A Grande ilusão francesa
"Em tempos, Portugal foi um país traduzido do francês. De certa maneira, porque era assim que a elite portuguesa tentava civilizar o país: copiando as leis, os romances, e o vestuário da França. França e modernidade eram sinónimos. Embora se usasse a expressão “para inglês ver”, era pelos franceses que os portugueses de destaque adoravam ser vistos. Salazar sempre gostou muito de fascinar escritores e jornalistas franceses. Em 1975, o primeiro debate entre Soares e Cunhal aconteceu na televisão francesa – e em francês. As coisas mudaram muito nos últimos 30 anos – ao ponto de os galicismos deixarem finalmente de afligir os puristas da língua. Para emigrar, passámos a preferir a Inglaterra – aliás, como os franceses. A França, para os portugueses, já não é o que era. Mas para os franceses também não, como se tem constatado na eleição presidencial deste ano, que terá a primeira volta no próximo domingo.
Se Portugal deixou de ser “francês”, a França parece mais “portuguesa”. Portugal e a França são os dois países que menos crescem na Europa, e onde nenhum cálculo provou ainda que o “modelo social” é sustentável. Mas nesta França em declínio faltam os costumes que, em Portugal, têm mantido os conflitos no suave limite das marchas ordeiras e providências cautelares. Em França, os subúrbios andam amotinados, e as sondagens de opinião atribuem um peso embaraçoso aos partidos “anti-sistema” (25 % no conjunto).
Talvez Portugal seja, como quer o Economist, o “novo homem doente” da Europa. Mas a França é mais do que isso: é a própria doença da Europa. Portugal, um pequeno país, só incomoda a regra dos 3%. A França, enquanto grande economia, estraga todas as médias europeias. É ainda em França que residem alguns dos principais estrangulamentos do “processo europeu”, desde a recusa da “constituição” até à dissipação de 45 % do orçamento comunitário na agricultura. Muita coisa na Europa precisa de passar pelo desfiladeiro francês. Daí que a imprensa europeia tenha resolvido imaginar estas eleições em França como um momento de decisão para todo o continente. E talvez por isso, não resistiu a encarar a disputa entre os candidatos à presidência francesa segundo um padrão universal, compreensível por todos, como uma batalha localizada da guerra global entre a “liberalização” e o “estatismo”. Ora, esta interpretação globalizante da política francesa é ilusória.
Os limites do exercício notam-se quando se tentam distribuir os papéis de defensores dos grandes princípios pelos candidatos. Sarkozy deveria ser o “liberal”. Infelizmente, adora centros de decisão nacional. A política francesa não é simples nem é traduzível. Para começar, há um sistema eleitoral que permite a desagregação na primeira volta, antes de obrigar à agregação na segunda. Isso faz com que, à partida, tudo pareça possível. Nem Sarkozy, o favorito, consegue melhor do que 26 % de intenções de voto. Os eleitores têm de fazer muitos cálculos, e daí a indecisão, e os candidatos têm de falar para muitos lados, e daí as mensagens confusas. Mas a história não acabará com as voltas das presidenciais. Em Junho, haverá ainda as das legislativas. Em França, o poder dá muitas voltas. O sistema político da “V República” é um dos mais complicados do mundo. Ao contrário do que acontece em Portugal, o presidente tem responsabilidades executivas. Só que não há garantia de a presidência e o governo estarem sintonizados. De Gaulle ainda entendeu que o presidente, como condutor da governação, não podia perder uma única eleição nacional – foi por isso que se demitiu em 1969. Mas Mitterrand e Chirac aceitaram derrotas eleitorais e a coabitação com ministros da área política contrária. O resultado foi um poder executivo partilhado, desorientado e até deslegitimado. Há anos que, em França, nenhuma “grande reforma” resiste a uma “grande manifestação”.
Isto é assim, porque a França é um país onde a política é, há séculos, pensada em termos de uma latente “guerra civil” -- veja-se, a propósito, Du Bon Usage de la Guerre Civile en France (2006) de Jacques Marseille. Entre revoluções, o medo das clivagens favorece fórmulas de reconciliação, necessariamente híbridas, e governos “sem excessos de zelo” (como recomendava Talleyrand). No seu livro Ensemble (2007), Sarkozy explicou tudo: “a política tem por objectivo unir os franceses, e não dividi-los”. Em vez de uma alternância entre liberais e sociais democratas, a França continuará a gerar fusões e ambiguidades. Porque a prioridade é a “política”, não é a “modernização”. O Economist acertou mais acerca de Sarkozy na capa do seu último número, quando o mostrou como Napoleão (o grande “fusionista”), do que no editorial, onde o tentou imaginar como missionário do liberalismo. Há meses, a mesma revista desejou uma Thatcher para a França. Mas a França não pode ter uma Thatcher: pode ter um novo Giscard (com Bayrou), um Mitterrand rasca (com Ségolène), ou um Chirac em melhor forma (apesar de Sarkozy tentar dissimular a filiação). Não vale a pena ter grandes esperanças nem grandes receios."
