Blogue de apoio ao "Boca de Incêndio"

terça-feira, 28 de julho de 2009

"A Aversão" (4ª parte)

O Director do “Europa” descia agora a rua, consumido. À transparência da sua distracção fugidia, com um olhar desperto, ia sondando o passeio.

Não faltavam rostos conhecidos do jornalismo, pela Avenida da Liberdade abaixo e acima. Não seria capaz de contratar um matador mas, se a ocasião se prestasse, iria pôr um à prova. Àquela hora, os jornalistas do “Quotidiano” vinham a decompor a feijoada pela rua abaixo com os olhos meio vidrados de álcool. Tinham ficado barrigudos e teimavam em usar aqueles bigodes revolucionários, agora pelados e grisalhos, enquanto não se compunha o salário com “ganchos” noutros jornais, e o “Quotidiano” se confinava a um esconso do salão político. Não era um certo radicalismo que os reduzira àquele canto do espectro (político). Afivelavam até uma opção moderada, quando todos eram revolucionários, em sabatinas de radicalidade, numa linha da qual ele se sentira sempre correlegionário. Tomava era a precaução de não a revelar e cuidar meticulosamente das influências de que dispunha antes de se confidenciar. Mas Roma não paga a precursores. Quanto a eles (aí vinham, em grupo, meio amparados uns aos outros, como uma cáfila) todos rodeando uma rapariga mais nova, certamente estagiária, de calças de ganga e camisa fina com as pontas atadas acima do umbigo.

O mal do “Quotidiano” é que bastava ver um ou outro jornalista para se aperceberem, por mais moderada que fosse a fama do jornal, que quem escrevia aqueles artigos desorientados, eram indivíduos com caras de terroristas. Quem iria acreditar? Não sabiam meter uma gravata nem ajustar um colarinho. Não percebia como conseguiam! Para ele, Director do “Europa”, era a falta de senso que caracterizava as crianças grandes, teimosas em viver sem responsabilidades. Aquela empresa não surtiria efeito... não fossem as outras publicações do grupo e há muito que estariam na falência. Estugou o passo e preparou-se para ser abordado. Não, não iria falar-lhes. Esperaria que se acercassem dele. Passou um cão a correr e teve uma fúria violenta, não vibrando um pontapé no canídeo porque sempre soubera fazer descer a fleuma sobre si próprio como quem se dispõe sob um chuveiro gelado, contemplando o suicídio para não massacrar a família. Por outro lado, porque sabia que o seu terror infantil pelos cães era um requintado sinal de civilização. É certo que, um dia, por pouco não saltara para cima de um banco mas, desta vez, soube pôr-se fino porque, se houvera algo de importante em toda a sua vida, fora manter sempre a compostura. O grupo parava agora em frente à porta do “Quotidiano”. Enquanto a moça da camisa apertada sob os seios esgrimia devagar com todas as indirectas (por acaso ele reparou que a moça era “bem boa”) desta vez menos interessada em que lhe gabassem a beleza do que lhe dessem um trabalho a sério. Pararam todos ao mesmo tempo, mais ou menos metendo o dedo no nariz ou arrotando disfarçadamente. O Director do “Europa”, que tinha um olho de lince para os embaraços e o mal-estar dos outros (era uma coisa que desenvolvera desde pequeno, esta noção salvífica de que não era só ele, afinal, quem vivia assim tão embaraçado mas que os outros também rabeavam em vergonhas infernais) reparou na típica posição de contracção seguida de dois ou três passos disfarçados que um deles ensaiava à retaguarda, pressionado pelos êmbolos gasosos de dentro.

Enquanto o sujeito embaraçado olhava para o ar e fazia balançar a mão à vela do traseiro, alguém do grupo reparou no Director e cumprimentou-o. Fê-lo rapidamente, por um segundo, como se fazia a um vizinho e isso, é claro, não bastava. Por fim, o Director do “Quotidiano”, serrão encorpado que devorava diariamente doses fatais de feijão e enchidos com uma indiferença de condenado, lá cometeu o seu erro do dia. A alegria dos copos dispunha-o fraternal como sempre se imaginara no pátio do liceu quando o seu espírito despertava ainda para o que ele julgava serem as letras e os ideais democráticos (era o mal dele, pensou o Director do “Europa”, não se ter apercebido da gravidade ou das consequências do muito que dizemos). Com duas palavras, sem nunca se descompor, conseguiu sobreviver no grupo por alguns minutos. Um deles olhou-o com uma luz escura no fundo dos olhos mas embainhou a língua - passara já do descabelamento revolucionário para a perfídia estratégica. Entretanto, já tinha conseguido chegar onde queria. Um dos jornalistas, mais bêbedo e sujo que os outros todos, aceitou logo o trabalho, como um forcado a desafiar o touro.

