Artigo de JPP
"Um livro de Andrew Keen tem suscitado uma grande discussão na comunicação social internacional e na rede. O livro ainda não foi traduzido em português, mas o seu título e subtítulo não enganam ninguém: o Culto do Amador - Como a Internet dos dias de hoje está a matar a nossa cultura. É um livro panfletário e simplista, escrito para chocar, mas as questões que lá são levantadas são importantes e cada vez mais presentes, até porque são uma versão nova de problemas muito antigos potenciados numa dimensão que, essa sim, é nova. O livro de Keen não foi o primeiro e certamente não será o último sobre o assunto vindo do lado dos "apocalípticos" das novas tecnologias, para usar a terminologia de Eco. Pode-se até esperar um filão polémico de livros sobre este tema, porque os efeitos de "matança da nossa cultura", usando o título de Keen, são sérios e só se podem agravar nos tempos mais próximos. O catastrofismo é uma longa tradição do pensamento ocidental, principalmente nas mudanças do século, mas lá porque é cíclico e porque as coisas nunca correram tão mal como se anunciava, nem por isso, nada nos garante que, desta vez, não corram mesmo muito mal.
A tese de Keen é que múltiplos aspectos do nosso saber e da nossa cultura milenar (refere-se essencialmente à cultura do Ocidente) estão a ser postos em causa pela potenciação que as novas tecnologias associadas à rede estão a dar à ignorância presumida de saber, ao "amador" que pensa que pode competir com o profissional (seja jornalista, seja crítico literário, seja cientista, seja especialista de qualquer área do saber), apenas porque pode livremente e sem edição colocar num blogue o que lhe vem à cabeça; pela erosão do direito de autor pela pirataria generalizada na rede, com o consequente desinvestimento em produtos culturais caros (por exemplo a produção de CD com um grande investimento em estúdio e qualidade da gravação); pela vulgarização do plágio; pela impossibilidade de no mundo digital se "autenticar" a verdade, com o crescimento da virtualidade da Second Life em detrimento da primeira, etc, etc. O mundo obscuro dos avatars, das identidades virtuais em rede, não apenas deu um teatro tão gigantesco como eficaz às pulsões criminosas, desde a "fraude nigeriana" até ao phishing, passando pela pedofilia, como permitiu outro tipo de fraudes intelectuais como seja a falsificação artificial dos contadores de audiências dos blogues, os truques para se colocar bem uma página nos motores de busca, as falsas notas em blogues cujo objectivo é promover produtos pela sua citação, ou seja, toda uma série de práticas que fora da rede seriam consideradas enganadoras e fraudulentas e controladas pela lei e pela regulação. Keen mostra com exemplos como é possível moldar a realidade em rede usando os comentários anónimos, desenvolvendo formas anónimas de campanhas ad hominem, usando mil nomes de caixa de comentário em caixa de comentário, marcando temas e pessoas tidas como "inimigas", ou autopromovendo-se com elogios que se fazem passar como sendo de terceiros.
Ou seja, a rede é o Oeste selvagem, sem lei e sem ordem, e é nessa escola que milhões de jovens se iniciam sem terem um mínimo de know how para saberem distinguir entre a ciência e a charlatanice, sem conhecerem os mil e um truques que pululam em linha, e, quando os conhecem, praticam-nos sem qualquer padrão de moralidade, entrando em esquemas que cá fora seriam considerados do domínio da fraude. O reclame que as associações produtoras e distribuidoras de filmes, vídeos e DVD fazem passar antes das sessões de cinema ou do visionamento de um filme em casa, em que se coloca a questão de como é que uma pessoa que nunca sonharia roubar uma televisão, ou um vídeo numa loja, o faz através de um download ilegal, é uma tentativa um pouco desesperada de explorar essa contradição. A facilidade com que estas práticas se generalizaram na rede (são hoje já habituais em Portugal e penetraram na blogosfera) mostra como existe uma indiferença, complacência e mesmo colaboração activa com o seu carácter fraudulento.
