Blogue de apoio ao "Boca de Incêndio"

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A Aversão (3ª parte)

III

A Si tinha ficado a falar com o Director do “Europa”. Este deixara-se enterrar numa poltrona com os joelhos completamente juntos e os pés cada vez mais afastados.

De vez em quando punha as mãos entre as pernas e olhava para a sala semi-vazia, um pouco desolado. A contracção em que vivia - o prestígio também, é certo - como Director do órgão oficioso do Estado (o que era diferente de Governo), a religião do colarinho branco e dos fatos muito respeitáveis em que tinha sempre vivido, deixavam-no, por vezes, de rastos. O pior era quando antecipava os pequenos gestos de contracção próprios da intimidade e lhes começava a soçobrar ainda em público. Fazia uma triste figura, ele, que enganara tanta gente com o seu queixo sem pescoço sempre apoiado num firme colarinho engomado e as meias pretas longas compradas em sítios que se segredavam como os fornecedores de droga ou de charutos havanos de imitação. Tinha a roupa toda engelhada à volta das pernas, contraídas num frémito de aflição e o casaco pendurado no palmo de ombros como a sobrecasaca do grilo dos desenhos animados. Ficara um bocado como o marido da Mi, o negociante francês (estão a lembrar-se, certamente) mas não era já um mergulho de cabeça na depressão porque toda a figura estava patinada de claro e dava um certo ar primaveril. Era antes um murro no estômago do ânimo, o que condizia, aliás, com a sua posição, curvado, de cotovelos no umbigo. Ficaram juntos, ele e a Si, por algum meneio que esta deu ao corpo grande onde já adornava um sortido razoável de hospitalidades.

Sem saberem bem porquê, começaram a falar dela. Descobriram que estavam a conversar sobre a mesma pessoa, por via do marido.

- Eu acho que o sr. Professor - ele dizia “o senhor” com um ar de grande diligência democrática, como quem julga que o indivíduo é o tribunal do universo à maneira Kantiana e fora disso só bruxuleiam radicais descabelados ou multidões de chinesinhos descartáveis por campos de arroz, como fertilizante. “O Sr. Professor”- condescendia - “é uma pessoa de grande educação, de fino trato.”

A Si, que tinha perdido dois maridos, um por ter ficado fino demais durante uma semana e outro pelo trato que lhe deu um sócio, ia desatar a rir-lhe na cara mas sentiu que ele não ficaria pelos elogios. Pousou o queixo nas costas da mão em atitude pensativa e disse com os olhos: “Anda lá! Diz lá mal que é onde queremos chegar.”

- O Sr. Professor é sempre uma pessoa de grande educação mas a Dona... - referia-se agora a ela - parece sempre tão...tão...inquieta com todos..!

A Si também se riu. Só um pobre democrata como este, educado como manga-de-alpaca a vida toda até ser elevado a Director de jornal, era capaz de dizer coisas destas. “Com todos”. “Mas quem são todos?”, ria-se ela. São sempre alguns os que são alguma coisa. Aí, decidiu explorar. Estiveram ambos durante muito tempo a dizer mal dela. Parecia o discurso de Marco António no “Júlio César” de Shakespeare.

- Os filhos são todos maravilhosos...

- Sim. Mas parece que troca os filhos por tudo o que é mundano.

(A Si ria-se com o “mundano” que, para ele, deviam ser aproximadamente as tainas para funcionários públicos na Presidência da República a que ele agora devia ir com frequência e ela, se estivesse ali, Ah!, pararia um momento para os esbofetear a ambos porque nunca pusera em causa o seu papel de mãe trocando-a pela vida social, da qual era, aliás, complemento e continuação.)

- Pois, pois... - dizia a Si retendo-se um pouco a seguir, terçando armas contra ela já de um modo igualitário, de coração aberto, jorrando com sabor algumas histórias da arrogância e perfídia dissimulada.

Saíram dali os dois muitos ofendidos e solidários, ela puxando-o pela gola e repondo-lhe a cara, com a pele deformada, à força de tantos anos escanhoada, em cima do colarinho, ele dizendo-lhe uns “Minha Senhora” com tanto “frou-frou” que parecia senso comum, aquilo que os homens dos jornais têm de admitir, mesmo se for um massacre.