- É um artigo sobre aquele livro de M... Eu sei que há que estar actualizado no plano das letras mas aquela obra é uma das que marcou o panorama editorial ao longo de todo o ano.

O jornalista não se ria. Com os grandes olhos baixos rolava as pontas dos dedos umas nas outras e, com elas, parecia organizar a sua contabilidade pessoal.

- Pois está bem, falaremos mais tarde nisso. Vamos talvez almoçar. - claro, “almoçar”, pensou o Director do “Europa” que tinha mais que fazer. Só com dois pratos de rancho é que aqueles bêbedos diziam que sim. Três botões do colarinho desapertados, dois em baixo no fio e, então, a avenida da Liberdade parecia-lhes brilhante e luminosa, desfilando em opções fáceis como canoas de Cleópatra em cortejo, Nilo abaixo. Um jornalista não era assim um badameco qualquer mas um escritor em potência, um actor assinalado do que há de mais importante na vida de uma cidade: a sua cultura.

O Director do “Europa” acedeu. Iria convidá-lo para um almoço de trabalho com alguns dos rapazes da sua redacção num restaurante daqueles em que se tirava o casaco para mostrar uma camisa impecável, bem vincada ao longo da manga e se progredia a cada garfada ao fresco do ar condicionado. Aí, ele, com o seu saco de lona a tiracolo que teimava em transportar para todo o lado, talvez se sentisse a mais e se submetesse às condições.

- Muito bem. Almoçamos juntos - e despediu-se com ar de negócios. O pior era a rapariga da camisa e das calças de ganga que os olhou a ambos, desinteressando-se de todo o resto do grupo como quem tinha farejado um sinal aflitivo do que procurava, ou não fosse andar assim vestida que até lhe arranhava o plexo solar, com aquele nó da camisa por cima do umbigo. Não é que não lhe apetecessem aquelas jovens geralmente bastante surpreendentes em certas ginásticas mas agora tratava-se de matéria para ser cozinhada em segredo e servida com toda a eficácia e sentido da oportunidade.

Uns dias depois, almoçavam. Mandou dizer pela secretária, foi bem vestido e aprumado para o restaurante onde, finalmente, o “contratado” chegava, em calças de ganga e camisola de lã, vagamente apertada debaixo da calote da barriga. Sentaram-se, comeram e acertaram os pormenores. Quanto ao “co-respeito”, ele não parecia interessar-se muito. Recostava-se para trás, empurrava como duas esferas os grandes olhos repolhudos e ouvia as indicações com uma bonomia canina. O Director do “Europa”, que se fizera acompanhar, à última da hora, por um par de jovens estagiários, um deles com umas melenas de libertino, ambos famintos ou com apetite notório... usou muitas palavras caras, explicou a orientação da política cultural do “Europa”, com grandes gestos desenhados, tudo isto apoiando os cotovelos e avolumando o tronco sobre a mesa, numa franca atitude de “arregaçar as mangas”. Muito bem! O que ele queria era um artigo que destruísse a fulana, enquanto autora. É claro que a crítica toda já se tinha rido e rebolado a rir com o último romance dela. Voltar atrás ia levantar suspeitas mas aquele contratado era dos tais que diria mal da própria mãe se lhe pagassem. Contanto que lhe dessem de almoçar, onde suponho que retratava a lama todos os comensais, para perfídias futuras.

Quando saiu, o Director do “Europa”, sempre dinâmico, tinha um penachinho de cabelo atrás e parecia todo entusiasmado com a companhia dos dois jovens estagiários, caminhando em passos largos pela avenida acima. O “contratado” disse que lhe entregava o assunto na “segunda que vem” e despediu-se, voltando atrás com metade do indicador peludo, enterrado no nariz.