RUI RAMOS, no "Público" de 18.04.2007


O actual CDS, como se comprova pelo exercício da sua liderança, é apenas uma caricatura de um partido que já não existe
Não é fácil escrever sobre a balbúrdia que grassa no CDS: ou se envereda pela justa condenação da "malandragem" que quer tomar de assalto o partido ou se opta por um higiénico silêncio sobre os últimos capítulos deste miserável enredo. O mais fácil, parece-me, é espumar de indignação perante o triste espectáculo oferecido por um grupo de delinquentes políticos que decidiram suicidar-se em directo. O mais prudente, no entanto, é ignorar a matéria, evitando envolver-se na teia de pormenores sórdidos que vieram a público, nos últimos dias. O festival de insultos e de acusações em que se transformou o conselho nacional de domingo não convida, de facto, a grandes reflexões sobre a "refundação" da direita e a sua suposta "modernidade". Dois anos depois de ter perdido as eleições legislativas, a direita (ou que resta dela), em vez de se ter "refundado", como anunciavam alguns espíritos mais optimistas, discute acaloradamente o hipotético empurrão de um tal Hélder de Viseu e as qualidades intrínsecas de qualquer beirão que se preze.
No entanto, quem conhece a tumultuosa história do CDS e observou, ao longo dos anos, a sua desesperada luta pela sobrevivência, sabe que este tipo de espectáculos tem alguma tradição no partido. Na claustrofobia do Largo do Caldas, a convivência entre democratas-cristãos, centristas, liberais, sociais-católicos e populares foi sempre uma fonte de divisões insanáveis onde os grandes princípios teóricos morreram sistematicamente às mãos de pequenas ofensas e de antigas rivalidades. No seu desencontrado percurso, o CDS, por oposição ao albergue ideológico em que se tinha transformado o PSD, especializou-se na pureza dos princípios e nas incompatibilidades doutrinárias e pessoais: foi centrista e democrata-cristão com Freitas do Amaral, liberal e de direita com Lucas Pires, social e católico com Adriano Moreira, populista e demagogo com Manuel Monteiro e Paulo Portas e, mais tarde, conservador e institucional com Paulo Portas. O partido, mantendo-se o mesmo, refundava-se sempre que mudava de líder, incompatibilizando-se invariavelmente com o seu passado e com os seus protagonistas. Pelo caminho, desperdiçou todos os seus líderes e todos os seus líderes se sentiram invariavelmente desperdiçados no CDS. Na altura, havia uma frase famosa que definia este velho e requintado partido como "um grupo de amigos que se detestava cordialmente". A quebra eleitoral que foi sofrendo contribuiu para que o CDS se fechasse, ainda mais, sobre si próprio, eternamente dividido por pequenas divergências internas que nada diziam ao comum dos mortais.
A primeira vitória eleitoral de Cavaco Silva, esse desconhecido de Boliqueime, sem mundo nem pergaminhos doutrinais, pondo fim às ambições de Lucas Pires, agravou substancialmente este estado coisas. Dois anos depois, em 87, quando Cavaco Silva conquista a maioria absoluta, Adriano Moreira, uma das grandes referências da direita portuguesa e do CDS em particular, viu o partido chegar aos 4 por cento, dinamitado pelo voto útil e pela euforia do cavaquismo. O regresso de Freitas do Amaral, com a sua famosa equidistância, foi a última tentativa ideológica de um CDS que morreria, uns anos mais tarde, quando Cavaco Silva obteve a segunda maioria absoluta e o partido, reduzido à sua insignificância, decidiu que tinha chegado a hora de arrepiar caminho e de lutar, com outras armas, contra a hegemonia do PSD. Subvertendo a natureza do CDS, o PP de Manuel Monteiro e de Paulo Portas foi essencialmente uma arma contra o cavaquismo que o velho partido se tinha mostrado incapaz de combater. Como é óbvio, quando o cavaquismo sucumbiu, o PP, reivindicativo, populista e demagogo deixou de fazer sentido. Foi isso que Manuel Monteiro não percebeu. Foi isso que Paulo Portas quis corrigir, ao centrar de novo o partido, repescando alguns dos seus históricos e tentando recuperar a credibilidade perdida. Só que entretanto o CDS tinha, de facto, morrido.
A ideia de que esse CDS ressuscitou, há dois anos, com a eleição de Ribeiro e Castro e o regresso da democracia cristã é uma das inúmeras fantasias que animam a política portuguesa. O CDS de Ribeiro e Castro, a que supostamente se opõe um PP acantonado no grupo parlamentar, é um equívoco, fruto das circunstâncias de um congresso e das fragilidades reveladas pelos apoiantes de Paulo Portas. O CDS de Ribeiro e Castro, como se comprova pelo exercício da sua liderança e pela natureza dos seus apoios, é apenas uma caricatura de um partido que já não existe. E se os políticos, como muitos defendem, dificilmente regressam ao sítio donde saíram, por maioria de razão, os partidos dificilmente conseguem recuperar a sua natureza perdida.
Só num partido que se transformou numa caricatura de si mesmo é que a presidente do conselho nacional é capaz de proclamar que o órgão a que preside é constituído, na sua grande maioria, por golpistas sem escrúpulos e "cães de fila" capazes das piores malfeitorias. Bem sei que é fácil responsabilizar Paulo Portas por todos os vícios da política. Mas convenhamos que difícil acusá-lo de preparar uma "golpada" que conta com o alto patrocínio do conselho nacional e teve luz verde do conselho de jurisdição. Por trás desta suposta "golpada", esconde-se toda a fragilidade de um partido que vive sob o risco permanente de, a qualquer momento, poder deixar de existir. Esse sim é o problema de uma direita que se reduz à sua própria ficção.
Público, 22.03.2007