De repente ele pôs-se quase em bicos-de-pés e a Si já não achou tanta graça. Ele saltou, como um homem engelhado pode fazer e disse mesmo que a democracia deve rilhar certas ervas daninhas. Disse-o como uma figura de escritório que está farta da sua cinzentura e começa aos tiros dentro de um bar. A Si sentiu medo porque, com os dois maridos a menos e a celulite, com o álcool e as pequenas raivas, não deixava de ter tido uma infância feliz e assombrava ainda uma quinta em Sintra, o seu refúgio, onde se ia esquecendo por trás da hera guedelhuda, de pagar as contas de electricidade e as do Pesadelo humano. Aquele funcionariozinho público já caminhava noutro sentido, ou pinchava como uma bola. Tinha dentro de si toda a sanha dos perucas da Revolução francesa ocupados em cortar a cabeça a todos aqueles que, por dentro, indiciassem rir-se-lhes na cara, mesmo com a cabeça no cesto. Despediu-se com secura mas o Director do “Europa” caminhou perfeitamente dentro de si (que não dentro dela, como certamente, desejaria...) nada importado com o que acalentava, tomado por uma alucinação Pessoana, Avenida da Liberdade abaixo, os óculos como dois aquários submersos nos setes mares, com naus em contingência no Mar amarelo.

O Director do “Europa” trocara a vida pela normalidade. Mas esqueça-se o carácter valorativo desta afirmação. Na cerimónia de entrega de prémios aos caricaturistas, tinham estado todas as novas colunas e capitéis das Instituições. Sempre nos seus fatos cinzentos, as abas compridas como chapas de metal e as bandas ligeiras sobre uns ombros que já não eram magros mas flácidos (quando não eram inchados até estalarem das costuras). Ele não reparou nisto porque tudo aquilo, o ar de cerimónia e a voz colocada bem no fundo da barriga, eram uma vibração, um bate-papo que se comunicava já de antes. Estavam lá todos. Enumerá-los era uma viagem pela galeria das novas flores de metal que desabrochavam na pirâmide social, ou na Torre de Babel, construída da base para o topo, mas ao contrário. Era aquele moço brilhante que dirigia agora o Instituto de Promoção Cooperativa, aquela jovem mãe e mãe todos os anos (quando o marido vinha de Bruxelas, para férias), ainda de pernas bem torneadas, que dirigia o Gabinete de Gestão, eram os dois secretários de Estado dos três ramos, o Ministro fizera-se representar pelo Chefe de Gabinete. Depois havia jornalistas, alguns repórteres novos e cabeludos em quem o Director descobria muitas vezes garra, ambição e, como isso não bastava, aquele brilho conivente de quem sentia como ele, ou seja, que era preciso gozar o que havia de melhor na vida e segurá-lo com determinação. Firmeza e contumácia. Obstinácia. Pancrácia... ( a criada aproximou-se com a bandeja, cansada de dizer que era ucraniana e Anastácia).

Disse algumas palavras: “ Sempre que os acolho nesta vossa casa...” Depois de as professar, quando a festa deixara uns papéis de bolinhos e maços de cigarros vazios no chão, o Director de “Europa”, sozinho no seu gabinete, arena menor para onde chamara os jovens touros do futuro jornalístico ( sempre tão novos, com o peito firme cheio de pêlos, mãos largas que deviam fascinar as jovens de lábio cintilante e vestido de anaconda) proferia também umas breves palavras sobre ele próprio. Dizia que aquilo era um bastião da Liberdade de Expressão que resistira quer à Ditadura quer ao Gonçalvismo ( esquecia-se é que aquilo fora um bastião sim dos fundos perdidos do Estado e dos homens da manga branca e fato cinzento de risquinha verde, mais tarde, inspeccionando as contas com olhos vagos).

Preferia ficar ali, estava melhor que na sua casa, que era tão pequena. Não conseguira arranjar uma casa maior mas guindara-se a figura pública sempre chamado para as recepções da presidência da República e, coitado, apoiava-se a si mesmo, até tivera que comprar uma casaca para fazer uma figura digna com essas dificuldades que um jovem enjeitaria como hipocrisias e um rico desdenhava, incapaz de compreender a nova república de cidadãos europeus. Era um homem da maioria, não daquela que precisamente governasse mas de qualquer maioria, da gente sem importância, de homem da rua da sua cidade que prezava a segurança e aspirava ao respeito e promoção social a que tinha direito.

O pior era que, naquela entrega de prémios, tinha de novo que convidá-la a ela, o que aconteceu. Quando chegou a altura, cumprimentou-a à entrada com o medo das máquinas fotográficas marotas que captam as nossas expressões mais contraídas, os malares duros como punhos cerrados, os olhos esbugalhados, os planos sem relevo onde o nosso nariz aparece entalado num lado qualquer ou um dedo, desembainhado em riste, um argumento, parece empurrar pelo flanco alguém que flutua em estado de graça. Por isso, pela traição da fotografia, o Director do “Europa” cumprimentou-a muito depressa, quase atrapalhado, o que ela levou a mal. Uma rainha diz coisas muito britânicas como “ que falta de gosto chover!” ou recebe a notícia da morte de alguém torcendo o nariz com um “ que aborrecimento!”