No dia em que o artigo apareceu, viu-se logo que tinha sido feito sobre o joelho nu e gordo do “contratado”, presumivelmente na casa-de-banho.

O Director do “Europa” pegou naquilo e sugeriu umas correcções. Riscou metade e o autor nem protestou. Veio buscar o cheque e foi logo almoçar com o grupo do “Quotidiano” que tinha hoje mão de vaca com feijão branco encomendada do dia anterior, no restaurante habitual.

O artigo desfilava num belo rol de insinuações, não a propósito do livro mas a propósito dela. E ela só se apercebeu quando uma amiga da Si lhe deu dois beijinhos repenicados, puxando-lhe do cinemascope social, com um olhar significativo, o longo artigo do “Europa” de domingo passado, no suplemento literário, que se fartava de falar nela. É claro que as circunstantes não perdoaram. Todas lhe cravaram os olhos como quando desejavam um amigo do próprio filho e metiam a mão na boca, a morderem-se. Senhora de si como era, informada do ocorrido numa recepção já tradicional, em casa de um conhecido organizador de leilões, foi mais cedo para casa, meio perplexa, meio desejosa de se ver destacada nas parangonas do “Europa”. Cheia de pressentimento, arribou a casa e mandou logo o Ni comprar-lhe o jornal. O Ni tinha vindo com uma jante do carro amassada e tentava arranjar uma oportunidade para expor o sucedido à mãe. Ela não lha deu.

Entrara como sempre, impante, quase arrastando o chapéu pelo chão, de tal modo deixava descair o ombro e, atirando-se para um recôncavo da poltrona, desdobrou o jornal como um feitiço. Ora, nem precisou de passar da segunda coluna.

Foi como lhe atirassem um copo à cara e, no pátio do colégio, as veteranas se propusessem pendurá-la numa árvore, semi-nua, ainda ao som do carro dos pais que a tinham vindo trazer do fim-de-semana. Leu ainda, alvoroçada, o fim, com os lábios a tremer e arrepanhou de uma só vez o tecido do braço da cadeira. Como era possível?! Verificou o nome assinado. Era um desconhecido. Abeirou-se da ponta da almofada, as pernas cerradas desenhando duas curvas na parte interior. Lembrou-se das suas ebúrneas pernas, que faziam demasiado efeito nos homens e tentou desesperadamente puxar a saia para baixo que esgotara todas as folgas. Os lábios tremiam-lhe, partiu uma unha na mesinha do candeeiro. Quando o Ni lhe mostrou a jante do carro, levando-a sonâmbula até fora, então explodiu mesmo. Marreca, com o queixo a adejar e os braços espatulados ao alto, de unhas em riste, a saia puxada até meio da coxa, vibrou um pontapé de bico na chapa do automóvel que os reflectia a ela e ao filho como uma barraca de espelhos na feira. Ora este foi tão mal dado e a dor tão grande que caiu na relva, sem jeito, mostrando a indumentária “Victoria´s Secret”, ao que parece. Nessa altura, já o Ni, aterrado, tinha pegado no blusão, com a cara a arder e resolvera ir passear sozinho pelo perigoso ermo ao lado da marginal. É claro que foi assaltado e voltou todo arranhado para casa caindo vestido sobre a cama onde adormeceu tostado de infâmias e vergonhas.

Ela dava voltas ao quarto, com a mão debaixo do braço, chamuscava cigarros que pisava logo sobre a alcatifa. Quando o marido chegou, sempre intimidatório, balançando dentro do seu largo casaco de corte inglês, juntou todas as forças que lhe restavam e fez-se tão gata quanto pôde. O marido, que deixara cair as calças e, ainda de colete e gravata, procurava conciliar os passos enleados com a possibilidade de se esconder, julgou por ingenuidade que aquilo era algum bónus de alcova, cada vez mais raro... Mas, quando se abeirou, ela não se conteve e ia-lhe arranhando a cara. Limitou-se a resmungar porque os seus afectos já fantasiavam por trás dum Muro de Berlim, para outros horizontes, e ela aproveitou que estivesse de costas para cair na mais desamparada precariedade. Mas não podia demonstrar-lho. Ergueu a perna que, dentro da saia tão apertada, tinha forçosamente de levantar a outra e chutou o jornal para debaixo da cama, onde ficou até de manhã como o “homem do saco” que roubava meninos.

