Blogue de apoio ao "Boca de Incêndio"

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O nosso outro passado

Portugal é um caso de esquizofrenia histórica: tem dois passados. O mais antigo é quase sempre resumido a grandezas comemoradas com grande unanimidade. O mais recente, pelo contrário, fica-se por uma penosa crónica de decadência e opróbrio, que divide as opiniões e nos deixa desconfiados de todas as possibilidades. Nos últimos dois séculos, fomos sempre menos do que gostaríamos de ter sido: menos ricos, menos livres, menos unidos. (...) Entre outras questões, os portugueses dos últimos dois séculos tiveram de lidar com esta: a passagem da antiga monarquia absoluta para uma democracia moderna. (...) A chamado I República, entre 1910 e 1926, e o estado Novo, até 1974, tiveram isto em comum: chefes de Estado eleitos (directa ou indirectamente) e governantes determinados em usar a força para impedir qualquer alternância no poder. (...) A construção da actual democracia em Portugal foi feita não apenas contra o Estado Novo, mas também contra a I República. dependeu de uma nova cultura política, em que se admitiu o princípio de que a validade das eleições dependia mais das instituições e procedimentos do que das "qualidades" da população" (referindo-se ao sufrágio censitário em vigor durante o Liberalismo e a 1ª República). Dependeu também de se ter voltado a reconhecer novamente, como no tempo da monarquia constitucional, que a razão é algo distribuído a mais de uma opinião ou partido. Obteve-se assim um regime aberto a todos, e em que o voto de todos é a base da alternância no poder. Os exclusivismos, porém, deixaram herdeiros frustrados. Há quem ainda não tenha percebido por que é que não é dono desta democracia, tal como o PRP foi dono da I República ou os salazaristas do Estado Novo. Eis o que representam os contestatários da comemoração de D. Carlos.

Rui Ramos, no "Público" de 30.01.2008