Depois, ficou a ver a entrega dos galardoados aos galardões. Desde há uns tempos que se lhe debatia na cara, um riso teimoso. Parecia um daqueles famintos em que a pele da boca, puxada sobre os ossos, desenha uma ligeira concavidade. Depois, os olhos deitados para fora iluminam ainda mais esse riso mortal. Quando o primeiro premiado foi receber o pequeno embrulho, ela também o foi cumprimentar.

Passou em frente ao Director com a sua saia ligeiramente travada, sacudindo as extensões interiores do corpo e balançando. O Director dispunha as pessoas em cada lado, como se abrisse os dois braços para abraçar, a partir do centro, um semi-círculo. Mas, na fotografia, ficaria como um cantador de rancho folclórico, esgueirando-se pequenino entre o muro dos instrumentistas.

E ela, quando foi cumprimentar o galardoado, agarrado ao galardão, ia com aquele ar de menina de colégio que se polvilha pelo melhor aluno da turma, apaixonando-se primeiro e jurando lá por dentro dar afinal uma facada nas costas àquele que a ofuscou e que destronará, um dia.

O Director do “Europa” ia vendo assim, nela, alguém que frequentava constantemente os sítios onde ela passara a ir. Como muitas vezes, em Lisboa, mas sem que tal fizesse dos lisboetas homens frouxos ou cinzentos, incapazes de uma determinação afiada de siciliano, alguém parecia estar sempre atrás de alguém, como uma causa e uma consequência. O cheiro dos outros punha-nos o pêlo no ar. A peugada sucessiva erguia dentro de nós os instintos mais mirabolantes. Quando se tratava de uma mulher, uma ida aos fados e uma devoção sem limites dava excelentes resultados. Excelentes! Quando não, um rebolozinho entre os lençóis, disse de si para si (talvez a Si se tivesse instalado dentro da sua cabeça e travasse lá dentro monólogos ruidosos) mostrando à penumbra os dentes amarelos que, se calhar, elucidavam a quase ausência de sorriso.

Mas - anotava ela, mentalmente - esta mulher não lhe sugeria nada disso. Havia uma justificação republicana, igualitária, que lhe afagava o peito quando puxasse uma guilhotina imaginária sobre a cabeça dela, sacudindo depois o pó da casaca, exibida com inelutável rigor, à plateia. Ele não sabia o que era, mas vencia de longe qualquer atracção pela carne, qualquer olhar deslizante atrevido pela coxa morena até à roupa interior de seda, esticada sobre a anca, para ser puxada por dentes ferozes. Nada disso o acometia, sobretudo quando ela, sentindo-se considerada por trás em proeminência, nas extensões firmes dos veludos, os interiores e os exteriores, se contraía com um sorriso forçado.

O galardoado era outro parvo, pensava o Director do “Europa”. Mas não podia demorar-se muito tempo nele, balouçando nas pernas flexíveis, abanando o fato de tecido fresco como se ainda tivesse um corpo juvenil e passando-lhe com a sombra bem por cima, a ele, o Director, mestre de cerimónias mas atarracado no prazer de se rebolar pela compota social. Pela sua parte fixava-se apenas nela, na maneira como, não sendo a premiada, mostrava aos outros a sua magnanimidade e bondade ao acorrer à festa de consagração de alguém que depressa tombaria na valeta da sua marcha triunfal. Sim, ela tinha ideias definitivas sobre Arte e, mais do que isso, uma sensibilidade que faria escola, daria lições e luziria para exemplo de muita gente, em anos sem conta.

É claro que, nisto, o Director pouco via, fascinado que estava com a fúria lenta que aquela mulher lhe atiçava por “simpatia”.

Ao fim do dia, com a vaga luminosidade azul que se difundia da frontaria do prédio sobre o poço escuro da avenida da Liberdade, ia gerindo estas sucessivas contracções do fígado. O corpo mirrava na cadeira, o ar condicionado abanava de vez em quando umas beatas da alcatifa. Estes momentos existenciais na vida de um jornalista eram os balancetes de verdadeiras jornadas literárias que lhe estavam ali, no sangue, prontas a desdobrarem-se para fora e fazerem escola. Quando se meteu no carro, cá em baixo, não sem antes perguntar, importante, à mulher, se lhe tinha gravado o telejornal no vídeo, atravessou a rua, alisando o casaco compulsivamente. Tinha um ar de jacobino de Verão, com a boca pequenina, prestes a desfiar as peremptórias ordenações a quem se atrevesse a abordá-lo. Ia sempre compondo o casaco, quase abrindo e fechando o botão de baixo como quem entra num baptizado ou se acerca do Presidente da República.