O Director do “Europa” andava perdido para encontrar a Si. Ela não lhe saía da cabeça. Já não se conseguia aproximar da mulher que a Si aparecia a rir-se com os olhos semicerrados volteando por um soalho encerado e balançando com a biqueira do sapato. Quando viu a mulher adormecida, amarrotada pela insónia, rebolou-se na cama mas a Si não lhe inspirava qualquer fantasia. A saia colorida, balançando sobre os joelhos, não lhe sugeria nada. A única coisa que lhe aparecia, era ela a alongar o reflexo num soalho encerado, onde cada tacão se assinalava com eco, e começar a chamá-lo, a interpelá-lo, a rir-se ou a dar-lhe ordens. A Si entrava-lhe nos pensamentos e havia algo de novo. Despertava logo, o ar clarificava-se e a luz da inteligência corria na brisa. Que aquilo era o repicar do sino para o começo de qualquer coisa, não havia dúvidas. Mas não sabia o que era. Desde que mandara publicar o artigo, uma série de pessoas tinham-se envolvido com ele - e ele com elas - sem que soubesse porquê. A sua intenção inicial era espetar uma farpa em vôo e voltar sossegadamente a casa, desfrutar a glória da sua carruagem que seguia inexorávelmente para a consagração. Mais uns passos do Presidente na cena nacional e ele teria toda a cobertura. O mínimo, para já, era uma condecoração no 10 de Junho que aí vinha. Só que, agora, via na série de pernas de mulheres descobrindo-se morenas por baixo de saias de veludo, passeando à sua volta, fazendo circuitos como nós, ensarilhando-se à volta dos pés com vozes finas de gineceu, que lhe tiravam o sono e o punham a rabear de ânsias. Tinha de admitir que sentia o bichinho da investigação a roer-lhe nos dedos, pronto a encher blocos com excitantes reportagens sobre algo que nem sabia bem. Tinha de encontrar a Si, atrever-se a convidá-la para jantar. Não esperava tornar-se um mundano mas lembrava-se da distinção dos romances do impagável Eça e conseguia, com facilidade, imaginar os passos a dar. Uma gravata mais colorida, uma ou duas graçolas, elegantes, é claro, bem tiradas, e um restaurante chique que não calhasse mal à senhora, aureolado a meia-luz.

No cocktail da Embaixada do Liechtenstein, surgiu a oportunidade esperada.

Si estava, ao fim de meia hora, completamente alcoolizada mas ainda composta, balançando sempre de um lado para o outro. Quando a revista do costume foi lá bater as chapas, cruzou os braços e fez o seu clássico sorriso largo, a toda a extensão, fixando os olhos bem na íris do fotógrafo. A legenda referir-se-lhe-ia, uns dias mais tarde, com um “conversadora animada”.

O Director do “Europa”, que fizera um esforço danado para aparecer nas fotografias, acercou-se então.

- Estás mal disposta? perguntava ele.

- Não. Estou apenas cansada - ele tentou agarrá-la e ela não se conteve.

- Não. Larga-me.

A sua ideia de carreira de escritora enlouquecia-a. Os cabelos pareciam que se levantavam da epiderme, compondo uma figura de Medusa ultrajada. O marido abateu o tórax voluntarioso, com fragor. Era o seu único protesto. Não lhe restava mais do que procurar o seu palmo de cama, recostar-se na almofada e deixar cair os óculos para a ponta do nariz, nublando o olhar sobre os pareceres que tinha em mãos. Ela só se despiu quando a escuridão era total e tinha a certeza que ele já dormia profundamente. Então, aí, enfiou a camisa de noite por cima da combinação e encostou-se à cabeceira durante muito tempo, congeminando vinganças como cavalos a correr. Como fora capaz, aquele porco, aquele bandido?! Ah, acendia outro cigarro, avivava a brasa e sonhava em queimar-lhe a íris com aquilo. Como fora capaz?! Chamar-lhe saloia, classificar o que escrevera como “guião de fotonovela para a crónica feminina”, “argumento de vídeo de baptizado”... Mas que raiva que aquilo lhe metia, que falta de tudo. Na sua mente perturbada começou-se a gerar a ideia de que a Si estava metida naquilo. Aquela maneira dela rir, da última vez que se tinham cruzado, só podia ser o gozo antecipado, não podia ser outra coisa! Porque é que ela se quedara a falar com o Director? Era todo um plano e nascera ali, de certeza.

