Blogue de apoio ao "Boca de Incêndio"
terça-feira, 20 de julho de 2010
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
O calendário da revolução
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António Godinho Gil
à(s)
23:41
terça-feira, 28 de julho de 2009
"A Aversão" (4ª parte)
O Director do “Europa” descia agora a rua, consumido. À transparência da sua distracção fugidia, com um olhar desperto, ia sondando o passeio.
Não faltavam rostos conhecidos do jornalismo, pela Avenida da Liberdade abaixo e acima. Não seria capaz de contratar um matador mas, se a ocasião se prestasse, iria pôr um à prova. Àquela hora, os jornalistas do “Quotidiano” vinham a decompor a feijoada pela rua abaixo com os olhos meio vidrados de álcool. Tinham ficado barrigudos e teimavam em usar aqueles bigodes revolucionários, agora pelados e grisalhos, enquanto não se compunha o salário com “ganchos” noutros jornais, e o “Quotidiano” se confinava a um esconso do salão político. Não era um certo radicalismo que os reduzira àquele canto do espectro (político). Afivelavam até uma opção moderada, quando todos eram revolucionários, em sabatinas de radicalidade, numa linha da qual ele se sentira sempre correlegionário. Tomava era a precaução de não a revelar e cuidar meticulosamente das influências de que dispunha antes de se confidenciar. Mas Roma não paga a precursores. Quanto a eles (aí vinham, em grupo, meio amparados uns aos outros, como uma cáfila) todos rodeando uma rapariga mais nova, certamente estagiária, de calças de ganga e camisa fina com as pontas atadas acima do umbigo.
O mal do “Quotidiano” é que bastava ver um ou outro jornalista para se aperceberem, por mais moderada que fosse a fama do jornal, que quem escrevia aqueles artigos desorientados, eram indivíduos com caras de terroristas. Quem iria acreditar? Não sabiam meter uma gravata nem ajustar um colarinho. Não percebia como conseguiam! Para ele, Director do “Europa”, era a falta de senso que caracterizava as crianças grandes, teimosas em viver sem responsabilidades. Aquela empresa não surtiria efeito... não fossem as outras publicações do grupo e há muito que estariam na falência. Estugou o passo e preparou-se para ser abordado. Não, não iria falar-lhes. Esperaria que se acercassem dele. Passou um cão a correr e teve uma fúria violenta, não vibrando um pontapé no canídeo porque sempre soubera fazer descer a fleuma sobre si próprio como quem se dispõe sob um chuveiro gelado, contemplando o suicídio para não massacrar a família. Por outro lado, porque sabia que o seu terror infantil pelos cães era um requintado sinal de civilização. É certo que, um dia, por pouco não saltara para cima de um banco mas, desta vez, soube pôr-se fino porque, se houvera algo de importante em toda a sua vida, fora manter sempre a compostura. O grupo parava agora em frente à porta do “Quotidiano”. Enquanto a moça da camisa apertada sob os seios esgrimia devagar com todas as indirectas (por acaso ele reparou que a moça era “bem boa”) desta vez menos interessada em que lhe gabassem a beleza do que lhe dessem um trabalho a sério. Pararam todos ao mesmo tempo, mais ou menos metendo o dedo no nariz ou arrotando disfarçadamente. O Director do “Europa”, que tinha um olho de lince para os embaraços e o mal-estar dos outros (era uma coisa que desenvolvera desde pequeno, esta noção salvífica de que não era só ele, afinal, quem vivia assim tão embaraçado mas que os outros também rabeavam em vergonhas infernais) reparou na típica posição de contracção seguida de dois ou três passos disfarçados que um deles ensaiava à retaguarda, pressionado pelos êmbolos gasosos de dentro.
Enquanto o sujeito embaraçado olhava para o ar e fazia balançar a mão à vela do traseiro, alguém do grupo reparou no Director e cumprimentou-o. Fê-lo rapidamente, por um segundo, como se fazia a um vizinho e isso, é claro, não bastava. Por fim, o Director do “Quotidiano”, serrão encorpado que devorava diariamente doses fatais de feijão e enchidos com uma indiferença de condenado, lá cometeu o seu erro do dia. A alegria dos copos dispunha-o fraternal como sempre se imaginara no pátio do liceu quando o seu espírito despertava ainda para o que ele julgava serem as letras e os ideais democráticos (era o mal dele, pensou o Director do “Europa”, não se ter apercebido da gravidade ou das consequências do muito que dizemos). Com duas palavras, sem nunca se descompor, conseguiu sobreviver no grupo por alguns minutos. Um deles olhou-o com uma luz escura no fundo dos olhos mas embainhou a língua - passara já do descabelamento revolucionário para a perfídia estratégica. Entretanto, já tinha conseguido chegar onde queria. Um dos jornalistas, mais bêbedo e sujo que os outros todos, aceitou logo o trabalho, como um forcado a desafiar o touro.
- É um artigo sobre aquele livro de M... Eu sei que há que estar actualizado no plano das letras mas aquela obra é uma das que marcou o panorama editorial ao longo de todo o ano.
O jornalista não se ria. Com os grandes olhos baixos rolava as pontas dos dedos umas nas outras e, com elas, parecia organizar a sua contabilidade pessoal.
- Pois está bem, falaremos mais tarde nisso. Vamos talvez almoçar. - claro, “almoçar”, pensou o Director do “Europa” que tinha mais que fazer. Só com dois pratos de rancho é que aqueles bêbedos diziam que sim. Três botões do colarinho desapertados, dois em baixo no fio e, então, a avenida da Liberdade parecia-lhes brilhante e luminosa, desfilando em opções fáceis como canoas de Cleópatra em cortejo, Nilo abaixo. Um jornalista não era assim um badameco qualquer mas um escritor em potência, um actor assinalado do que há de mais importante na vida de uma cidade: a sua cultura.
O Director do “Europa” acedeu. Iria convidá-lo para um almoço de trabalho com alguns dos rapazes da sua redacção num restaurante daqueles em que se tirava o casaco para mostrar uma camisa impecável, bem vincada ao longo da manga e se progredia a cada garfada ao fresco do ar condicionado. Aí, ele, com o seu saco de lona a tiracolo que teimava em transportar para todo o lado, talvez se sentisse a mais e se submetesse às condições.
- Muito bem. Almoçamos juntos - e despediu-se com ar de negócios. O pior era a rapariga da camisa e das calças de ganga que os olhou a ambos, desinteressando-se de todo o resto do grupo como quem tinha farejado um sinal aflitivo do que procurava, ou não fosse andar assim vestida que até lhe arranhava o plexo solar, com aquele nó da camisa por cima do umbigo. Não é que não lhe apetecessem aquelas jovens geralmente bastante surpreendentes em certas ginásticas mas agora tratava-se de matéria para ser cozinhada em segredo e servida com toda a eficácia e sentido da oportunidade.
Uns dias depois, almoçavam. Mandou dizer pela secretária, foi bem vestido e aprumado para o restaurante onde, finalmente, o “contratado” chegava, em calças de ganga e camisola de lã, vagamente apertada debaixo da calote da barriga. Sentaram-se, comeram e acertaram os pormenores. Quanto ao “co-respeito”, ele não parecia interessar-se muito. Recostava-se para trás, empurrava como duas esferas os grandes olhos repolhudos e ouvia as indicações com uma bonomia canina. O Director do “Europa”, que se fizera acompanhar, à última da hora, por um par de jovens estagiários, um deles com umas melenas de libertino, ambos famintos ou com apetite notório... usou muitas palavras caras, explicou a orientação da política cultural do “Europa”, com grandes gestos desenhados, tudo isto apoiando os cotovelos e avolumando o tronco sobre a mesa, numa franca atitude de “arregaçar as mangas”. Muito bem! O que ele queria era um artigo que destruísse a fulana, enquanto autora. É claro que a crítica toda já se tinha rido e rebolado a rir com o último romance dela. Voltar atrás ia levantar suspeitas mas aquele contratado era dos tais que diria mal da própria mãe se lhe pagassem. Contanto que lhe dessem de almoçar, onde suponho que retratava a lama todos os comensais, para perfídias futuras.
Quando saiu, o Director do “Europa”, sempre dinâmico, tinha um penachinho de cabelo atrás e parecia todo entusiasmado com a companhia dos dois jovens estagiários, caminhando em passos largos pela avenida acima. O “contratado” disse que lhe entregava o assunto na “segunda que vem” e despediu-se, voltando atrás com metade do indicador peludo, enterrado no nariz.
No dia em que o artigo apareceu, viu-se logo que tinha sido feito sobre o joelho nu e gordo do “contratado”, presumivelmente na casa-de-banho.
O Director do “Europa” pegou naquilo e sugeriu umas correcções. Riscou metade e o autor nem protestou. Veio buscar o cheque e foi logo almoçar com o grupo do “Quotidiano” que tinha hoje mão de vaca com feijão branco encomendada do dia anterior, no restaurante habitual.
O artigo desfilava num belo rol de insinuações, não a propósito do livro mas a propósito dela. E ela só se apercebeu quando uma amiga da Si lhe deu dois beijinhos repenicados, puxando-lhe do cinemascope social, com um olhar significativo, o longo artigo do “Europa” de domingo passado, no suplemento literário, que se fartava de falar nela. É claro que as circunstantes não perdoaram. Todas lhe cravaram os olhos como quando desejavam um amigo do próprio filho e metiam a mão na boca, a morderem-se. Senhora de si como era, informada do ocorrido numa recepção já tradicional, em casa de um conhecido organizador de leilões, foi mais cedo para casa, meio perplexa, meio desejosa de se ver destacada nas parangonas do “Europa”. Cheia de pressentimento, arribou a casa e mandou logo o Ni comprar-lhe o jornal. O Ni tinha vindo com uma jante do carro amassada e tentava arranjar uma oportunidade para expor o sucedido à mãe. Ela não lha deu.
Entrara como sempre, impante, quase arrastando o chapéu pelo chão, de tal modo deixava descair o ombro e, atirando-se para um recôncavo da poltrona, desdobrou o jornal como um feitiço. Ora, nem precisou de passar da segunda coluna.
Foi como lhe atirassem um copo à cara e, no pátio do colégio, as veteranas se propusessem pendurá-la numa árvore, semi-nua, ainda ao som do carro dos pais que a tinham vindo trazer do fim-de-semana. Leu ainda, alvoroçada, o fim, com os lábios a tremer e arrepanhou de uma só vez o tecido do braço da cadeira. Como era possível?! Verificou o nome assinado. Era um desconhecido. Abeirou-se da ponta da almofada, as pernas cerradas desenhando duas curvas na parte interior. Lembrou-se das suas ebúrneas pernas, que faziam demasiado efeito nos homens e tentou desesperadamente puxar a saia para baixo que esgotara todas as folgas. Os lábios tremiam-lhe, partiu uma unha na mesinha do candeeiro. Quando o Ni lhe mostrou a jante do carro, levando-a sonâmbula até fora, então explodiu mesmo. Marreca, com o queixo a adejar e os braços espatulados ao alto, de unhas em riste, a saia puxada até meio da coxa, vibrou um pontapé de bico na chapa do automóvel que os reflectia a ela e ao filho como uma barraca de espelhos na feira. Ora este foi tão mal dado e a dor tão grande que caiu na relva, sem jeito, mostrando a indumentária “Victoria´s Secret”, ao que parece. Nessa altura, já o Ni, aterrado, tinha pegado no blusão, com a cara a arder e resolvera ir passear sozinho pelo perigoso ermo ao lado da marginal. É claro que foi assaltado e voltou todo arranhado para casa caindo vestido sobre a cama onde adormeceu tostado de infâmias e vergonhas.