Felizmente que nenhum travesti ou rapariga da vida, essas que ele olhava de soslaio e que já o conheciam como as animações de luz e de sombra das esquinas, o abordaram. Por isso, pôde ligar a ignição com o nariz levantado e as bochechas em apresentar-arma, não fosse alguém, ainda assim, entalado que estava no fundo do banco como a marca de um livro entreaberto, pedir-lhe um cigarro e depois a carteira, ou atirar-lhe a beata à cara escanhoada e desconjuntar-lhe os óculos, abanando-lhe o colarinho sempre tão firme no nó da gravata.

Aliás, era tempo para se orgulhar da gravata. Além de utilizar sempre padrões muito discretos, não embarcara nessa moda das gravatas largas cheias de arabescos como pano de cortina. Fazia sempre um nó firme e apertado como um verdadeiro diadema. Um dia, uma mocetona da rua perguntou-lhe até se ele, em vez do diadema, não queria outra coisa...Até nesses pequenos pormenores encontrava ocasião para se congratular, para ver com algum ócio que era um homem especial, instalado no carro da história e da política do país, um homem a não negligenciar, que o Presidente da República não deixava de fixar cuidadosamente quando lhe estreitava a mão. Revia mentalmente a troca de gorjeios que então “tinha lugar”: “ Sr. Doutor”. E ele: “ Sr. Doutor”. Mas não era um “ Sr. doutor” qualquer. Ah, era um “ Sr. Doutor” cheio de familiaridade, apesar das exigências protocolares.

Durante o percurso, achou perfeita a cidade, tanto os novos trajectos como as largas faixas brancas luminosamente pintadas no asfalto. Sentiu que a cidade mudara e quando meteu um prego com a mudança, coisa que antigamente era capaz de o pôr fora de si, destapando um sargento furibundo, desta vez nem lhe tocou. Fez a censura e deu o perdão, ajoelhou-se e pôs-se de pé, pelos próprios braços. Ao seu lado... não, dentro de si, um outro eu olhava as coisas com mais tolerância e optimismo. E, dentro de si, ou da Si, era um paraíso, agora ao alcance…ah, que vida maravilhozaahhh... a Democracia! Era um doce e justo prémio para uma pessoa honesta e sempre cuidadosa com o seu aspecto, este bem-estar e até este humor com que a vida o presenteava, ainda nem todos os cabelos branqueando. Bradava ao vento uma mistura de socialismo e cristianismo neste modo como o seu espírito e o seu carro deslizavam pelas voltas da cidade, uma gratidão e uma identificação com Lisboa. Se o pneu furasse, se algum homem da bomba de gasolina lhe deitasse a mão, se um guarda providencial se interpusesse entre ele e o marginal inesperado, certamente que teria o poder de os guindar à celebridade com um mero despacho ( sim, porque ele despachava como se estalasse os dedos e como se a caneta, rodopiando, inscrevesse intuitivamente a sua rubrica). Era este homem sério, com a seriedade de um Ministro, que detivera o poder da normalização à frente do jornal mais lido em Lisboa e Além-Mar, quem equilibrara uma situação financeira capaz de deixar à beira da agonia numerosas famílias. Perante ele, quando tocava levemente no nó da gravata sempre firme, esses jovens jornalistas com ganas de repórteres do Amazonas e cabeleiras hirsutas faziam a voz fininha e analisavam-se em requebros verbais.

A democracia era isto, dizia de si para si, ao entrar numa bifurcação: o prazer de travar ligeiramente, balançar a cabeça de um lado para o outro, ajustada dentro do seu tipo de óculos meio escuros que nunca deixara de usar, nem à noite, a boca sempre contraída com um ar sério e digno, “ co-respeitador”, como costumava dizer, dos direitos dos cidadãos. A democracia era isto, agora que metia um prego em terceira num carro de modelo europeu, com mais instrumentos no painel que o anterior e ela entrava perfeitamente, imprimindo um ruído aspro mas civilizado e colocando-o com toda a segurança no ramalhete de luzes, trocando de posição e orbitando na constelação do “ co-respeito”. Era também, a cada “gesto’ do olhar... poder abranger distâncias maiores... não tardaria o carro supersónico europeu, eivado de luzes como estrelas, perfeito tanto no rendimento como nas estatísticas de segurança.

