The God Delusion
Dawkins propõe-se demonstrar que Deus não existe. Com a mesma seriedade com que S. Tomás de Aquino quis fazer o contrário. Não é difícil, porque as suas famosas cinco provas da existência de Deus são singularmente vácuas. As três primeiras - o primeiro impulso, a causa indeterminada e o argumento cosmológico - baseiam-se em que não pode haver uma regressão infinita no sentido do movimento, das causas ou do tempo. E, por fim, tem que haver um Impulsor, uma Causa, ou um Criador originários. Mesmo que alguém aceite, a benefício de inventário, que a cadeia haja de partir-se nalgum ponto, não se poderá depreender que o Big Bang tenha que ser omnipotente, omnisciente e demais omnis. E menos ainda que tenha de escutar as nossas preces, ocupar-se dos pecados do mundo ou fazer de redentor.
O argumento número 4, o dos graus de perfeição, nem sequer Dawkins, habitualmente parco em ironia, pode deixar de o expor ao ridículo. A nossa percepção de que neste mundo inferior há coisas mais perfeitas do que outras não necessita de um símbolo máximo de perfeição. A última tese de S. Tomás - tudo o que foi inteligentemente desenhado teve que ter por trás um desenhador inteligente - conduz a isso, ao desenho inteligente. Neste ponto, Dawkins observa que quanto maior o obstáculo a superar, maior será o mérito do criador; se supomos que o universo foi criado por um grande Ser, poderíamos imaginar outro ainda maior, que houvera criado tudo sem mesmo existir. Ergo...
Dawkins descarta igualmente as outras provas demiúrgicas, que habitualmente são consideradas inferiores: as que partem do poder da beleza; as “experiências” pessoais ou extra-sensoriais; as derivadas da autoridade das Escrituras; a aposta de Pascal (mais vale crer em Deus, porque, se existe, alcança-se a vida eterna; se não, nada há a perder).
As melhores páginas do livro referem-se à comparação entre o argumento teleológico com o do relojoeiro cego. Quase todos os que querem descartar a hipótese darwiniana e negar à evolução capacidade para explicar a vida, foram buscar algo a que chamam de “desenho inteligente”. Imaginem que um furacão encontra no seu trajecto um armazém de sucata e, na sua fúria destruidora, acaba por reunir as peças soltas de um Boeing 747, nascendo um novo aeroplano. É claro que isso teria a mesma probabilidade de suceder que a existência de qualquer ser complexo, como resultado da selecção natural.
Mas a questão não é meramente teórica. Ao desenho inteligente aportaram, como náufragos a uma bóia de salvação, todos os criacionistas, antigos e recém-convertidos. Especialmente nos Estados Unidos, os fundamentalistas bíblicos trataram de convertê-lo numa explicação científica da origem da vida. Em suma, os defensores do desenho inteligente partem da complexidade dos seres vivos para afirmar que tal não pode dever-se a acaso. O superior terá de explicar o inferior e não ao contrário, de modo a que o acaso não pode ter dado lugar à infinita complexidade da vida. Contra-ataca Dawkins, afirmando que a contraposição entre desenho e acaso não é genuína, pois o desenho inteligente padece do mesmo infortúnio que o acaso. Não responde à questão básica – quem desenhou o desenhador? E assim, ambos não solucionam a questão central da improbabilidade estatística.
O acaso é um sério problema, mas o desenho inteligente limita-se a formulá-lo com outras palavras. A selecção natural soluciona o enigma de forma mais elegante. Ao contrário dos saltos bruscos – os hiatos– postulados pelo acaso e pelo desenho inteligente, trata-se de um longo processo que divide o improvável em pequenas doses, cada uma delas modesta, mas não completamente quimérica. “Quando grandes números desses sucessos ligeiramente improváveis se acumulam numa série, o produto final é, sem dúvida, muito improvável. Tanto que não pode ser explicado como um acidente” (pág. 121). Para os criacionistas, não há etapas intermédias. “Muitas transições evolutivas estão elegantemente documentadas por séries mais ou menos contínuas de fósseis intermédios que foram mudando lentamente. Outras não, e assim aparecem os famosos hiatos [...] e o seu uso ilegítimo, segundo o qual, se não há fósseis que documentem uma determinada transição evolutiva, terá que concluir-se que esta não existiu e que, por conseguinte, Deus aí interveio” (pág. 127).
Por outro lado, argumentar a partir da existência de complexidades aparentemente irredutíveis (o olho, as asas, qualquer outro sistema biológico provisoriamente consolidado) não é mais do que uma manobra retórica para explorar um conhecimento (ainda) incompleto. Como não podemos reunir todos os dados do processo, os criacionistas deduzem que estes não podem encontrar-se ou simular-se num computador. Desse modo, dão por justificado o recurso a uma entidade superior. Aí reside a grande diferença com o modus operandi dos cientistas. Que não buscam causas sobrenaturais para o que ainda não sabemos: pelo contrário, é a ausência de respostas que estimula essa busca. A evolução não é só um relojoeiro cego; também é um mestre-de-obras descuidado que derruba o andaime logo que finda a sua obra, impedindo-nos de ver como lá chegou. Enquanto que teólogos, metafísicos e demais adivinhos se comprazem nos mistérios, tudo fazendo para que permaneçam intactos, os cientistas vêm neles uma simples oportunidade para prosseguir a sua tarefa.