Ela dava voltas ao quarto, com a mão debaixo do braço, chamuscava cigarros que pisava logo sobre a alcatifa. Quando o marido chegou, sempre intimidatório, balançando dentro do seu largo casaco de corte inglês, juntou todas as forças que lhe restavam e fez-se tão gata quanto pôde. O marido, que deixara cair as calças e, ainda de colete e gravata, procurava conciliar os passos enleados com a possibilidade de se esconder, julgou por ingenuidade que aquilo era algum bónus de alcova, cada vez mais raro... Mas, quando se abeirou, ela não se conteve e ia-lhe arranhando a cara. Limitou-se a resmungar porque os seus afectos já fantasiavam por trás dum Muro de Berlim, para outros horizontes, e ela aproveitou que estivesse de costas para cair na mais desamparada precariedade. Mas não podia demonstrar-lho. Ergueu a perna que, dentro da saia tão apertada, tinha forçosamente de levantar a outra e chutou o jornal para debaixo da cama, onde ficou até de manhã como o “homem do saco” que roubava meninos.
O Director do “Europa” andava perdido para encontrar a Si. Ela não lhe saía da cabeça. Já não se conseguia aproximar da mulher que a Si aparecia a rir-se com os olhos semicerrados volteando por um soalho encerado e balançando com a biqueira do sapato. Quando viu a mulher adormecida, amarrotada pela insónia, rebolou-se na cama mas a Si não lhe inspirava qualquer fantasia. A saia colorida, balançando sobre os joelhos, não lhe sugeria nada. A única coisa que lhe aparecia, era ela a alongar o reflexo num soalho encerado, onde cada tacão se assinalava com eco, e começar a chamá-lo, a interpelá-lo, a rir-se ou a dar-lhe ordens. A Si entrava-lhe nos pensamentos e havia algo de novo. Despertava logo, o ar clarificava-se e a luz da inteligência corria na brisa. Que aquilo era o repicar do sino para o começo de qualquer coisa, não havia dúvidas. Mas não sabia o que era. Desde que mandara publicar o artigo, uma série de pessoas tinham-se envolvido com ele - e ele com elas - sem que soubesse porquê. A sua intenção inicial era espetar uma farpa em vôo e voltar sossegadamente a casa, desfrutar a glória da sua carruagem que seguia inexorávelmente para a consagração. Mais uns passos do Presidente na cena nacional e ele teria toda a cobertura. O mínimo, para já, era uma condecoração no 10 de Junho que aí vinha. Só que, agora, via na série de pernas de mulheres descobrindo-se morenas por baixo de saias de veludo, passeando à sua volta, fazendo circuitos como nós, ensarilhando-se à volta dos pés com vozes finas de gineceu, que lhe tiravam o sono e o punham a rabear de ânsias. Tinha de admitir que sentia o bichinho da investigação a roer-lhe nos dedos, pronto a encher blocos com excitantes reportagens sobre algo que nem sabia bem. Tinha de encontrar a Si, atrever-se a convidá-la para jantar. Não esperava tornar-se um mundano mas lembrava-se da distinção dos romances do impagável Eça e conseguia, com facilidade, imaginar os passos a dar. Uma gravata mais colorida, uma ou duas graçolas, elegantes, é claro, bem tiradas, e um restaurante chique que não calhasse mal à senhora, aureolado a meia-luz.
No cocktail da Embaixada do Liechtenstein, surgiu a oportunidade esperada.
Si estava, ao fim de meia hora, completamente alcoolizada mas ainda composta, balançando sempre de um lado para o outro. Quando a revista do costume foi lá bater as chapas, cruzou os braços e fez o seu clássico sorriso largo, a toda a extensão, fixando os olhos bem na íris do fotógrafo. A legenda referir-se-lhe-ia, uns dias mais tarde, com um “conversadora animada”.
O Director do “Europa”, que fizera um esforço danado para aparecer nas fotografias, acercou-se então.
- Estás mal disposta? perguntava ele.
- Não. Estou apenas cansada - ele tentou agarrá-la e ela não se conteve.
- Não. Larga-me.
A sua ideia de carreira de escritora enlouquecia-a. Os cabelos pareciam que se levantavam da epiderme, compondo uma figura de Medusa ultrajada. O marido abateu o tórax voluntarioso, com fragor. Era o seu único protesto. Não lhe restava mais do que procurar o seu palmo de cama, recostar-se na almofada e deixar cair os óculos para a ponta do nariz, nublando o olhar sobre os pareceres que tinha em mãos. Ela só se despiu quando a escuridão era total e tinha a certeza que ele já dormia profundamente. Então, aí, enfiou a camisa de noite por cima da combinação e encostou-se à cabeceira durante muito tempo, congeminando vinganças como cavalos a correr. Como fora capaz, aquele porco, aquele bandido?! Ah, acendia outro cigarro, avivava a brasa e sonhava em queimar-lhe a íris com aquilo. Como fora capaz?! Chamar-lhe saloia, classificar o que escrevera como “guião de fotonovela para a crónica feminina”, “argumento de vídeo de baptizado”... Mas que raiva que aquilo lhe metia, que falta de tudo. Na sua mente perturbada começou-se a gerar a ideia de que a Si estava metida naquilo. Aquela maneira dela rir, da última vez que se tinham cruzado, só podia ser o gozo antecipado, não podia ser outra coisa! Porque é que ela se quedara a falar com o Director? Era todo um plano e nascera ali, de certeza.
Ah, que as ia pagar todas! Não lhe perdoaria nenhuma! Adormeceu de bruços e só acordou quando o marido se levantou agarrado à barriga, mordendo os lábios para não gritar: “Que mania essa de vires fumar para a cama!”. E ruminou com melopeias, amarfanhando os papéis contra o peito. E isso metia-lhe medo, quando aquele gigante, ajeitando os ombros de Atlas, começava em movimentos tectónicos.
O Director do “Europa”, que fizera um esforço para não aparecer nas fotografias, trajava de escuro o que , em combinação com as lentes cinzentas, lhe dava um ar sinistro. Mas, apesar de ciente do facto, o Director não desistia dos seus propósitos. Apareceu de costas, fazendo uma manobra de aproximação. Para quem o ouvisse a bater o papo, ficaria a ranger os dentes de indignação. Dizia todas as coisas com um ar muito importante, como se caminhasse para um trono, desferindo cotoveladas ao lado e olhando quem se lhe atrevesse a cortar o caminho como um ungido de descaramento.
A Si sentiu-o por trás e assustou-se. Estava bem-disposta naquele dia, os vapores do álcool pareciam-lhe leves como perfumes e liquefaziam todas as caras gretadas do Presidente do Tribunal de Estado, podre de velhice e uísque mais a sua nora que extraía seguidas, taludas de disparates.
Sobressaltou-se e cruzou os braços para colocar o nariz do prestigioso jornalista ao nível da medalhinha que cintilava do seu busto, iluminando o clássico riso largo...
- Está bom!? Que é feito de si?
Ele convidou-a, em duas penadas, para o almoço -- toma lá, dá cá.
No dia seguinte, a Si, com o rosto arruinado, tentava encontrar alguma aversão para arranjar um almoço combinado antes ou um plano para se escapar, mas não conseguia. Começou por se rir do artigo que tinha lido mas ela não era literata, não percebia nada. De repente, só lhe achou um pretexto: furiosamente, pregou os olhos nele, que se apresentava tão fogoso, fazendo os dois lábios rijos, como duas viborazinhas contorcidas, inclinando-se com fragor até meio da mesa e repuxando, tilintante, a toalha. Lembrou-se que, de dois maridos, não lhe restava nada e que, nesse capítulo, minguara a ansiedade.
É claro que aquele fulano nem se atrevia, nem perseguido com tições. Quando se distendeu para trás, avolumando os seios e olhando de esquina, com o riso tinindo para a sala toda, de modo a que todos notassem nela, o Director desorientou-se.
Prova lá se és homem, dizia ela com as carnes desconjuntadas. Tantos perdigotos e não vejo nada.
Depois de pagarem, a cena do carro é penosa de contar. Ele dava-lhe pelo ombro, ela tinha as coxas grandes descobertas até meio, com as impressões digitais dele, a vermelho, desvanecendo-se lentamente como as mãos de um náufrago pela amurada de um barco, num filme “spaghetti” de terror.
No escuro, depois de o porteiro os arrumar lá dentro, cheio de crepitações e gorjeios, entre o respeitoso e o atrevido, tentarem fazer o papel de jovens existencialistas. Era o seu cenário, confiavam as poesias de cada um e depois ela abria muito os olhos, com as mãos pousadas no ventre, à espera que ele, num relance do discurso, lhe aterrasse em cima. E ele assim fez, depois de estar uma série de tempo com o cabelo degradando-se e os ombros caídos, lutando por não se rir de excitação. Caiu-lhe em cima, ferindo-a com os óculos na cana do nariz.
A Si era maior e tinha um grande custo em se mexer mas ele estreitava-a com energia. Meteram-se num hotel, bem no escuro e ele descompôs ainda mais o cabelinho cortado, com a franja atrás, o tal dos fabulosos anos sessenta. A Si deixou-se ficar, nua, por baixo dos lençóis escassos, com os seios, como duas campânulas bem visíveis no lusco-fusco e fazia um esforço para não olhar. Já não conseguia articular o seu sorriso de um palmo, com os lábios distendidos e os olhos subitamente acesos por uma íris fendida, de gato. Tinha o penteado desfeito, como palha queimada, fazendo-lhe comichão no nariz e mal conseguia levantar as pálpebras, que mais se inflamavam quanto mais as esfregava.
O Director do “Europa” olhava-se ao espelho e via um rosto de pássaro mais ou menos em quilha. No meio, uma fenda negra abria e fechava com certa comichão de riso. Por trás dos óculos, os olhos piscavam de malandrice como se fosse desatar à gargalhada.
Pensou nos filhos e na mulher. O corpo parecia mais magro e pelado quando se atirava para a frente e corria à casa-de-banho enrodilhado no lençol. Uma luz acesa e rebentaria, de certeza, numa explosão de fúria. Só no escuro é que as coisas funcionavam.
