Blogue de apoio ao "Boca de Incêndio"

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Sobre o acordo ortográfico*

Contra os arautos de uma unificação forçada, afirma MEC: "A lusofonia é uma espécie de estereofonia, só que é melhor. A estereofonia funciona com dois altifalantes, enquanto a a lusofonia funciona com mais de 100 milhões." Sobre as alterações propostas, é peremptório: "se a lusofonia é uma cacofonia de expressão oficila brutoguesa, a tortografia consiste fundamentalmente no conceito de cacografia". Mais à frente, exemplifica como se escreverá o português, quando o Acordo entrar em vigor:
"A
adoção exata deste acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileira, com a ajuda entristorica dos diretores linguisticos sãotomenses e espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que não sabem distinguir uma reta de uma semirrecta, dizem que as bases adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo menos, extraumanas. No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos santo Antonio, mas sem mais maiúscula. A escrever »O mano, que é contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não é sobreumano«? O que é que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar)? A tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?"
Aproveita ainda para rebater o argumento, utilizado pelos defensores do Acordo, de que "a língua portuguesa é a única das dez línguas cultas do mundo que apresenta ortografias diferentes", recorrendo ao caso do inglês. A ortografia inglesa e a americana, como se sabe, apresentam algumas diferenças. E nunca se procurou unificá-las. Ora tomando este exemplo, conclui MEC: "a unificação ortográfica não é uma condição para o intercâmbio cultural. (...) a grande diferença entre um país enorme como os EUA e um país pequeno como o Reino Unido em nada prejudica o entendimento entre eles. No caso do Reino Unido, garante importantíssimas existências culturais (como a indústria editorial, que invariavelmente publica livros americanos com ortografia inglesa) e permite a sobrevivência de uma tradição ortográfica à qual os Americanos poderão sempre recorrer, até para alterarem grafias suas."

* Miguel Esteves Cardoso, "O Acordo Tortográfico", in "Explicações de Português" (Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001)