Blogue de apoio ao "Boca de Incêndio"

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Crónica de Rui Ramos

(cont.) E depois, há o medo do tubarão. Sim, leram bem: o tubarão. Porque inesperadamente, castigando os seus adversários, Menezes diz isto: “Há dois anos, algures no deserto de Omã, deitado ao luar a olhar para as estrelas, tive tanta pena destas pseudo-elites liderantes do meu Partido, cujo único deserto a que chegaram nunca está a mais de dez quilómetros da sua casa, que nunca tiveram frio à noite no deserto, que nunca tiveram medo de um tubarão...” [...] Não quero ridicularizar Luís Filipe Menezes. Mas não me importaria de ridicularizar esta imagem de Indiana Jones à moda de Gaia que Menezes pensa que lhe convém dar de si próprio. Ou de ridicularizar os conselheiros que o deviam demover destes lapsos. E tudo isto merece comentário, porque há na história do tubarão mais do que ingenuidade ou distracção: há uma estratégia política. [...] Eis a política reduzida a um jogo de espelhos. Peter Schlemil perdeu a sombra. No caso dos nossos políticos, ficaram as sombras e desapareceram as pessoas. E as sombras escondem muita coisa. [...] Talvez por isso, temos visto Menezes a fazer o possível por não se definir: a ameaçar e a retirar as ameaças, a dizer e a desdizer-se, a ser uma coisa de manhã e outra à tarde. Assim vai criando uma imagem de movimento sem precisar de sair do mesmo sítio. Talvez lhe baste ser o suplente de Sócrates. Ousaria ser mais, sem o trauma do tubarão? O do Spielberg era de borracha. E o seu, dr. Menezes? Se era amarelo e foi a sua mãe que o pôs na banheira, não devia ter tido tanto medo.»