O argumento número 4, o dos graus de perfeição, nem sequer Dawkins, habitualmente parco em ironia, pode deixar de o expor ao ridículo. A nossa percepção de que neste mundo inferior há coisas mais perfeitas do que outras não necessita de um símbolo máximo de perfeição. A última tese de S. Tomás - tudo o que foi inteligentemente desenhado teve que ter por trás um desenhador inteligente - conduz a isso, ao desenho inteligente. Neste ponto, Dawkins observa que quanto maior o obstáculo a superar, maior será o mérito do criador; se supomos que o universo foi criado por um grande Ser, poderíamos imaginar outro ainda maior, que houvera criado tudo sem mesmo existir. Ergo...
Dawkins descarta igualmente as outras provas demiúrgicas, que habitualmente são consideradas inferiores: as que partem do poder da beleza; as “experiências” pessoais ou extra-sensoriais; as derivadas da autoridade das Escrituras; a aposta de Pascal (mais vale crer em Deus, porque, se existe, alcança-se a vida eterna; se não, nada há a perder).
As melhores páginas do livro referem-se à comparação entre o argumento teleológico com o do relojoeiro cego. Quase todos os que querem descartar a hipótese darwiniana e negar à evolução capacidade para explicar a vida, foram buscar algo a que chamam de “desenho inteligente”. Imaginem que um furacão encontra no seu trajecto um armazém de sucata e, na sua fúria destruidora, acaba por reunir as peças soltas de um Boeing 747, nascendo um novo aeroplano. É claro que isso teria a mesma probabilidade de suceder que a existência de qualquer ser complexo, como resultado da selecção natural.
Mas a questão não é meramente teórica. Ao desenho inteligente aportaram, como náufragos a uma bóia de salvação, todos os criacionistas, antigos e recém-convertidos. Especialmente nos Estados Unidos, os fundamentalistas bíblicos trataram de convertê-lo numa explicação científica da origem da vida. Em suma, os defensores do desenho inteligente partem da complexidade dos seres vivos para afirmar que tal não pode dever-se a acaso. O superior terá de explicar o inferior e não ao contrário, de modo a que o acaso não pode ter dado lugar à infinita complexidade da vida. Contra-ataca Dawkins, afirmando que a contraposição entre desenho e acaso não é genuína, pois o desenho inteligente padece do mesmo infortúnio que o acaso. Não responde à questão básica – quem desenhou o desenhador? E assim, ambos não solucionam a questão central da improbabilidade estatística.
O acaso é um sério problema, mas o desenho inteligente limita-se a formulá-lo com outras palavras. A selecção natural soluciona o enigma de forma mais elegante. Ao contrário dos saltos bruscos – os hiatos– postulados pelo acaso e pelo desenho inteligente, trata-se de um longo processo que divide o improvável em pequenas doses, cada uma delas modesta, mas não completamente quimérica. “Quando grandes números desses sucessos ligeiramente improváveis se acumulam numa série, o produto final é, sem dúvida, muito improvável. Tanto que não pode ser explicado como um acidente” (pág. 121). Para os criacionistas, não há etapas intermédias. “Muitas transições evolutivas estão elegantemente documentadas por séries mais ou menos contínuas de fósseis intermédios que foram mudando lentamente. Outras não, e assim aparecem os famosos hiatos [...] e o seu uso ilegítimo, segundo o qual, se não há fósseis que documentem uma determinada transição evolutiva, terá que concluir-se que esta não existiu e que, por conseguinte, Deus aí interveio” (pág. 127).
Por outro lado, argumentar a partir da existência de complexidades aparentemente irredutíveis (o olho, as asas, qualquer outro sistema biológico provisoriamente consolidado) não é mais do que uma manobra retórica para explorar um conhecimento (ainda) incompleto. Como não podemos reunir todos os dados do processo, os criacionistas deduzem que estes não podem encontrar-se ou simular-se num computador. Desse modo, dão por justificado o recurso a uma entidade superior. Aí reside a grande diferença com o modus operandi dos cientistas. Que não buscam causas sobrenaturais para o que ainda não sabemos: pelo contrário, é a ausência de respostas que estimula essa busca. A evolução não é só um relojoeiro cego; também é um mestre-de-obras descuidado que derruba o andaime logo que finda a sua obra, impedindo-nos de ver como lá chegou. Enquanto que teólogos, metafísicos e demais adivinhos se comprazem nos mistérios, tudo fazendo para que permaneçam intactos, os cientistas vêm neles uma simples oportunidade para prosseguir a sua tarefa.