A este assalto, que podíamos chamar "moral", de dissolução de regras e comportamentos éticos valorizados no mundo real, mas ignorados e hostilizados em rede, acresce que o "culto do amador" legitima uma degradação acentuada dos critérios de qualidade de muitas actividades que implicavam ou um saber especializado, normalmente resultado de muitos anos de estudo e trabalho, ou de uma prática profissional extensiva. É o caso da utopia do "jornalismo dos cidadãos", dentro da crise mais geral da comunicação social de referência, cuja leitura é substituída por uma "cultura de blogues", dispersa, opinativa, pouco rigorosa, extremista e de "causas", mais intolerante do que a imprensa tradicional, mas que cada vez mais funciona como fonte noticiosa e como pedagogia do debate público. É também o caso da Wikipédia, talvez o melhor exemplo da perda de critérios de rigor e qualidade, a favor de uma ideologia utópica do homem comum, das massas, escrevendo por tentativa e erro, uma enciclopédia colectiva. A Wikipédia tem conhecido nos últimos tempos uma séria crise de credibilidade, mas continua a servir como referência para as mesmas multidões que em linha não sabem distinguir a astronomia da astrologia.
Todos estes exemplos e outros representam problemas reais e que se tem vindo a agravar, mas que Keen retira do seu contexto social, o que não permite perceber o que se passa e nos empurra para uma visão maléfica das novas tecnologias, face às quais nada mais haveria a fazer do que queimar as máquinas, como os ludditas faziam aos teares mecânicos. O pano de fundo daquilo que critica Keen são mudanças sociais profundas, que se tem vindo a dar nas sociedades industriais nos últimos 150 anos, mas que ganharam velocidade de cruzeiro depois da II Guerra Mundial: aquilo que se pode chamar o advento da sociedade de massas, assente no consumo generalizado de bens materiais (electrodomésticos, automóveis, casas nos subúrbios, etc.) e "espirituais" (férias baratas, rádio, televisão, imprensa popular). A pulsão igualitária e demagógica das massas, aquilo que antigamente se chamava a "psicologia das multidões", de facto varre muito dos quadros da cultura e saber tradicional, que julgam e com razão ser elitista. O "culto do amador" é apenas um dos sinais dessa tábua rasa demagógica que está de facto a "matar a nossa cultura" tal como a conhecemos. Se tudo ficar por aqui, caminha-se para uma nova barbárie.
A crítica de Keen e de outros "apocalípticos" falha ao menosprezar o enorme adquirido que se deu nestes mesmos 150 anos, a verdadeira revolução social, que permitiu a muitos milhões de pessoas, que viviam dominadas apenas pelo seu trabalho brutal e pela cultura "folclórica" tradicional, aceder a consumos que nunca tiveram e passar a ter voz em áreas que sempre lhes estiveram vedadas, seja como audiências de televisão, seja em estudos de mercado, seja em sondagens, seja comprando e votando. O efeito dessa voz cria uma enorme perturbação, degrada tudo, simplifica, confunde, mas, ao alterar sem retorno os equilíbrios elitistas do passado, gerou novas condições de democraticidade, competitividade e criatividade que também se verificam na rede.
Não sei até que ponto se encontrará um qualquer equilíbrio que trave o lixo demagógico que hoje enche tudo impante da sua nova voz tecnológica e salve a "nossa cultura", mas não posso, em nome dessa mesma "cultura", deixar de valorizar o acesso de milhões à porta de um mundo em que habita o "espírito", mesmo que assustado com tanta confusão."






O actual CDS, como se comprova pelo exercício da sua liderança, é apenas uma caricatura de um partido que já não existe
Não é fácil escrever sobre a balbúrdia que grassa no CDS: ou se envereda pela justa condenação da "malandragem" que quer tomar de assalto o partido ou se opta por um higiénico silêncio sobre os últimos capítulos deste miserável enredo. O mais fácil, parece-me, é espumar de indignação perante o triste espectáculo oferecido por um grupo de delinquentes políticos que decidiram suicidar-se em directo. O mais prudente, no entanto, é ignorar a matéria, evitando envolver-se na teia de pormenores sórdidos que vieram a público, nos últimos dias. O festival de insultos e de acusações em que se transformou o conselho nacional de domingo não convida, de facto, a grandes reflexões sobre a "refundação" da direita e a sua suposta "modernidade". Dois anos depois de ter perdido as eleições legislativas, a direita (ou que resta dela), em vez de se ter "refundado", como anunciavam alguns espíritos mais optimistas, discute acaloradamente o hipotético empurrão de um tal Hélder de Viseu e as qualidades intrínsecas de qualquer beirão que se preze.