Ia para casa sentado na almofada do bem-estar mas sempre desperto, com a imaginação viva, a inteligência desembaraçada e o bom gosto ao alto. Não havia palavras que o exprimissem e podia dar largas à sua vontade de brincar porque há quarenta anos que não brincava e, quando pensava em sorrir, doía-lhe o nariz.

No fim do caminho, a chegar, um pensamento bateu-lhe no peito como um pedra. Tudo isto era muito bonito, dizia de si para si, mas a mulher do Sr. Professor deitava-o abaixo com as suas petulâncias, os seus risos sustidos! Havia nela uma liberdade que crescia calmamente ao lado como um oceano vermelho (ela tinha a mania de se vestir de veludo carmim ou castanho com uma forte mistura de vermelhão) e avantajava-se à sua frente. Não que o surpreendessem estes novos desafios que cresciam em torno e para o seu desafogo democrático. Já experimentara um título ou um rótulo que resumissem o seu novo bem-estar (é certo que não lhe desagradaria ter uma piscina, em vez de quarenta vizinhos rabiando em alvéolos, todos uns por cima dos outros, mas tinha uma piscina que era Portugal com os seus acontecimentos, as suas novidades, a mudança de cor das suas disposições entre as quais ele se movia com tanta comodidade).

Tentara arranjar uma palavra. A simples ideia de um título nobiliárquico fazia-lhe embargar sonoramente o silêncio, como se lhe tivessem dito uma garotada. Não precisava disso para nada. Ah, dizia sufocando. Até achava ridículo.

Cidadão! A palavra cidadão também não o entusiasmava... Lembrava-lhe os radicalismos sanguinolentos da Revolução francesa. Homem! Era uma palavra bem vinda pela porta da Igreja mas algo mais subtil protestava no seu peito, exigindo honrarias. Não achava a palavra mas despeitava tudo o que lhe não acomodasse a suavidade, providenciando a tranquilidade do ar. Nem ar calmo, uma bela refeição familiar e a glória das letras jornalísticas (por exemplo uma sentida homenagem ou umas breves palavras de admiração) era a base segura de uma felicidade prometida.

Mas pessoas como a mulher do Professor, como ela, transtornavam tudo em volta, abanavam as árvores, faziam piruetas, agitavam-se de tal modo que era um atentado ao respeito pelos outros, ao tal “co-respeito” de que já tínhamos falado.

Ora ele não era de se ficar. No meio desta animosidade sentia que o cheiro da Si lhe agradava, apesar dos silêncios de dentadura exposta e dos cruzares de braços acompanhados da repetição das suas próprias palavras com que exibia ostensivamente e algum cinismo, o esforço por se manter na sua linguagem mais sincera. Lá está! Não gostava da falta de franqueza da Si (já a tratava por tu) ele que era um homem de peito aberto, capaz de dizer o que tinha a dizer... Bom! Pelo menos a Si podia reduzir-se à sua própria fracção. Tinham denominador comum. Não lhe importavam sequer as suas ancas volumosas, isso era coisa que nem lhe ocorria. Sempre que pensava nela, vinha-lhe à memória a primeira ida ao talho com a mãe e a criada, os braços do Sr. Silva cheios de dedadas de sangue, o machado e o cadafalso de madeira em que as costeletas de porco estiolavam.

Ora aqui estava um bom momento para deixar o assunto. Ia entrar em casa, tarde, guardara o hábito de não comer à noite desde os tempos de penúria em que começaram a escrever artigos de colarinho muito engomado, com vivas ao rigor e à coerência, à palavra dada e ao dever a cumprir.

Ia sentar-se na sua poltrona rodeado de colecções de números recentes de Financial Times e do Herald Tribune, todos esses pequenos prazeres a que um jornalista de elite, como ele era, se entregava, cachimbo tépido na mão. O problema foi que viu uma mulher parecidíssima com ela, a passar-lhe ao lado, ao volante de um arrogante carro desportivo. Não, não podia ser, ali, no seu bairro! Sobressaltou-se, o peito ficou aberto como uma arcada demasiado larga sob o edifício que sustinha e o coração desprendeu-se do eixo, como um pássaro às turras cegas pelo teto. Ah! Não podia ser! Odiou-se durante longo tempo por ter ficado naquele estado, ele, um jornalista de prestígio.  (continua)

André de Melo