Teve de admitir que não fazia aquilo há muito tempo mas sentou-se empolgado e justificado. Ela deu-lhe uma secura violenta e pôs-se em pé mais ou menos artisticamente enrolada no lençol. Tinha uma nuca bonita onde se enovelavam ainda uns cabelos ruivos e loiros de menina, compondo caracóis de anúncio de cosmético que mais acima se retorciam e alinhavam em chapas requeimadas a ferro de cabeleireiro. Mas o corpo, que parecia grande e macio na horizontal, estava já bem deformado e gretado na vertical. Remexeu no bar e só encontrou aguardente, o que não a deteve nem um bocadinho, apesar de espalhar em volta, um círculo considerável de rejeição olfactiva. Mas o Director do “Europa”, empolgado como estava, mais com o enredo do que com a prestação (da qual a Si, de resto, se esquecera já) passou sem torcer o nariz, pelo círculo de aguardente, e começou a florear. A Si estava que admitia tudo. À impressão de um abraço, limitou as coisas a não se ter nas pernas e a cair no colchão empunhando o copo como uma tocha. Tinha os nervos da memória bastante encarquilhados e sabia que precisava urgentemente de um aditivo para os distender. Passava constantemente os dedos pela fronte, julgando que as rugas eram disso sintoma inequívoco.
O Director também não se excitou mais. De peito nu, porque as pernas, obscuras da pelagem grossa, tinham sempre um aspecto de antropóide do Museu de História Natural, fumou um cigarro tranquilo. Olhou-a de esquina e alvoroçou-se num instante com a doença da época. Não, não podia ser, era uma senhora, etc. Há muito que não fazia aquilo. Àquela hora, a mulher, ocupada a ver a telenovela, e com rolos na cabeça, se lho contassem, nem faria caso. Talvez fizesse se ele puxasse aquelas baforadas quando fosse para a cama. De resto, era terça-feira e o que cada um fazia durante as horas de serviço era a conversa mais chata que poderiam ter, e via rápida para o divórcio, coisa que ela exigiria logo ali, puxando da escrivaninha, a procuração que só faltava assinar.
Quase ao mesmo tempo, ambos se lembraram dela e, desta vez, por uma razão engraçada, porque ambos a consideravam culpada daquela tarde sem novidade no hotel. As têmporas começaram a latejar ao Director do “Europa”, um fumo preto entupiu-lhe as vias respiratórias e subiu-lhe vomitado até ao nariz. Ela teve uma náusea que lhe chupou o sangue todo da cara deixando-a com o vago sabor a nada e lixo, dispersos no estômago.
À mesma hora, despeitada pela discussão que tivera com o marido de manhã, furiosa com o facto do Ni ter batido a porta, ela, ela mesmo, a nossa ela, razão da cumplicidade daquele par, pusera um filme de canibais na televisão e já o estava a ver pela segunda vez. Nem se levantara. As compras a fazer, a letra do quarto automóvel da família, desta vez para a Pi e o sr. Magalhães que, matinalmente alertado, se desfazia em mesuras na garagem, para a Sra. Doutora, ficaram todas no raio que as partisse. Andava em camisa de noite pela casa, fechara a porta à chave e passeava os olhos do jornal para as unhas, entre quedas verticais num sono figadal, até descobrir a caixa do filme. No meio da poltrona, pequenina e musculosa, juntando quase os joelhos ao queixo e arrancando o que lhe restara da depilação com o que lhe restara das unhas, começou a despertar. O filme mostrava cenas de canibalismo em vermelhão tomate e corpos negros bem modelados com ossinhos no nariz. Sentia uma estranha simpatia por aqueles personagens mais não fosse devido a uma cena qualquer em que uma negra de cabeça rapada e seios aquilinos começava a levantar os pés, que eram tão parecidos com os dela pela mesma planta esbranquiçada, imaculada no resto da pele morena e da poeira do chão, como se caminhasse sobre leite.
A única pessoa que conseguiu entrar na saleta da televisão foi a criada. Cada vez mais surda, como notava ela, ruminando as palavras meio cerimoniosamente, depôs-lhe aos pés a bandeja do almoço. Ela só ficou com a banana e a sopa da qual se limitou a provar, disparando ordens secas quanto ao sal, o aipo e a cenoura. A criada saiu, enrolada em si mesma, afagando o queixo redondo, maciço e escondeu-se na cozinha, enquanto a patroa se aferrolhava novamente, recolhendo outra vez ao canapé.
De repente, desligou a televisão. A Pi tinha pedido para sair com um rapaz aloirado que se passeava no descapotável do pai e recebeu um não rotundo, apesar do aspecto da mãe não lhe inspirar qualquer autoridade.
- Muana! - chamou a criada, alto. A mulher não ouviu ou fingiu que não. Foi ter com ela à cozinha pouco importada da malícia da mulher, riscando os pés nus, bem maliciosamente, no soalho da cozinha e perguntando-lhe com volúpia, como se mirasse nu, ainda de costas, o homem das suas fantasias.
- Já tiveste alguém na tua família, lá para o outro lado...- fazia um gesto esvoaçante com o braço mostrando o tufo de pêlos rijos no sovaco e desenhando a sua magreza agressiva contra a luz do dia- ... que tivesse comido alguém? - e ria-se.
A Muana respondeu - Sim senhora!
- Sim senhora, o quê!?
A criada não tinha ouvido a pergunta porque julgava simplesmente que a patroa estava a ralhar. Então ela perguntou de novo:
- Já comeste carne humana?
A Muana benzeu-se de repente e encolheu-se sem jeito nenhum por cima de um castelo de cartas feito de tachos e panelas. - Não, minha senhora! Sou católica apostólica!
Ela foi-se embora a rir e ligou outra vez a televisão que continuava a passar o filme gravado e roendo o que lhe restava da unha partida. Entretanto, a Pi saltava pela sebe, desenhando uma pose com os calções puxados sobre as pernas brancas que fez mover qualquer coisa dentro do namorado, postado na esquina. Enquanto a rapariga se libertava das pequenas folhas amarelas que se tinham preso à roupa, ele mirava-a por trás de um modo bastante carnal. A moça sentiu e virou-se: não se riu porque não estava a pensar em dar avanços. Aliás, aceitara a boleia para ver se topava outro, um jovem ajudante de camionista que costumava ir ao bar da praia dessedentar-se entre duas estivas. Olhou, mordendo os lábios, a ver se a mãe estava por perto mas notou a persiana corrida e pôs-se a dar ordens ao rapaz para que arrancassem depressa.
Entretanto, ela não se conseguia inspirar! O ninho perfumado, o cinema contínuo de sonhos e recordações em que mergulhara desde que começara a escrever, era varrido por um sopro de urgências e necessidades. Já não podia permanecer até se esgotar a vontade, deambulando em camisa de noite pela casa, parar só a seguir ao almoço para ordenar a vida dos filhos mais novos e ajoelhar-se depois no braço da poltrona do marido, narrando-lhe alto as páginas mais brilhantes. O fofo daqueles momentos era que ele, abrindo os olhos grandes e pestanudos, fazia uma boca carnuda e enlevava-se com quase tudo o que ela recitava. Estavam, de facto, a chegar ao momento ideal da sua vida, ele, com mais ou menos sorte, mas sempre prestigiado na política, balançando dentro dos seus fatos britânicos como se fosse uma obra de arte, ela sempre linda e elegante desbravando gloriosamente caminho, nas Letras nacionais.
André de Melo
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António Godinho Gil
à(s)
14:29
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Crónica MST
Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis.. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:
- É sempre assim, esta auto-estrada?
- Assim, como?
- Deserta, magnífica, sem trânsito?
- É, é sempre assim.
- Todos os dias?
- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.
- E têm mais auto-estradas destas?
- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me.
- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?
- Porque assim não pagam portagem.
- E porque são quase todos espanhóis?
- Vêm trazer-nos comida.
- Mas vocês não têm agricultura?
- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.
- Mas para os espanhóis é?
- Pelos vistos...
Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
- Mas porque não investem antes no comboio?
- Investimos, mas não resultou.
- Não resultou, como?
- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.
- Mas porquê?
- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não 'pendula'; e, quando 'pendula', enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de 'modernidade' foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.
- E gastaram nisso uma fortuna?
- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos...
- Estás a brincar comigo!
- Não, estou a falar a sério!
- E o que fizeram a esses incompetentes?
- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa... e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.
- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?
- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.
Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?
- Isso mesmo.
- E como entra em Lisboa?
- Por uma nova ponte que vão fazer.
- Uma ponte ferroviária?
- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.
- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
- Pois é.
- E, então?
- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.
Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta...
- Não, não vai ter.
- Não vai? Então, vai ser uma ruína!
- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo - porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.
- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!
- E vocês não despedem o Governo?
- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo...
- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?
- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.
- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?
- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.
Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:
- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.
- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?
- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
- Não me pareceu nada...
- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000.. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.
- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?
- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.
- E tu acreditas nisso?
- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?
- Um lago enorme! Extraordinário!
- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
- Ena! Deve produzir energia para meio país!
- Praticamente zero.
- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar - ou nem isso?
- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.
- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?
- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.
Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.
Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:
- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!
"Esta noite sonhei com Mário Lino", por Miguel Sousa Tavares, no jornal “Expresso”
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António Godinho Gil
à(s)
19:52
A Aversão (3ª parte)
III
A Si tinha ficado a falar com o Director do “Europa”. Este deixara-se enterrar numa poltrona com os joelhos completamente juntos e os pés cada vez mais afastados.
De vez em quando punha as mãos entre as pernas e olhava para a sala semi-vazia, um pouco desolado. A contracção em que vivia - o prestígio também, é certo - como Director do órgão oficioso do Estado (o que era diferente de Governo), a religião do colarinho branco e dos fatos muito respeitáveis em que tinha sempre vivido, deixavam-no, por vezes, de rastos. O pior era quando antecipava os pequenos gestos de contracção próprios da intimidade e lhes começava a soçobrar ainda em público. Fazia uma triste figura, ele, que enganara tanta gente com o seu queixo sem pescoço sempre apoiado num firme colarinho engomado e as meias pretas longas compradas em sítios que se segredavam como os fornecedores de droga ou de charutos havanos de imitação. Tinha a roupa toda engelhada à volta das pernas, contraídas num frémito de aflição e o casaco pendurado no palmo de ombros como a sobrecasaca do grilo dos desenhos animados. Ficara um bocado como o marido da Mi, o negociante francês (estão a lembrar-se, certamente) mas não era já um mergulho de cabeça na depressão porque toda a figura estava patinada de claro e dava um certo ar primaveril. Era antes um murro no estômago do ânimo, o que condizia, aliás, com a sua posição, curvado, de cotovelos no umbigo. Ficaram juntos, ele e a Si, por algum meneio que esta deu ao corpo grande onde já adornava um sortido razoável de hospitalidades.