No entanto, quem conhece a tumultuosa história do CDS e observou, ao longo dos anos, a sua desesperada luta pela sobrevivência, sabe que este tipo de espectáculos tem alguma tradição no partido. Na claustrofobia do Largo do Caldas, a convivência entre democratas-cristãos, centristas, liberais, sociais-católicos e populares foi sempre uma fonte de divisões insanáveis onde os grandes princípios teóricos morreram sistematicamente às mãos de pequenas ofensas e de antigas rivalidades. No seu desencontrado percurso, o CDS, por oposição ao albergue ideológico em que se tinha transformado o PSD, especializou-se na pureza dos princípios e nas incompatibilidades doutrinárias e pessoais: foi centrista e democrata-cristão com Freitas do Amaral, liberal e de direita com Lucas Pires, social e católico com Adriano Moreira, populista e demagogo com Manuel Monteiro e Paulo Portas e, mais tarde, conservador e institucional com Paulo Portas. O partido, mantendo-se o mesmo, refundava-se sempre que mudava de líder, incompatibilizando-se invariavelmente com o seu passado e com os seus protagonistas. Pelo caminho, desperdiçou todos os seus líderes e todos os seus líderes se sentiram invariavelmente desperdiçados no CDS. Na altura, havia uma frase famosa que definia este velho e requintado partido como "um grupo de amigos que se detestava cordialmente". A quebra eleitoral que foi sofrendo contribuiu para que o CDS se fechasse, ainda mais, sobre si próprio, eternamente dividido por pequenas divergências internas que nada diziam ao comum dos mortais.
A primeira vitória eleitoral de Cavaco Silva, esse desconhecido de Boliqueime, sem mundo nem pergaminhos doutrinais, pondo fim às ambições de Lucas Pires, agravou substancialmente este estado coisas. Dois anos depois, em 87, quando Cavaco Silva conquista a maioria absoluta, Adriano Moreira, uma das grandes referências da direita portuguesa e do CDS em particular, viu o partido chegar aos 4 por cento, dinamitado pelo voto útil e pela euforia do cavaquismo. O regresso de Freitas do Amaral, com a sua famosa equidistância, foi a última tentativa ideológica de um CDS que morreria, uns anos mais tarde, quando Cavaco Silva obteve a segunda maioria absoluta e o partido, reduzido à sua insignificância, decidiu que tinha chegado a hora de arrepiar caminho e de lutar, com outras armas, contra a hegemonia do PSD. Subvertendo a natureza do CDS, o PP de Manuel Monteiro e de Paulo Portas foi essencialmente uma arma contra o cavaquismo que o velho partido se tinha mostrado incapaz de combater. Como é óbvio, quando o cavaquismo sucumbiu, o PP, reivindicativo, populista e demagogo deixou de fazer sentido. Foi isso que Manuel Monteiro não percebeu. Foi isso que Paulo Portas quis corrigir, ao centrar de novo o partido, repescando alguns dos seus históricos e tentando recuperar a credibilidade perdida. Só que entretanto o CDS tinha, de facto, morrido.
A ideia de que esse CDS ressuscitou, há dois anos, com a eleição de Ribeiro e Castro e o regresso da democracia cristã é uma das inúmeras fantasias que animam a política portuguesa. O CDS de Ribeiro e Castro, a que supostamente se opõe um PP acantonado no grupo parlamentar, é um equívoco, fruto das circunstâncias de um congresso e das fragilidades reveladas pelos apoiantes de Paulo Portas. O CDS de Ribeiro e Castro, como se comprova pelo exercício da sua liderança e pela natureza dos seus apoios, é apenas uma caricatura de um partido que já não existe. E se os políticos, como muitos defendem, dificilmente regressam ao sítio donde saíram, por maioria de razão, os partidos dificilmente conseguem recuperar a sua natureza perdida.
Só num partido que se transformou numa caricatura de si mesmo é que a presidente do conselho nacional é capaz de proclamar que o órgão a que preside é constituído, na sua grande maioria, por golpistas sem escrúpulos e "cães de fila" capazes das piores malfeitorias. Bem sei que é fácil responsabilizar Paulo Portas por todos os vícios da política. Mas convenhamos que difícil acusá-lo de preparar uma "golpada" que conta com o alto patrocínio do conselho nacional e teve luz verde do conselho de jurisdição. Por trás desta suposta "golpada", esconde-se toda a fragilidade de um partido que vive sob o risco permanente de, a qualquer momento, poder deixar de existir. Esse sim é o problema de uma direita que se reduz à sua própria ficção.
Público, 22.03.2007