e 1926, e o estado Novo, até 1974, tiveram isto em comum: chefes de Estado eleitos (directa ou indirectamente) e governantes determinados em usar a força para impedir qualquer alternância no poder. (...) A construção da actual democracia em Portugal foi feita não apenas contra o Estado Novo, mas também contra a I República. dependeu de uma nova cultura política, em que se admitiu o princípio de que a validade das eleições dependia mais das instituições e procedimentos do que das "qualidades" da população" (referindo-se ao sufrágio censitário em vigor durante o Liberalismo e a 1ª República). Dependeu também de se ter voltado a reconhecer novamente, como no tempo da monarquia constitucional, que a razão é algo distribuído a mais de uma opinião ou partido. Obteve-se assim um regime aberto a todos, e em que o voto de todos é a base da alternância no poder. Os exclusivismos, porém, deixaram herdeiros frustrados. Há quem ainda não tenha percebido por que é que não é dono desta democracia, tal como o PRP foi dono da I República ou os salazaristas do Estado Novo. Eis o que representam os contestatários da comemoração de D. Carlos.

Rui Ramos, no "Público" de 30.01.2008

domingo, 13 de janeiro de 2008

Balanxo

Para comodidade de leitura e de arrumação, imaginei duas cores para a Guarda, como se de um semáforo se tratasse. Cada uma delas contem os factos, tendências e ausências que, em meu entender, melhor definiram o ano que passou.
  • Verde:
  1. O Parque Urbano do Rio Diz, um equipamento de lazer que já faltava à Guarda. Espero que a sua localização num leito de cheia não traga dissabores;
  2. A sinalização de dois percursos pedestres em volta da cidade. Vamos ver se outros se seguem;
  3. O bom funcionamento das piscinas municipais;
  4. A oferta cultural do TMG, incluindo a produção própria. Apesar de no ano transacto a programação global ter decaído ligeiramente em termos de qualidade. Facto explicável, quero crer, pela conjuntura orçamental. A confirmá-lo, a programação deste trimestre vem repor os níveis a que estávamos habituados.
  5. A evocação da inauguração do Sanatório Sousa Martins, uma produção do TMG sob encomenda do Hospital. Um espectáculo que conquistou a adesão e o reconhecimento da cidade, para além de a ela ter atraído milhares de pessoas;
  6. O novo fôlego para a finalização da PLIE e o anúncio da remodelação do Hospital;
  7. A conclusão do Polis, apesar do que faltou e dos atrasos;
  8. A qualidade exibida por alguns estabelecimentos de diversão nocturna;
  9. Os muitos guardenses que, na sua cidade ou fora dela, continuam a marcar pontos na inovação, na investigação, na criação artística, no mundo empresarial, político e jornalístico.
  • Vermelho:
  1. A eterna entrada em funcionamento da ponte pedonal de S. Miguel e da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço;
  2. O abandono trágico a que foi votada a Rua do Comércio e o Centro Histórico, para lá das obras realizadas. No primeiro caso, parte dos espaços estão devolutos, por razões puramente especulativas. Por toda a zona, o comércio não tem horários diferenciados, não há estabelecimentos-âncora que sejam também pontos de encontro, mais-valias cívicas: livrarias, lojas de discos, de produtos tradicionais, um café amplo com serviço de qualidade, uma loja de conveniência, estabelecimentos gourmet, etc.
  3. O apoio miserabilista às colectividades do concelho, algo que tem debilitado a incipiente tradição associativa e a criação de valores culturais locais;
  4. A inexistência de incentivos ao investimento privado, local ou não;
  5. A não conclusão da VICEG;
  6. O desemprego que cresce na região;
  7. Certas acções de animação de rua promovidas pela Câmara, que nada acrescentam à cidade nem a ela associam eventos atractivos, diferenciados e de qualidade;
  8. A sisudez e o cinzentismo, que são, infelizmente, apanágio de muitos guardenses.