Sem saberem bem porquê, começaram a falar dela. Descobriram que estavam a conversar sobre a mesma pessoa, por via do marido.
- Eu acho que o sr. Professor - ele dizia “o senhor” com um ar de grande diligência democrática, como quem julga que o indivíduo é o tribunal do universo à maneira Kantiana e fora disso só bruxuleiam radicais descabelados ou multidões de chinesinhos descartáveis por campos de arroz, como fertilizante. “O Sr. Professor”- condescendia - “é uma pessoa de grande educação, de fino trato.”
A Si, que tinha perdido dois maridos, um por ter ficado fino demais durante uma semana e outro pelo trato que lhe deu um sócio, ia desatar a rir-lhe na cara mas sentiu que ele não ficaria pelos elogios. Pousou o queixo nas costas da mão em atitude pensativa e disse com os olhos: “Anda lá! Diz lá mal que é onde queremos chegar.”
- O Sr. Professor é sempre uma pessoa de grande educação mas a Dona... - referia-se agora a ela - parece sempre tão...tão...inquieta com todos..!
A Si também se riu. Só um pobre democrata como este, educado como manga-de-alpaca a vida toda até ser elevado a Director de jornal, era capaz de dizer coisas destas. “Com todos”. “Mas quem são todos?”, ria-se ela. São sempre alguns os que são alguma coisa. Aí, decidiu explorar. Estiveram ambos durante muito tempo a dizer mal dela. Parecia o discurso de Marco António no “Júlio César” de Shakespeare.
- Os filhos são todos maravilhosos...
- Sim. Mas parece que troca os filhos por tudo o que é mundano.
(A Si ria-se com o “mundano” que, para ele, deviam ser aproximadamente as tainas para funcionários públicos na Presidência da República a que ele agora devia ir com frequência e ela, se estivesse ali, Ah!, pararia um momento para os esbofetear a ambos porque nunca pusera em causa o seu papel de mãe trocando-a pela vida social, da qual era, aliás, complemento e continuação.)
- Pois, pois... - dizia a Si retendo-se um pouco a seguir, terçando armas contra ela já de um modo igualitário, de coração aberto, jorrando com sabor algumas histórias da arrogância e perfídia dissimulada.
Saíram dali os dois muitos ofendidos e solidários, ela puxando-o pela gola e repondo-lhe a cara, com a pele deformada, à força de tantos anos escanhoada, em cima do colarinho, ele dizendo-lhe uns “Minha Senhora” com tanto “frou-frou” que parecia senso comum, aquilo que os homens dos jornais têm de admitir, mesmo se for um massacre.
De repente ele pôs-se quase em bicos-de-pés e a Si já não achou tanta graça. Ele saltou, como um homem engelhado pode fazer e disse mesmo que a democracia deve rilhar certas ervas daninhas. Disse-o como uma figura de escritório que está farta da sua cinzentura e começa aos tiros dentro de um bar. A Si sentiu medo porque, com os dois maridos a menos e a celulite, com o álcool e as pequenas raivas, não deixava de ter tido uma infância feliz e assombrava ainda uma quinta em Sintra, o seu refúgio, onde se ia esquecendo por trás da hera guedelhuda, de pagar as contas de electricidade e as do Pesadelo humano. Aquele funcionariozinho público já caminhava noutro sentido, ou pinchava como uma bola. Tinha dentro de si toda a sanha dos perucas da Revolução francesa ocupados em cortar a cabeça a todos aqueles que, por dentro, indiciassem rir-se-lhes na cara, mesmo com a cabeça no cesto. Despediu-se com secura mas o Director do “Europa” caminhou perfeitamente dentro de si (que não dentro dela, como certamente, desejaria...) nada importado com o que acalentava, tomado por uma alucinação Pessoana, Avenida da Liberdade abaixo, os óculos como dois aquários submersos nos setes mares, com naus em contingência no Mar amarelo.
O Director do “Europa” trocara a vida pela normalidade. Mas esqueça-se o carácter valorativo desta afirmação. Na cerimónia de entrega de prémios aos caricaturistas, tinham estado todas as novas colunas e capitéis das Instituições. Sempre nos seus fatos cinzentos, as abas compridas como chapas de metal e as bandas ligeiras sobre uns ombros que já não eram magros mas flácidos (quando não eram inchados até estalarem das costuras). Ele não reparou nisto porque tudo aquilo, o ar de cerimónia e a voz colocada bem no fundo da barriga, eram uma vibração, um bate-papo que se comunicava já de antes. Estavam lá todos. Enumerá-los era uma viagem pela galeria das novas flores de metal que desabrochavam na pirâmide social, ou na Torre de Babel, construída da base para o topo, mas ao contrário. Era aquele moço brilhante que dirigia agora o Instituto de Promoção Cooperativa, aquela jovem mãe e mãe todos os anos (quando o marido vinha de Bruxelas, para férias), ainda de pernas bem torneadas, que dirigia o Gabinete de Gestão, eram os dois secretários de Estado dos três ramos, o Ministro fizera-se representar pelo Chefe de Gabinete. Depois havia jornalistas, alguns repórteres novos e cabeludos em quem o Director descobria muitas vezes garra, ambição e, como isso não bastava, aquele brilho conivente de quem sentia como ele, ou seja, que era preciso gozar o que havia de melhor na vida e segurá-lo com determinação. Firmeza e contumácia. Obstinácia. Pancrácia... ( a criada aproximou-se com a bandeja, cansada de dizer que era ucraniana e Anastácia).
Disse algumas palavras: “ Sempre que os acolho nesta vossa casa...” Depois de as professar, quando a festa deixara uns papéis de bolinhos e maços de cigarros vazios no chão, o Director de “Europa”, sozinho no seu gabinete, arena menor para onde chamara os jovens touros do futuro jornalístico ( sempre tão novos, com o peito firme cheio de pêlos, mãos largas que deviam fascinar as jovens de lábio cintilante e vestido de anaconda) proferia também umas breves palavras sobre ele próprio. Dizia que aquilo era um bastião da Liberdade de Expressão que resistira quer à Ditadura quer ao Gonçalvismo ( esquecia-se é que aquilo fora um bastião sim dos fundos perdidos do Estado e dos homens da manga branca e fato cinzento de risquinha verde, mais tarde, inspeccionando as contas com olhos vagos).
Preferia ficar ali, estava melhor que na sua casa, que era tão pequena. Não conseguira arranjar uma casa maior mas guindara-se a figura pública sempre chamado para as recepções da presidência da República e, coitado, apoiava-se a si mesmo, até tivera que comprar uma casaca para fazer uma figura digna com essas dificuldades que um jovem enjeitaria como hipocrisias e um rico desdenhava, incapaz de compreender a nova república de cidadãos europeus. Era um homem da maioria, não daquela que precisamente governasse mas de qualquer maioria, da gente sem importância, de homem da rua da sua cidade que prezava a segurança e aspirava ao respeito e promoção social a que tinha direito.
O pior era que, naquela entrega de prémios, tinha de novo que convidá-la a ela, o que aconteceu. Quando chegou a altura, cumprimentou-a à entrada com o medo das máquinas fotográficas marotas que captam as nossas expressões mais contraídas, os malares duros como punhos cerrados, os olhos esbugalhados, os planos sem relevo onde o nosso nariz aparece entalado num lado qualquer ou um dedo, desembainhado em riste, um argumento, parece empurrar pelo flanco alguém que flutua em estado de graça. Por isso, pela traição da fotografia, o Director do “Europa” cumprimentou-a muito depressa, quase atrapalhado, o que ela levou a mal. Uma rainha diz coisas muito britânicas como “ que falta de gosto chover!” ou recebe a notícia da morte de alguém torcendo o nariz com um “ que aborrecimento!”
Depois, ficou a ver a entrega dos galardoados aos galardões. Desde há uns tempos que se lhe debatia na cara, um riso teimoso. Parecia um daqueles famintos em que a pele da boca, puxada sobre os ossos, desenha uma ligeira concavidade. Depois, os olhos deitados para fora iluminam ainda mais esse riso mortal. Quando o primeiro premiado foi receber o pequeno embrulho, ela também o foi cumprimentar.
Passou em frente ao Director com a sua saia ligeiramente travada, sacudindo as extensões interiores do corpo e balançando. O Director dispunha as pessoas em cada lado, como se abrisse os dois braços para abraçar, a partir do centro, um semi-círculo. Mas, na fotografia, ficaria como um cantador de rancho folclórico, esgueirando-se pequenino entre o muro dos instrumentistas.
E ela, quando foi cumprimentar o galardoado, agarrado ao galardão, ia com aquele ar de menina de colégio que se polvilha pelo melhor aluno da turma, apaixonando-se primeiro e jurando lá por dentro dar afinal uma facada nas costas àquele que a ofuscou e que destronará, um dia.
O Director do “Europa” ia vendo assim, nela, alguém que frequentava constantemente os sítios onde ela passara a ir. Como muitas vezes, em Lisboa, mas sem que tal fizesse dos lisboetas homens frouxos ou cinzentos, incapazes de uma determinação afiada de siciliano, alguém parecia estar sempre atrás de alguém, como uma causa e uma consequência. O cheiro dos outros punha-nos o pêlo no ar. A peugada sucessiva erguia dentro de nós os instintos mais mirabolantes. Quando se tratava de uma mulher, uma ida aos fados e uma devoção sem limites dava excelentes resultados. Excelentes! Quando não, um rebolozinho entre os lençóis, disse de si para si (talvez a Si se tivesse instalado dentro da sua cabeça e travasse lá dentro monólogos ruidosos) mostrando à penumbra os dentes amarelos que, se calhar, elucidavam a quase ausência de sorriso.
Mas - anotava ela, mentalmente - esta mulher não lhe sugeria nada disso. Havia uma justificação republicana, igualitária, que lhe afagava o peito quando puxasse uma guilhotina imaginária sobre a cabeça dela, sacudindo depois o pó da casaca, exibida com inelutável rigor, à plateia. Ele não sabia o que era, mas vencia de longe qualquer atracção pela carne, qualquer olhar deslizante atrevido pela coxa morena até à roupa interior de seda, esticada sobre a anca, para ser puxada por dentes ferozes. Nada disso o acometia, sobretudo quando ela, sentindo-se considerada por trás em proeminência, nas extensões firmes dos veludos, os interiores e os exteriores, se contraía com um sorriso forçado.
O galardoado era outro parvo, pensava o Director do “Europa”. Mas não podia demorar-se muito tempo nele, balouçando nas pernas flexíveis, abanando o fato de tecido fresco como se ainda tivesse um corpo juvenil e passando-lhe com a sombra bem por cima, a ele, o Director, mestre de cerimónias mas atarracado no prazer de se rebolar pela compota social. Pela sua parte fixava-se apenas nela, na maneira como, não sendo a premiada, mostrava aos outros a sua magnanimidade e bondade ao acorrer à festa de consagração de alguém que depressa tombaria na valeta da sua marcha triunfal. Sim, ela tinha ideias definitivas sobre Arte e, mais do que isso, uma sensibilidade que faria escola, daria lições e luziria para exemplo de muita gente, em anos sem conta.