Ah, que as ia pagar todas! Não lhe perdoaria nenhuma! Adormeceu de bruços e só acordou quando o marido se levantou agarrado à barriga, mordendo os lábios para não gritar: “Que mania essa de vires fumar para a cama!”. E ruminou com melopeias, amarfanhando os papéis contra o peito. E isso metia-lhe medo, quando aquele gigante, ajeitando os ombros de Atlas, começava em movimentos tectónicos.

O Director do “Europa”, que fizera um esforço para não aparecer nas fotografias, trajava de escuro o que , em combinação com as lentes cinzentas, lhe dava um ar sinistro. Mas, apesar de ciente do facto, o Director não desistia dos seus propósitos. Apareceu de costas, fazendo uma manobra de aproximação. Para quem o ouvisse a bater o papo, ficaria a ranger os dentes de indignação. Dizia todas as coisas com um ar muito importante, como se caminhasse para um trono, desferindo cotoveladas ao lado e olhando quem se lhe atrevesse a cortar o caminho como um ungido de descaramento.

A Si sentiu-o por trás e assustou-se. Estava bem-disposta naquele dia, os vapores do álcool pareciam-lhe leves como perfumes e liquefaziam todas as caras gretadas do Presidente do Tribunal de Estado, podre de velhice e uísque mais a sua nora que extraía seguidas, taludas de disparates.

Sobressaltou-se e cruzou os braços para colocar o nariz do prestigioso jornalista ao nível da medalhinha que cintilava do seu busto, iluminando o clássico riso largo...

- Está bom!? Que é feito de si?

Ele convidou-a, em duas penadas, para o almoço -- toma lá, dá cá.

No dia seguinte, a Si, com o rosto arruinado, tentava encontrar alguma aversão para arranjar um almoço combinado antes ou um plano para se escapar, mas não conseguia. Começou por se rir do artigo que tinha lido mas ela não era literata, não percebia nada. De repente, só lhe achou um pretexto: furiosamente, pregou os olhos nele, que se apresentava tão fogoso, fazendo os dois lábios rijos, como duas viborazinhas contorcidas, inclinando-se com fragor até meio da mesa e repuxando, tilintante, a toalha. Lembrou-se que, de dois maridos, não lhe restava nada e que, nesse capítulo, minguara a ansiedade.

É claro que aquele fulano nem se atrevia, nem perseguido com tições. Quando se distendeu para trás, avolumando os seios e olhando de esquina, com o riso tinindo para a sala toda, de modo a que todos notassem nela, o Director desorientou-se.

Prova lá se és homem, dizia ela com as carnes desconjuntadas. Tantos perdigotos e não vejo nada.

Depois de pagarem, a cena do carro é penosa de contar. Ele dava-lhe pelo ombro, ela tinha as coxas grandes descobertas até meio, com as impressões digitais dele, a vermelho, desvanecendo-se lentamente como as mãos de um náufrago pela amurada de um barco, num filme “spaghetti” de terror.

No escuro, depois de o porteiro os arrumar lá dentro, cheio de crepitações e gorjeios, entre o respeitoso e o atrevido, tentarem fazer o papel de jovens existencialistas. Era o seu cenário, confiavam as poesias de cada um e depois ela abria muito os olhos, com as mãos pousadas no ventre, à espera que ele, num relance do discurso, lhe aterrasse em cima. E ele assim fez, depois de estar uma série de tempo com o cabelo degradando-se e os ombros caídos, lutando por não se rir de excitação. Caiu-lhe em cima, ferindo-a com os óculos na cana do nariz.

