O vómito (2)
(...) Excluo desta caracterização os epifenómenos criados pela voragem mediática, embora não a sua linearidade enquanto pano de fundo. O que se passou então? A investidura no reconhecimento público resulta de um deslumbramento, de um desejo alucinado de amor (lembram-se de "O Perfume"?), os mesmos que os media se prestam a alimentar, condicionar, e mais tarde destruir, se for o caso. Quem adquire a notoriedade sabe que tem um preço a pagar: cumprir o que se espera dele, sob pena de deixar de existir. Veja-se o caso de Luiz Pacheco. O "sistema" precisava desesperadamente de um "bobo da corte" e encontrou-o na personagem do escritor e editor. A partir daí, os media só queriam dele uma coisa: que o maldito dissesse umas "maldades". Nesta análise, notam-se já algumas diferenças entre o antes e o agora. Em síntese: hoje, a relevância pública perdeu o tom aristocrático, a independência; não resulta de um confronto ideológico ou colectivo; na grande maioria dos casos é puramente mediática, sem qualquer implicação social; resulta de um permanente compromisso; defende-se pela blindagem e não pela audácia; foge ao verdadeiro escrutínio público como o diabo da cruz, precisamente porque ele é a única condição para a transparência, a fluidez e a "inscrição", de que falava José Gil. Perceberam agora porque é que MST odeia os blogues? Precisamente porque lhe convém, como a muitos outros, uma redoma censória em volta da blogosfera, que garanta a sua domesticação e inoperância. No fundo, a imposição de medidas proteccionistas que impeçam o livre curso do mercado, da livre circulação das ideias. MST é o porta-voz de uma nomenklatura informal que domina o da opinião e da edição. Os livros que escreve é o que menos importa para o caso. Centremo-nos somente nesta imagem: um grupo de oligarcas defendendo o seu território, sabendo que não resistirá, por muito tempo, à verdadeira democratização do discurso público, à sua descentralização, à rede. Notável, também, a sua incapacidade em colocar a prudência à frente do pânico, ou seja, quanto menos se resiste, menos se pode temer.