É claro que, nisto, o Director pouco via, fascinado que estava com a fúria lenta que aquela mulher lhe atiçava por “simpatia”.
Ao fim do dia, com a vaga luminosidade azul que se difundia da frontaria do prédio sobre o poço escuro da avenida da Liberdade, ia gerindo estas sucessivas contracções do fígado. O corpo mirrava na cadeira, o ar condicionado abanava de vez em quando umas beatas da alcatifa. Estes momentos existenciais na vida de um jornalista eram os balancetes de verdadeiras jornadas literárias que lhe estavam ali, no sangue, prontas a desdobrarem-se para fora e fazerem escola. Quando se meteu no carro, cá em baixo, não sem antes perguntar, importante, à mulher, se lhe tinha gravado o telejornal no vídeo, atravessou a rua, alisando o casaco compulsivamente. Tinha um ar de jacobino de Verão, com a boca pequenina, prestes a desfiar as peremptórias ordenações a quem se atrevesse a abordá-lo. Ia sempre compondo o casaco, quase abrindo e fechando o botão de baixo como quem entra num baptizado ou se acerca do Presidente da República.
Felizmente que nenhum travesti ou rapariga da vida, essas que ele olhava de soslaio e que já o conheciam como as animações de luz e de sombra das esquinas, o abordaram. Por isso, pôde ligar a ignição com o nariz levantado e as bochechas em apresentar-arma, não fosse alguém, ainda assim, entalado que estava no fundo do banco como a marca de um livro entreaberto, pedir-lhe um cigarro e depois a carteira, ou atirar-lhe a beata à cara escanhoada e desconjuntar-lhe os óculos, abanando-lhe o colarinho sempre tão firme no nó da gravata.
Aliás, era tempo para se orgulhar da gravata. Além de utilizar sempre padrões muito discretos, não embarcara nessa moda das gravatas largas cheias de arabescos como pano de cortina. Fazia sempre um nó firme e apertado como um verdadeiro diadema. Um dia, uma mocetona da rua perguntou-lhe até se ele, em vez do diadema, não queria outra coisa...Até nesses pequenos pormenores encontrava ocasião para se congratular, para ver com algum ócio que era um homem especial, instalado no carro da história e da política do país, um homem a não negligenciar, que o Presidente da República não deixava de fixar cuidadosamente quando lhe estreitava a mão. Revia mentalmente a troca de gorjeios que então “tinha lugar”: “ Sr. Doutor”. E ele: “ Sr. Doutor”. Mas não era um “ Sr. doutor” qualquer. Ah, era um “ Sr. Doutor” cheio de familiaridade, apesar das exigências protocolares.
Durante o percurso, achou perfeita a cidade, tanto os novos trajectos como as largas faixas brancas luminosamente pintadas no asfalto. Sentiu que a cidade mudara e quando meteu um prego com a mudança, coisa que antigamente era capaz de o pôr fora de si, destapando um sargento furibundo, desta vez nem lhe tocou. Fez a censura e deu o perdão, ajoelhou-se e pôs-se de pé, pelos próprios braços. Ao seu lado... não, dentro de si, um outro eu olhava as coisas com mais tolerância e optimismo. E, dentro de si, ou da Si, era um paraíso, agora ao alcance…ah, que vida maravilhozaahhh... a Democracia! Era um doce e justo prémio para uma pessoa honesta e sempre cuidadosa com o seu aspecto, este bem-estar e até este humor com que a vida o presenteava, ainda nem todos os cabelos branqueando. Bradava ao vento uma mistura de socialismo e cristianismo neste modo como o seu espírito e o seu carro deslizavam pelas voltas da cidade, uma gratidão e uma identificação com Lisboa. Se o pneu furasse, se algum homem da bomba de gasolina lhe deitasse a mão, se um guarda providencial se interpusesse entre ele e o marginal inesperado, certamente que teria o poder de os guindar à celebridade com um mero despacho ( sim, porque ele despachava como se estalasse os dedos e como se a caneta, rodopiando, inscrevesse intuitivamente a sua rubrica). Era este homem sério, com a seriedade de um Ministro, que detivera o poder da normalização à frente do jornal mais lido em Lisboa e Além-Mar, quem equilibrara uma situação financeira capaz de deixar à beira da agonia numerosas famílias. Perante ele, quando tocava levemente no nó da gravata sempre firme, esses jovens jornalistas com ganas de repórteres do Amazonas e cabeleiras hirsutas faziam a voz fininha e analisavam-se em requebros verbais.
A democracia era isto, dizia de si para si, ao entrar numa bifurcação: o prazer de travar ligeiramente, balançar a cabeça de um lado para o outro, ajustada dentro do seu tipo de óculos meio escuros que nunca deixara de usar, nem à noite, a boca sempre contraída com um ar sério e digno, “ co-respeitador”, como costumava dizer, dos direitos dos cidadãos. A democracia era isto, agora que metia um prego em terceira num carro de modelo europeu, com mais instrumentos no painel que o anterior e ela entrava perfeitamente, imprimindo um ruído aspro mas civilizado e colocando-o com toda a segurança no ramalhete de luzes, trocando de posição e orbitando na constelação do “ co-respeito”. Era também, a cada “gesto’ do olhar... poder abranger distâncias maiores... não tardaria o carro supersónico europeu, eivado de luzes como estrelas, perfeito tanto no rendimento como nas estatísticas de segurança.
Ia para casa sentado na almofada do bem-estar mas sempre desperto, com a imaginação viva, a inteligência desembaraçada e o bom gosto ao alto. Não havia palavras que o exprimissem e podia dar largas à sua vontade de brincar porque há quarenta anos que não brincava e, quando pensava em sorrir, doía-lhe o nariz.
No fim do caminho, a chegar, um pensamento bateu-lhe no peito como um pedra. Tudo isto era muito bonito, dizia de si para si, mas a mulher do Sr. Professor deitava-o abaixo com as suas petulâncias, os seus risos sustidos! Havia nela uma liberdade que crescia calmamente ao lado como um oceano vermelho (ela tinha a mania de se vestir de veludo carmim ou castanho com uma forte mistura de vermelhão) e avantajava-se à sua frente. Não que o surpreendessem estes novos desafios que cresciam em torno e para o seu desafogo democrático. Já experimentara um título ou um rótulo que resumissem o seu novo bem-estar (é certo que não lhe desagradaria ter uma piscina, em vez de quarenta vizinhos rabiando em alvéolos, todos uns por cima dos outros, mas tinha uma piscina que era Portugal com os seus acontecimentos, as suas novidades, a mudança de cor das suas disposições entre as quais ele se movia com tanta comodidade).
Tentara arranjar uma palavra. A simples ideia de um título nobiliárquico fazia-lhe embargar sonoramente o silêncio, como se lhe tivessem dito uma garotada. Não precisava disso para nada. Ah, dizia sufocando. Até achava ridículo.
Cidadão! A palavra cidadão também não o entusiasmava... Lembrava-lhe os radicalismos sanguinolentos da Revolução francesa. Homem! Era uma palavra bem vinda pela porta da Igreja mas algo mais subtil protestava no seu peito, exigindo honrarias. Não achava a palavra mas despeitava tudo o que lhe não acomodasse a suavidade, providenciando a tranquilidade do ar. Nem ar calmo, uma bela refeição familiar e a glória das letras jornalísticas (por exemplo uma sentida homenagem ou umas breves palavras de admiração) era a base segura de uma felicidade prometida.
Mas pessoas como a mulher do Professor, como ela, transtornavam tudo em volta, abanavam as árvores, faziam piruetas, agitavam-se de tal modo que era um atentado ao respeito pelos outros, ao tal “co-respeito” de que já tínhamos falado.
Ora ele não era de se ficar. No meio desta animosidade sentia que o cheiro da Si lhe agradava, apesar dos silêncios de dentadura exposta e dos cruzares de braços acompanhados da repetição das suas próprias palavras com que exibia ostensivamente e algum cinismo, o esforço por se manter na sua linguagem mais sincera. Lá está! Não gostava da falta de franqueza da Si (já a tratava por tu) ele que era um homem de peito aberto, capaz de dizer o que tinha a dizer... Bom! Pelo menos a Si podia reduzir-se à sua própria fracção. Tinham denominador comum. Não lhe importavam sequer as suas ancas volumosas, isso era coisa que nem lhe ocorria. Sempre que pensava nela, vinha-lhe à memória a primeira ida ao talho com a mãe e a criada, os braços do Sr. Silva cheios de dedadas de sangue, o machado e o cadafalso de madeira em que as costeletas de porco estiolavam.
Ora aqui estava um bom momento para deixar o assunto. Ia entrar em casa, tarde, guardara o hábito de não comer à noite desde os tempos de penúria em que começaram a escrever artigos de colarinho muito engomado, com vivas ao rigor e à coerência, à palavra dada e ao dever a cumprir.
Ia sentar-se na sua poltrona rodeado de colecções de números recentes de Financial Times e do Herald Tribune, todos esses pequenos prazeres a que um jornalista de elite, como ele era, se entregava, cachimbo tépido na mão. O problema foi que viu uma mulher parecidíssima com ela, a passar-lhe ao lado, ao volante de um arrogante carro desportivo. Não, não podia ser, ali, no seu bairro! Sobressaltou-se, o peito ficou aberto como uma arcada demasiado larga sob o edifício que sustinha e o coração desprendeu-se do eixo, como um pássaro às turras cegas pelo teto. Ah! Não podia ser! Odiou-se durante longo tempo por ter ficado naquele estado, ele, um jornalista de prestígio. (continua)
André de Melo
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António Godinho Gil
à(s)
16:11
terça-feira, 30 de junho de 2009
A Aversão (2ª parte)
II
A meio da manhã, foi fazer compras. Atravessou o jardim até à garagem pela trilha de pedras, como se caminhasse já pela rua central de Cascais. Olhou de relance o jardim e viu a piscina onde o filtro mergulhava como um animal pré-histórico a beber. Achou que assim estava bem, deixava a casa numa perfeita tranquilidade ( “pax tranquilla libertas est” já dizia o Cícero). Sentiu-se agradecida a Deus por viver naquele sossego, longe da brutalidade de Lisboa. No entanto, quando punha o carro a trabalhar, subiu-lhe uma comoção profunda pela cana do nariz e desaguou num pranto inexorável. Baixou a cabeça de modo a que o chapéu de aba larga lhe ocultasse a cara e... chorou mesmo. “Meu Deus! Como é possível!?”, bramiu, enquanto desferia os punhos no volante. Sentir-se observada daquela maneira, esquadrinhavam-na a cada canto da sua vida íntima, a perseguiam-na a cada segundo!”. Será que a inveja pairava no ar, era o anjo da Morte dos primogénitos, depois das pragas da brutalidade e da falta de educação generalizadas?! Porque é que a perseguiam daquele modo quando escrevia? Sentia os dentes de predadores rangendo nas obscuridades daquela Lisboa de falhados, sentia o catarro de aves absurdas preparando-se para romperem o silêncio, à gargalhada. Tinha a alucinação de que passava numa floresta de espinhos em camisa de noite e uma das fímbrias prendia-se, ela não conseguia libertá-la, ficava nua e esfarrapada à vista das árvores ululantes ( devia andar a ver demasiados vídeos...).