A Si era maior e tinha um grande custo em se mexer mas ele estreitava-a com energia. Meteram-se num hotel, bem no escuro e ele descompôs ainda mais o cabelinho cortado, com a franja atrás, o tal dos fabulosos anos sessenta. A Si deixou-se ficar, nua, por baixo dos lençóis escassos, com os seios, como duas campânulas bem visíveis no lusco-fusco e fazia um esforço para não olhar. Já não conseguia articular o seu sorriso de um palmo, com os lábios distendidos e os olhos subitamente acesos por uma íris fendida, de gato. Tinha o penteado desfeito, como palha queimada, fazendo-lhe comichão no nariz e mal conseguia levantar as pálpebras, que mais se inflamavam quanto mais as esfregava.

O Director do “Europa” olhava-se ao espelho e via um rosto de pássaro mais ou menos em quilha. No meio, uma fenda negra abria e fechava com certa comichão de riso. Por trás dos óculos, os olhos piscavam de malandrice como se fosse desatar à gargalhada.

Pensou nos filhos e na mulher. O corpo parecia mais magro e pelado quando se atirava para a frente e corria à casa-de-banho enrodilhado no lençol. Uma luz acesa e rebentaria, de certeza, numa explosão de fúria. Só no escuro é que as coisas funcionavam.

Teve de admitir que não fazia aquilo há muito tempo mas sentou-se empolgado e justificado. Ela deu-lhe uma secura violenta e pôs-se em pé mais ou menos artisticamente enrolada no lençol. Tinha uma nuca bonita onde se enovelavam ainda uns cabelos ruivos e loiros de menina, compondo caracóis de anúncio de cosmético que mais acima se retorciam e alinhavam em chapas requeimadas a ferro de cabeleireiro. Mas o corpo, que parecia grande e macio na horizontal, estava já bem deformado e gretado na vertical. Remexeu no bar e só encontrou aguardente, o que não a deteve nem um bocadinho, apesar de espalhar em volta, um círculo considerável de rejeição olfactiva. Mas o Director do “Europa”, empolgado como estava, mais com o enredo do que com a prestação (da qual a Si, de resto, se esquecera já) passou sem torcer o nariz, pelo círculo de aguardente, e começou a florear. A Si estava que admitia tudo. À impressão de um abraço, limitou as coisas a não se ter nas pernas e a cair no colchão empunhando o copo como uma tocha. Tinha os nervos da memória bastante encarquilhados e sabia que precisava urgentemente de um aditivo para os distender. Passava constantemente os dedos pela fronte, julgando que as rugas eram disso sintoma inequívoco.

O Director também não se excitou mais. De peito nu, porque as pernas, obscuras da pelagem grossa, tinham sempre um aspecto de antropóide do Museu de História Natural, fumou um cigarro tranquilo. Olhou-a de esquina e alvoroçou-se num instante com a doença da época. Não, não podia ser, era uma senhora, etc. Há muito que não fazia aquilo. Àquela hora, a mulher, ocupada a ver a telenovela, e com rolos na cabeça, se lho contassem, nem faria caso. Talvez fizesse se ele puxasse aquelas baforadas quando fosse para a cama. De resto, era terça-feira e o que cada um fazia durante as horas de serviço era a conversa mais chata que poderiam ter, e via rápida para o divórcio, coisa que ela exigiria logo ali, puxando da escrivaninha, a procuração que só faltava assinar.

Quase ao mesmo tempo, ambos se lembraram dela e, desta vez, por uma razão engraçada, porque ambos a consideravam culpada daquela tarde sem novidade no hotel. As têmporas começaram a latejar ao Director do “Europa”, um fumo preto entupiu-lhe as vias respiratórias e subiu-lhe vomitado até ao nariz. Ela teve uma náusea que lhe chupou o sangue todo da cara deixando-a com o vago sabor a nada e lixo, dispersos no estômago.

À mesma hora, despeitada pela discussão que tivera com o marido de manhã, furiosa com o facto do Ni ter batido a porta, ela, ela mesmo, a nossa ela, razão da cumplicidade daquele par, pusera um filme de canibais na televisão e já o estava a ver pela segunda vez. Nem se levantara. As compras a fazer, a letra do quarto automóvel da família, desta vez para a Pi e o sr. Magalhães que, matinalmente alertado, se desfazia em mesuras na garagem, para a Sra. Doutora, ficaram todas no raio que as partisse. Andava em camisa de noite pela casa, fechara a porta à chave e passeava os olhos do jornal para as unhas, entre quedas verticais num sono figadal, até descobrir a caixa do filme. No meio da poltrona, pequenina e musculosa, juntando quase os joelhos ao queixo e arrancando o que lhe restara da depilação com o que lhe restara das unhas, começou a despertar. O filme mostrava cenas de canibalismo em vermelhão tomate e corpos negros bem modelados com ossinhos no nariz. Sentia uma estranha simpatia por aqueles personagens mais não fosse devido a uma cena qualquer em que uma negra de cabeça rapada e seios aquilinos começava a levantar os pés, que eram tão parecidos com os dela pela mesma planta esbranquiçada, imaculada no resto da pele morena e da poeira do chão, como se caminhasse sobre leite.