(publicado no blogue "Café Mondego", em 6.1.2006)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Artigo de Rui Ramos

O Portugal de Luiz Pacheco

Morreu Luiz Pacheco, aos 82 anos. Era um escritor que nem sempre conseguia ser bom, mas que, quando era bom, era muito bom - melhor do que a maior parte dos literatos contemporâneos, mortos e vivos. O Libertino passeia por Braga justifica os elogios. Fátima ou o amor louco, com apenas seis páginas na última edição de Exercícios de Estilo, é talvez a mais directa e melancólica história de amor escrita por cá no último século. Pacheco é datável, o que não o torna menos interessante para uma história intelectual do Portugal recente. No que disse e escreveu, estão os traços da colheita literária de 1945: por exemplo, o culto do "amor" e da "sinceridade". Mas está também um drama: o dos jovens intelectuais (Cesariny, O"Neill e outros) que, no pós-guerra, perante o nacionalismo salazarista e o neo-realismo comunista, resolveram desalinhar (o "surrealismo" foi uma das modalidades desse desalinhamento). Em Portugal, porém, o mundo custou a mudar, e eles passaram os trinta anos seguintes a ser moídos entre a ditadura política do Estado Novo e a ditadura cultural do PCP (bem explicada por Eduardo Lourenço). Com o diário de Virgílio Ferreira ou a correspondência de Jorge de Sena, as inconfidências de Pacheco fazem falar, de uma maneira violenta, essas longas vésperas da liberdade. Numa literatura colonizada por "antifascistas" e académicos, todos muito respeitáveis, Pacheco recorreu a outro estilo: o de Bocage, o do "desgraçado" que revelava, sobre si próprio e em público, coisas que os literatos portugueses geralmente só dizem dos outros e em segredo: faltas de dinheiro, alcoolismo, homossexualidade, prisões por delito comum. Arranjou até o "ismo" necessário para arrumar tudo isso: "neo-abjeccionismo". Nesta lenda do "escritor maldito", cuja desinibição saciou algum voyeurismo, havia algo de defensivo: sem quase nada a perder, pouco lhe podiam tirar. Só assim pôde conduzir a "guerrilha" que o tornou célebre. O grande segredo da cultura literária portuguesa era que, em privado, pouca gente do chamado "meio" levava a sério os "grandes autores" do momento. Em público, porém, todos faziam as esperadas genuflexões. Pacheco não. Imprimiu a "má língua", lembrou o prazo de validade de certas glórias oficiais. Reivindicou, contra a manipulação política da literatura, um "mercado livre das Letras". Através dele, muitos viveram atrevimentos que não ousavam. * Pacheco veio da classe média com criadas, cultura e acesso aos empregos do Estado. Preferiu viver como "libertino", versão clochard. Havia lugar para isso na sociedade portuguesa. Notáveis da província, como o Dr. Maldonado de Freitas, das Caldas da Rainha; milionários do Estado Novo, como Manoel Vinhas; políticos da democracia, como o Dr. Soares, pagaram-lhe quartos e medicamentos, deram-lhe dinheiro. Uns achavam-lhe "graça". A outros, a educação literária terá feito sentir obrigações. Ele aproximava-se (como no seu tardio acompanhamento do PCP, de cujas capelinhas literárias dissera o pior), mas ressalvando a ambiguidade necessária à sua reputação. Era um jogo cujas regras ele próprio descreveu. * Há dois séculos que a literatura portuguesa anda a tentar inventar imagens fiéis da "nossa terra". Quando se fizer o balanço dessa velha mania, ver-se-á que alguns dos esforços mais memoráveis são de Luiz Pacheco. Por exemplo, Porto-Lisboa a pedir esmola. Eis o resumo (versão de Exercícios de Estilo, a melhor): no Porto, decidido a ir de comboio para Lisboa, o autor só tem dinheiro para o bilhete até Soure. Tenta, com uma mentira, comover o chefe da Estação de S. Bento: espera-o em Lisboa uma pessoa de família doente. O chefe de estação percebe a vigarice, mas decide empurrar para a frente: que compre bilhete para Soure, e, em lá chegando, fale com o chefe do comboio. Em Soure, o chefe do comboio barafusta imenso, mas (e é o que importa) não o põe fora na estação, passando a chatice ao revisor. Este, sem vontade de levantar o devido "auto", tem uma ideia para "legalizar" o viajante: e se ele pedisse esmola aos outros passageiros? O próprio revisor chama a atenção da carruagem (de terceira classe, apinhada de gente, cestos e garrafões), e exibe o desgraçado: sem bilhete, em chegando a Santa Apolónia, irá preso (mentira). Todos se condoem: coitadinho. As moedas aparecem, o bilhete e a multa são pagos. Pela cabeça do autor passa a ideia de recorrer novamente ao truque da próxima vez que viajar.Aldrabice, aversão às responsabilidades, sentimentalismo: é um Portugal imaginado, mas a quem é que apetece dizer que não é verdadeiro?

in "Público", de 09.01.2008