Meu Deus! Tinha de se dominar! Era uma mulher dura! E fria! Não podia deixar-se vencer por estes pânicos sem razão. À noite, isso implicaria no relacionamento conjugal. E começaria logo ao fim da tarde, quando o marido chegasse. Tinham assinado com os olhos um pacto tácito para não jogarem os temores que traziam da rua, na mesa de jantar. Antes de se sentarem à mesa tinham de estar completamente libertados dos pesos do exterior. Se o jantar tardasse, iriam dar uma volta, ao jardim ou às traseiras. Os ligeiros atrasos, por ordens desencontradas e terrores de polémica, tinham valido uma úlcera à Muana. Nem fora preciso falar para que se convencionasse assim. Cerrou os punhos e levantou os joelhos, dominando o próprio exaspero. Ah, Meu Deus! Como sentiu saudades da ordem antiga, dos velhos casarões onde refulgia sabiamente o cristal antigo, onde até a luz das pratas se amassava sob a demão lenta do tempo. As mulheres de outrora, caminhando de sala para sala, reflectindo nas contas da casa, sempre de olhos nos filhos, sabendo em silêncio, não cada passo que davam, mas cada estado de alma, actualizando sempre as tendências que tinham experimentado, ainda ao peito, nos primeiros gestos ou sorrisos.
Ao entrar na loja do costume, deu-se conta que tinha de ir a uma festa. Encarou com calma todas as providências a tomar. O que ia levar, o encontro com o marido em plena sala, ele já de copo na mão... era aliás incomparavelmente elegante acercar-se dele assim, falar-lhe de um modo que espalhava sensação em torno! Ah!... e o som dos fotógrafos a disparar os “flashes” ( mesmo quando era uma máquina registadora a trabalhar...).
Mais nada lhe ocupou a cabeça até ao fim da tarde. Tinha uma lista de coisas para a casa: condimentos, um tempero francês, bolinhos de sândalo, um creme de dia e outro de noite para a Pi, um boné a dizer “Eu amo Nova Iorque” para o Ni, um eliminador de odores para tabaco e um saquinho de alfazema que já não se encontrava em lado nenhum porque já não se fabricavam (sinceramente!!!).
Deixou tudo nas mãos da criada, incumbindo-a laconicamente de ter aquilo tudo à noite. Era para isso que serviam as criadas, afinal. Quando se afastou para ir ver se o fato saia-e-casaco cinzento servia para a recepção, não deu conta que a criada, abúlica, olhava a lista de pernas para o ar.
Ao chegar ao pé do Continental ia tendo uma depressão. Depois de andar meia hora ou mais à procura de lugar, descobriu que o porteiro lha fazia sinais. Era um rapaz todo bem posto, músculos proeminentes sob a farda óbvia tipo Disneilândia, de olhos azuis com aquela “faísca” militar que, infelizmente, o marido nunca patenteara. Todo solícito, esperou que abrisse o vidro (os carros atrás apitavam, contraía-se-lhe o fígado imaginando íris sequiosas nos olhos cegos do pára-brisas) e gaguejou: “Se a senhora quiser, deixe-me a chave, que eu procuro lugar. A senhora vem para a recepção da “Fama”, não é?”
Ela sorriu esfuziante e deu-lhe logo a chave. Apressou-se a dar-lhe também umas indicações sobre a embraiagem que não estava a funcionar bem, o que daria uma conversa de garagem ou de telenovela picante tipo “A senhora e o mecânico” que o rapaz cortou logo para canto, fungando brasas e estalando os dedos. Depois, saiu apressada, meneando os joelhos e mordendo os lábios, visto que pisava o território selvagem de Lisboa.
Uma comodidade extemporânea relaxou-a. “Como era boa ideia porem aquele rapaz à procura de lugar!” Certos hábitos antigos renasciam dos escombros e isso dava-lhe espontaneamente uma das sensações que mais procurava: a da longevidade das instituições, no topo das quais os gestos eram todos cheios de flores e de nobreza (mas também uma sanha de gato só de pensar que lhe queriam roubar esse mundo!). Bom, inquietações à parte, tinha a certeza que ia encontrar um ambiente a condizer consigo, lá em cima.
Ao subir, encontrou a Mi, a mulher daquele negociante francês que brilhava em todos os salões, quase sempre sem o marido. Deram três beijinhos supinos, com uma animação que teria suscitado as imprecações dos antigos carrejões e os “ahh!” dos viciados no olhar, mais conhecidos noutros meios por voyeurs (ou “espreitas”). Mas agora, a cidade era um campo de asfalto eriçado de gafanhotos com três olhos e um pavimento móvel de lata, platinados e berros que semeavam o deserto nos espaços. Cirandando entre os carros, já não havia carrejões, nem “espreitas” tropeçando dramaticamente das falésias mas miúdos bem vestidos acercando-se com um ar alucinado e dizendo que precisavam de certo montante para uma agulha, a reverter oportunamente, já.
O musculoso porteiro estacionara o carro em dois palmos de passeio, um pneu no ar, bloqueando dois já estacionados. Saía compondo as abas do uniforme e inspeccionando a rua sem medo, apenas com consideração. O guarda do banco acenou-lhe e o porteiro esvaziou o peito devagar ostentando o mesmo ar satisfeito, de riso latente e olhos brilhantes com que ia abrindo e fechando as facilidades daquele perímetro e o direito de olhar para o céu, a única coisa clara ali à vista desarmada. Tinha momentos em que não fazia nada e, assim, à beira-mar, com uma rotina de aventuras não só futebolísticas e uma mulher prometida desde a infância, já ninguém o tiraria dali, a não ser a reforma.
Isto tudo se via de longe, enquanto a Mi a empurrava pelas escadas acima. À entrada, tinham sido apanhados pelo fotógrafo da revista mundana do costume. Ela fez para a lente um ar bem estudado enquanto a Mi se compunha subitamente numa posição de descanso, de quieta serenidade, puxando um cilindro de ar divino da cabeça até aos pés. A gesticulação de colégio, entre ambas, ficaria fixada para a posteridade, por graça de uma disposição instantânea treinada várias vezes naquelas mulheres que atravessavam o passeio, uma sorrindo como quem a mirasse de olhar pandos, outra enfrentando o auditório dos súbditos que nela cobravam, narinas frementes e olhos esbugalhados, a essência do esplêndido. Via-se dois dedos do joelho moreno esticando a saia. Podia-se imaginar o corpo enxuto, fulminante e já se adivinhava a boca sedenta, de lábios recolhidos para dentro, que se esticariam, com o tempo, até ao esgar, quando a embirração espremesse o seu quinhão de lágrimas. Por agora, os pingentes razoáveis e as pulseiras que as miúdas usavam, a alternância entre o castanho da pele e a brancura da camisa, davam-lhe um ar muito desportivo, de rainha egípcia em saiote. Mas já algo nela era corcunda e sequioso, já algo nela era usado e vendilhão como quem toma o embaraço do comprador por um sacrilégio. Era engraçado, diria um observador, como a boca entreaberta nela, a mistura de impressão e rejeição em toda a figura, se tornariam com o tempo numa espécie de quilha, remoendo as palavras. Os seus últimos gestos de velha seriam de certeza, já sem dentes, abrir e fechar a boca muda, como um papagaio atónito, de penas eriçadas e arrancar em terceira...
Depois, apareceu um homem. Era o negociante francês que, afinal, desta vez, vinha acompanhar a mulher. A sua figura, a cada passo, não descompunha o vinco das calças, e era como uma queda vertical na depressão. Ao cabo dela, com os cabelos já encanecidos, um balão branco com duas azeitonas pretas e um rabisco ofendido, torciam-se até às lágrimas.
Ao invés, a entrada de ambas, era fenomenal. Já tinha passado o tempo dos braços no ar e dos enlaces sonoros. Já ficavam mal as gargalhadas e os gritos histéricos de estapafúrdia. Agora todos se deparavam num engelhamento cúmplice porque permitia que cada palavra fosse um gesto de solidariedade. A “solidariedade”, agora, estava na moda. E as reportagens também. Havia aventureiros de corredor de repartição pública com o copo na mão, mesmo atrás, escondidos por umas braças respeitáveis de “tweed”. Além disso, estas recepções de fim-de-tarde ainda não tinham chegado à intimidade, estavam naquele passo em que a pele se revoltava contra a frieza da mármore, se arranhava nas colunas de betão e as Instituições Públicas não eram ainda nossas, as mucosas dos lábios não se tinham habituado a gostar de sal e os tornozelos a serem furados pelas esquinas de aço das secretárias pós-modernas. Havia muitas escorregadelas e sequências de acidentes estúpidos. Por isso, todos caminhavam com cuidado, porque a superstição uivava...
O clamor da recepção já fazia recear quem viesse ainda a meio das escadas. E a quem chega, os olhos fixam-se com calma, mas com nitidez. Há um vislumbre súbito de que são todos uns “fôfos”. Nada mais falso, sabia ela. Tirou o chapéu e deixou-o nas mãos dum indivíduo carrancudo que se esforçava por não parecer criado, correndo para o bengaleiro e correndo mais depressa a aninhar-se noutro sítio, onde escondia os manuais da Universidade.
Em breve, a Mi se despedia. Quanto a ela não lhe faltava com quem conversar. Acercou-se logo do Director do “Europa”, um acossado, e, mirando-lhe subtilmente os sapatos, articulou-lhe uma piada só para ele, acerca da Integração na Euroupa. Ele inclinou-se, é claro, pois não era dos que passasse à vénia por ironia depois de ter tentado alguma coisa.