A única pessoa que conseguiu entrar na saleta da televisão foi a criada. Cada vez mais surda, como notava ela, ruminando as palavras meio cerimoniosamente, depôs-lhe aos pés a bandeja do almoço. Ela só ficou com a banana e a sopa da qual se limitou a provar, disparando ordens secas quanto ao sal, o aipo e a cenoura. A criada saiu, enrolada em si mesma, afagando o queixo redondo, maciço e escondeu-se na cozinha, enquanto a patroa se aferrolhava novamente, recolhendo outra vez ao canapé.

De repente, desligou a televisão. A Pi tinha pedido para sair com um rapaz aloirado que se passeava no descapotável do pai e recebeu um não rotundo, apesar do aspecto da mãe não lhe inspirar qualquer autoridade.

- Muana! - chamou a criada, alto. A mulher não ouviu ou fingiu que não. Foi ter com ela à cozinha pouco importada da malícia da mulher, riscando os pés nus, bem maliciosamente, no soalho da cozinha e perguntando-lhe com volúpia, como se mirasse nu, ainda de costas, o homem das suas fantasias.

- Já tiveste alguém na tua família, lá para o outro lado...- fazia um gesto esvoaçante com o braço mostrando o tufo de pêlos rijos no sovaco e desenhando a sua magreza agressiva contra a luz do dia- ... que tivesse comido alguém? - e ria-se.

A Muana respondeu - Sim senhora!

- Sim senhora, o quê!?

A criada não tinha ouvido a pergunta porque julgava simplesmente que a patroa estava a ralhar. Então ela perguntou de novo:

- Já comeste carne humana?

A Muana benzeu-se de repente e encolheu-se sem jeito nenhum por cima de um castelo de cartas feito de tachos e panelas. - Não, minha senhora! Sou católica apostólica!

Ela foi-se embora a rir e ligou outra vez a televisão que continuava a passar o filme gravado e roendo o que lhe restava da unha partida. Entretanto, a Pi saltava pela sebe, desenhando uma pose com os calções puxados sobre as pernas brancas que fez mover qualquer coisa dentro do namorado, postado na esquina. Enquanto a rapariga se libertava das pequenas folhas amarelas que se tinham preso à roupa, ele mirava-a por trás de um modo bastante carnal. A moça sentiu e virou-se: não se riu porque não estava a pensar em dar avanços. Aliás, aceitara a boleia para ver se topava outro, um jovem ajudante de camionista que costumava ir ao bar da praia dessedentar-se entre duas estivas. Olhou, mordendo os lábios, a ver se a mãe estava por perto mas notou a persiana corrida e pôs-se a dar ordens ao rapaz para que arrancassem depressa.

Entretanto, ela não se conseguia inspirar! O ninho perfumado, o cinema contínuo de sonhos e recordações em que mergulhara desde que começara a escrever, era varrido por um sopro de urgências e necessidades. Já não podia permanecer até se esgotar a vontade, deambulando em camisa de noite pela casa, parar só a seguir ao almoço para ordenar a vida dos filhos mais novos e ajoelhar-se depois no braço da poltrona do marido, narrando-lhe alto as páginas mais brilhantes. O fofo daqueles momentos era que ele, abrindo os olhos grandes e pestanudos, fazia uma boca carnuda e enlevava-se com quase tudo o que ela recitava. Estavam, de facto, a chegar ao momento ideal da sua vida, ele, com mais ou menos sorte, mas sempre prestigiado na política, balançando dentro dos seus fatos britânicos como se fosse uma obra de arte, ela sempre linda e elegante desbravando gloriosamente caminho, nas Letras nacionais.

André de Melo