Antes pelo contrário, era dos que se curvava logo, por precaução, fendendo o peito com a mão desocupada do cumprimento e deixando a voz estalar como colheradas de geleia. Com aquilo, dizia: “Minha senhora, como eu sou humilde curvo-me à senhora, queira desculpar não saber se a estou a cumprimentar como deve ser mas eu sou uma pessoa muito humilde” e, ao repetir aqueles despojamentos até ele próprio estranhar, sabia ela muito bem que era para a isolar e segregar aparatosamente. Mas ela insistia, simulava uma conversa e virava-lhe as costas à primeira oportunidade com um sorriso de rainha cumprimentando laboriosamente o povoléu. Depois de proceder a isto, que considerava as suas desfeitas, era capaz de se sentar num canapé, ou no que houvesse, e mostrar aquilo que considerava o seu fabuloso joelho ebúrneo, como talvez as costas da Maria Eduarda a estrear um salão d’ “Os Maias” e também de acordo com um soneto descabelado dum colega universitário que não seguiu as Letras. Aí, a cabeça desfiava-lhe pensamentos aparentemente importantes, cabalas que ela julgava ser ciência e cultura só porque alguém a impressionou sobre o assunto, fumando cachimbo, numa poltrona de couro. Era o momento das genealogias que alguém lhe fizera, como quem faz uma carta astrológica cheia de bons augúrios (ou agoiros). Todos os dias lhe descobriam mais um primo ilustre e, como nenhum problema se lhe punha, quando cruzava a perna e ajeitava as mãos, já tinha chegado à conclusão segura de que não era uma pessoa qualquer . Por conseguinte, quanto mais aprofundava, mais pressuposto “bom sangue” entretecia nos ramos da sua árvore.
O Director do “Europa” corria de um lado para o outro. E ela observava-o. Não via que ele se desgraçava a cada momento, agora já com os óculos escuros e o cabelo ligeiramente crescido atrás, tomando a posição do adolescente a qualquer personagem professoral e rabiando para que aquilo acabasse, deixando-o ir embora. Não via como ele, depois das gravatas institucionais e dos consensos geométricos que tinham levado a Revolução para a câmara de gás dizendo que era um duche, caía agora na segunda adolescência, apaixonando-se a cada “cocktail”, dando de barato a sua firme moral socialista-e-cristã e tremendo todo, já de um modo estranho, frente a um jovem de busto largo. Mas este era um mundo impiedoso, que ela nem via, disposta que estava no centro de outro sistema solar.
E, já que estamos na Astronomia, os satélites vinham fazer-lhe a corte. Falava-se de coisas importantes como a próxima festa em casa da Fulano de Tal ou na seguinte que, dois dias depois, seria na casa de Sicrano, o tal. Falou-se de roupas, mas brevemente, só por causa da jovem Bi que se iniciara nestas andanças (e noutras também...). Ela gabou-lhe o corpo, sem escolher as palavras. Nestas coisas era muito directa, muito rapariga! E soltou um riso fresco! Achou que a jovem estava com uma cinta formidável e tinha um bronzeado apetitoso. Ela sabia-o porque se apercebia da maneira como os homens perdiam a memória quando a moça, rodando com ódio a si própria, lhes oferecia à vista tudo o que bastava, mesmo se desse um grito ou lhes arrotasse em cima.
Sentou-se ao lado e fez-lhe um grande sorriso, pousou-lhe a mão na mão e tudo corria às mil maravilhas se não fosse o criado, pressuroso, certamente preocupado em ainda ir à aula do Instituto Superior Autónomo que frequentava à noite, depositar-lhe um bilhetinho a dizer que o marido não podia vir.
Não era mulher para dizer, encolhendo os ombros, que isso não lhe interessava... e a festa prosseguia. É evidente que o marido devia ir ali, nem que fosse para esmagar o atrevimento do Director do “Europa”. Sim, porque era daqueles casos em que não bastava relegá-lo para um canto! Era preciso dar-lhe uma lição.
Eis que, já à saída - o Director do “Europa” ouvia espantado, de joelhos unidos e pés para dentro, um deputado qualquer - deu um encontrão no braço de alguém. Não a tinha visto. Quando se voltou, era a Si. Disseram um “Olá-estás-boa” muito rápido e simultâneo enquanto a Si a deixava sumir, atirando-lhe um sorriso aos calcanhares.
Cá fora, o porteiro musculoso provocava-lhe sentimentos sulfurosos, os carros resfolegavam nos semáforos e um grito de bêbedo incomodava-a fortemente. Pensou que aquilo não podia ficar assim. Desde que saíra o seu último livro, ela fizera-lhe uma paródia pública em casa do barão Ti, pusera-se a citar frases inteiras, os convidados fizeram um círculo em torno e saiu com aplausos depois duma onda de gargalhadas que - diz-se - fez abanar o lustre do teto!. Agora, não a podia ver ao fundo de uma sala que estremecia logo. Era uma coisa epidérmica, como o anunciar de um duelo no Oeste. Sentir aquilo já a fazia ponderar em certos convites, ela que, desde há algum tempo, fora chamada a “Restauradora” da vida social, ela que, a partir da sua própria casa, por meio dum cuidado calendário de jantaruchos e recepções, esmagara em prestígio e glamório as tainas oficiosas dos palermas como o Director do “Europa”, onde até eram convidados comunistas. Ela, que desenterrara finalmente as casas da gente bem, devolvendo-as ao roteiro anual de boa sociedade. As constelações sobrepunham-se já há anos em seu favor, anunciavam-lhe uma estrada larga na História. O aparecimento daquela personagem não podia perturbar-lhe os planos. Mulher determinada, tinha simplesmente de esmagar aquela ameaça! Não a preocupava nada a paixoneta que a Si tivera pelo seu (dela) marido quando eram finalistas no liceu. Com isso, até se ria. Aquele grandalhão de fatos britânicos tinha-o pelos colarinhos desde quando quis, e sabia como. O que a preocupava era a insídia latente e isso era imperdoável. Ah, se a pudesse esbofetear! Nem media a diferença de estaturas. A Si era uma mulher nortenha, de olhos claros, com a raiz dos cabelos e dos dentes bem ajustados, quase brancos. Apesar de um bocado apodrecida pelo álcool, rolava o seu corpo grande nos salões com uma segurança considerável e, quando chegava ao pé dela, parecia um urso polar ao pé dum pinguim.
Ah! Se lhe pudesse chegar! Já por causa dela se deixara cair, num momento de depressão, em frente aos canais internacionais a ver lutas de boxe e só tocara o fundo durante um desses torneios entre mulheres e em que as adversárias rebolavam uma na outra, num ringue de lama. Estava quase a definir o que queria... quando o carro se foi abaixo. Depois, um idiota qualquer pôs-se a apitar e fechou o vidro. Estendeu as pernas que, assim, sob a saia torcida, pareciam dois braços esquálidos agarrando o chão e fez uma cara de profundo nojo pelas ruas de Lisboa. Ao lado dela, um taxista de bigode horroroso, veterano da guerra, articulara-lhe à espessura do vidro, algumas perversões, escapulindo-se facilmente. Porque é que ele, o marido, não estava ali?! Sabia perfeitamente que o reconheceriam e, graças a Deus, que ainda havia temor em Portugal! Olhou para o painel de comandos, para os botõezinhos e para os mostradores esperando que aquilo andasse. Mais um instante de espera e voltou a dar à chave. Como previra, o carro avançou e tudo se desenrolou normalmente.
Enquanto isso, a Si voltava a surgir-lhe em cena e não podia deixar de sentir dores no estômago, como se lhe agarrassem a pele da barriga e a arrepanhassem às mãos cheias.
As pernas desconjuntavam-se entre os pedais, as rótulas salientes puxavam-na para fora da lisura da roupa, transformavam-na num bicho feio, nu, que esbracejava e esperneava.
Entretanto, os famosos cabelos dos anos cinquenta, pareciam também que se esboroaram. Olhou-se ao retrovisor e parou de repente, sobrelevando mais uma vaga de apitos. Meu Deus, gritou. Em Lisboa, todos se perseguem uns aos outros! Tentou acalmar-se e desenhou uma expressão que lhe destilava um eflúvio brilhante, capaz de a fazer sentir-se outra vez uma figura de proa de um Portugal onde desse gosto voltar a viver, onde todos os sonhos truncados com o 25 de Abril voltavam a valer a pena. Só a imagem da Si a fazia erodir-se lentamente em bílis ácida e humores oxidantes. Ah! Parou pela terceira vez o carro. O fígado saltava-lhe, pulsava-lhe grande como uma bola de futebol e o resto do corpo esticava-se mortiço, com frio e comichão. Apetecia-lhe esmagar as unhas para voltar a sentir. Por baixo do fígado crescia-lhe um vapor entorpecente que a elanguescia para um canto, despenteada e mesquinha como uma miúda humilhada pelos rapazes. Depois, tinha vontade de espirrar e, subitamente vinha o sono. Ah! O pior que a Si lhe fazia, era ver-se naquele estado, irritada, nervosa, incapaz de se dominar. Esperava por estar em frente dela para a reduzir a bocadinhos e pôr toda a gente a segurar-lhe a mão, pedindo-lhe, por sua alta recreação, que se acalmasse. (continua)
André de Melo
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António Godinho Gil
à(s)
15:38
quarta-feira, 24 de junho de 2009
"A Aversão" (1ª parte)
Quinshaza/ Viena de Áustria 1991- 1994
A Clara, pela telepatia, porque a Amizade também é uma forma de Amor
I
Antes do sol nascer, já dói o fígado a quem tem de se levantar.
Se espreitar pela janela descobrirá, então, um pequeno dia, completo, entre as casas. Às vezes há também a neblina que convém num frio atrevido e pica o novelo dos olhos estremunhados, convocando um espirro como uma bala na câmara.
Por outro lado, o arfar – primeiro, compassado, depois sem ordem - dos autocarros, já tinha atravessado o sono há muito tempo, ainda era noite cerrada, até o deixar exangue de anjos e prenúncios. Os boémios vinham esconder-se à pressa, por trás da porta vacilante antes de o sol - se viesse - cerrar o punho flamejante sobre a avenida, onde as manhãs não cantam, nem assobiam.
Longe dali, há orvalho e sarças, vegetação espinhosa, ainda ao alcance do mar. E a manhã pede licença. Os besouros e as cigarras cantam até mais tarde e há sempre alguém percorrendo um carreiro entre a vegetação que, a certo ponto, julga estar sozinho e começa a assobiar... ou até a dar até uns passinhos de dança. Ao longe escuta-se a sirene de um comboio. Sons metálicos, singulares, dobram por roldanas e êmbolos um tempo que apenas pairava.
Neste cenário, posto em movimento atrás do vidro, só o mármore é frio, como é bem capaz de estar lá fora.
A ínfima figura madrugadora que perfazia o semicírculo amarelado sobre a relva ia desaparecendo e o assobio já não atravessava o vidro. Em breve seriam nove horas e o pasmo apossar-se-ia dos indivíduos acordados que dariam os braços como dois peixes compridos ao altar do trabalho, empurrando-se ensonados na fila do sacrifício. Seria doce dormir ali mesmo, à janela, ao ritmo monótono dos insectos que teimavam contra o vidro em bátegas tontas. Alguns dos melhores sonhos, recordações de infância, de Verões largos e entardeceres floridos, vêm naquela altura. Mensagens do fundo, boas notícias, avisos seguros sem violência. De um lado e do outro do vidro, peixes de aquário agitavam com as barbatanas, torrentes de recordações, palmeiras despejavam-se em céus laranja afagados pelo Mar, rimas verdes de Verões parados no começo, eternamente, como um diaporama...
...mas ela queria lá saber disso!
Caminhava pela casa, de joelhos nus, a camisa de noite tinha uma série de fímbrias que se arrastavam pelo chão, como a asa de uma águia a fazer cortesias. O ar condicionado funcionava perfeitamente (este pensamento irritava-a como uma frase publicitária mas sem chegar à fúria, pelo que a repetia como quem alimenta um eco), andava descalça pela alcatifa e, ao passar pela porta envidraçada, achou que talvez fosse a reencarnação duma senhora romana, ou a sua própria reverberação num mundo paralelo deambulando pelo triclínio duma "villa", na Campania romana. Encheu-se de vaidade por conseguir evocar um mundo assim, distante. É este o poder inigualável das pessoas cultas, pensou. Mas não podia perder tempo em devaneios. Não podia adormecer!
Debruçou-se sobre a secretária que sabia manter numa ordem “impecável” e... começou a escrever furiosamente! Com setas e notas à margem, com fotografias que tirava da gaveta e entremeava entre as páginas, para não se esquecer.
Parou uns momentos. O marido estava agora a acordar. Devia ter metido a viola no saco há alguns dias porque deixara de rabujar por dormir sozinho ao angustiante deflagrar da madrugada, quando as gaivotas avisam o Sol ou a chuva, em voos rasantes. Já sabia que aquilo, para ela, era um imperativo, que não podia deixar de o fazer! Era parte integrante da sua condição de mãe e de filha contar a história da família, descrever as paisagens que, como vales secretos, perduravam na vida das pessoas da sua “allure”, pontes do Invisível unindo este Mundo e o outro.
Bom! Uma escritora precisava de ambiente. Desarrumou ligeiramente a secretária antes que o marido lhe pusesse as mãos nos ombros e lhe picasse a cara com um beijo desagradável, agudo como o voo das gaivotas. Apesar da encenação mental, mordeu uma fúria repentina e conseguiu mostrar os dentes sem perturbar minimamente o correr da pena. Nunca lhe faltava inspiração, nem percebia como podia faltar! Havia milhares de coisas para contar e ela fazia-o meticulosamente, registando todos os pormenores, cada cena, uma a seguir à outra. A “estrutura da narrativa” - reflectiu em azáfama - viria mais tarde. Cada coisa a seu tempo, como quando cuidava dos filhos, como quando advogava. Se houve alguma coisa que saiu fora do plano, foi só o casamento. Talvez tivesse sucedido depois de começarem os preparativos. Mas, ainda aí, a decisão foi do coração, foi de repente. Quando deu por si já estava apaixonada e sabia que era ele quem ia ser o pai dos seus filhos, decididos mentalmente, um a seguir ao outro, desde a infância ou talvez, desde o passeio no triclínio na “Villa” romana, da Campania, com o Vesúvio ao fundo.
Bateram as nove horas, no relógio da sala. O marido saía, desapertando o último botão do colete com aquele ar de quem usa o fato como um uniforme militar. O..., tratou-o pelo nome íntimo que era aliás usado pelos amigos da universidade (e que suscitava equívocos em encontros casuais - raros - com antigas colegas) onde brilhou desde o primeiro momento que lá pôs os pés, usando sempre uns fatos elegantíssimos e um relógio de corrente, augúrio de altos voos, entre cascatas de aplausos. O facto de os estudantes serem todos tratados assim, até pelos pioneiros do fornecimento de droga, no “campus”, passou-lhe despercebido. Não tinha sequer entrado e os contínuos tratavam-no por “senhor doutor” fazendo uma boca muito pequena no assento circunflexo que deve ser a prova da não-arbitrariedade do signo português. Voltou a enlevar-se com os estudos que fizera de Semiologia e riu-se ao mesmo tempo do caricato da situação. Gostava de se rir sozinha do marido, de vez em quando, primeiro, porque achava que isso era um sinal de intimidade e a distinguia ainda mais no altar da excelência matrimonial. O riso, o pranto e os suspiros, tudo na mesma bandeja. Mas depois, pensando um bocadinho mais, receava que a tomassem por tola, quando a imagem que se reflecte no rio dos outros, despojados aos nossos pés, nos enlouquece...
Ficou a olhar o marido, durante um bocado, pela janela. Não vestia um fato sem que ela lhe desse a opinião final e, geralmente, era ela mesmo que ia ao alfaiate orientar as modificações, algumas em segredo. Claro que não o contrariava muito. Mal o sentia a rabujar, adaptava-se rapidamente aos seus desejos, pelo menos no momento. Era assim que se entendiam e o casamento durava há vinte anos.
Em geral - pensava enquanto o observava, ela de caneta suspensa sobre o papel e ele manobrando desenvoltamente o carro para abrir e fechar a garagem - gostava do seu estilo britânico e professoral. Quando lhe viu o pé estirado para fora, o brilho polido do metal azul, o grosso sapato de cerimónia “Church`s”, numa terça-feira, e a bainha exterior da calça oscilando atrevida, achou que tudo estava perfeito e que era aquela perfeição que devia transmitir na sua escrita. Sobretudo, provar que essa perfeição era uma possibilidade histórica, existindo nas cidades do passado submersas inteiras no oceano do tempo sem que uma trave vacilasse. Provaria assim que este era o Referente de tudo o que havia de sólido, pertinente ou com sentido para dizer na sua História: a sua Atlântida.
Ele parecia pressentir-lhe o correr do pensamento. Ultimamente andava um bocado alvoroçado e agitava-se a qualquer gesticulação, a qualquer presença, de súbito tornada decisiva, sem que se soubesse porquê. Olhava-a agora por cima dos óculos e fez-lhe um sorriso com aquele ar de rapaz extemporâneo, ao atravessar o recreio de um colégio feminino que formara no pátio de saia engomada e suspirava por lhe desabotoar o colete numas inspirações pecaminosas que vinham não se sabe de onde. Rodava o volante, quase sem mostrar as mãos, um pouco ministerial, talvez, traçando os rumos da História com um pequeno meneio que telepaticamente deslocava a esferográfica dela, guiando uma neblina sobre a folha como um flamingo azul. Era assim que ela gostava de o ver. Era o que possuía nele, para inveja das amigas. O domínio do seu riso, o seu segredo de masculinidade, o interruptor daquele pomo de Adão a subir e a descer, como uma aflição, como uma…bem!
Mas era preciso continuar a escrever. Era mulher e não podia deixar de sentir que havia um vale a lavrar com a esferográfica. Não precisava de ser feminista mas era um facto a ter em consideração: todos os desprezos e, pior que isso, todos os paternalismos a que se sujeitava. A mesura não a amedrontava. O mal das feministas é que não sabiam distinguir Educação de sobranceria.
Falar com as raparigas da terra ou com aquelas mulheres dos partidos de esquerda a que a carreira do marido a obrigava, ser despachada e concisa na transmissão das ordens aos criados, evitar cumprimentar na igreja muita dessa gentinha que para lá se acotovelava, não era a mesma coisa que conter-se numa crítica em frente à audiência ou adiar uma inflamação verbal. As críticas guardavam-se para privado, para os amigos íntimos, na tranquilidade dum chá. Ah! A ideia de intimidade fê-la cruzar as pernas. Sentiu-se um pouco desnudada e susteve a custo uma espécie de langor, muito súbito, que lhe tomava matreiramente os braços e lhe evocava um desses ambientes íntimos, no escritório do Tó, ali à avenida de Roma ou numa escapada ao “atelier” da Bé, com os amigos da Lá. As mulheres sabem tanto, dizia de si para si e não continha um sorriso de mulher da sua época, bem inserida na estrutura social, no mecanismo do relógio do tempo.
O filho mais velho tinha ido passar uma semana fora. A Pi e o Ni, os gémeos, iam-se levantar daqui a pouco, como sempre, aos arrulhos. Já sentia a Muana, a criada prêta, a remexer na lata dos biscoitos para escolher os mais branquinhos para a Pi. Suspirou ante a visão do anúncio de pequeno-almoço que era o mote da sua vida. Escrever antes o cenário da Vida. Era esse o seu privilégio, sim...mas também um dom.
Nem todos se lembrariam de pôr em ordem aquelas sensações e recordações, de pegar no fio das coisas e, sobretudo, de explicar ao mundo que o passado é um presente perfeito muito mais-que-perfeito (e sério) do que se julga.
Ai! Suspirou longamente. Ser mãe, mulher, namorada, filha e descendente ao mesmo tempo era um desafio ao qual nunca pensou ter aquele dever, aquela predestinação de corresponder.
As folhas submergiam sob a vaga névoa azul, como se fosse uma relva impressionista ou uma malha regular tecida febrilmente pelo esgravatar dos dedos, ao correr do coração transbordando como uma cornucópia. Tinha a sensação de dar, de ofertar a sua imaginação, a sua inteligência, a sua sensibilidade, a sua carne... ao auditório, às pessoas que corriam no dia-a-dia, em azáfama por causa dos maridos, com os namorados, aflitas com o que iriam servir aos convidados de improviso, naquela noite, com o preço das coisas, com um ou outro pormenor que poderia espalhar o calor e a comunicação em paredes sem alma, como os pequenos boiões de caviar a que hoje qualquer um tinha acesso e que podiam transformar uma vida cinzenta, sem requinte, numa nova troca de alentos, de preocupações, em suma, de vida social. Até os operários, hoje, podiam tentar enriquecer as suas mesas com caviar..! Olhou pelo canto e viu o próprio busto reflectido num prato de baixela. A camisa de noite escorregando um pouco sobre o ombro, a emocionante cabeleira negra que teimava em usar como no tempo dos fabulosos anos cinquenta e aquelas pernas cruzadas, sem manchas nem pontos, deixando balouçar o pé em topete negligência. Gostava de se ver. Estava ali alguém, pontuando um tempo que, como a miniatura da sua trisavó religiosamente passada de mão em mão entre as filhas mais velhas, seria de novo transmitida até às mãos dos arfados e suspirados amores impossíveis dum futuro longínquo. Seria investigada e perscrutada em busca do segredo apaixonante dos seus olhos negros e do seu sorriso - havia que admitir - distinto. Ah, isto era incontestável!
Por agora não sabia mais do que escrever ( as Musas picavam um bilhete no Metro). Por volta das dez, a fonte esgotara-se. A Pi e o Ni tinham ido para Lisboa. Resolveu-se a dar o carro ao Ni em dez vezes menos tempo que a mãe a autorizara, um dia, a ir ao cinema com o primo e escreveu mais uma página sobre o senso dos progenitores de antanho, das catedrais de critério que moviam as pálpebras, por cada resposta enigmática.
Pousou a caneta e olhou o conjunto da secretária com um certo enfado. Ia fazer agora aquilo a que uma mulher como ela não podia deixar de consagrar pelo menos duas horas diárias: a imagem. Não tinha ninguém em casa a não ser a cabo-verdiana. Sentiu-a remexer em qualquer coisa. Devia estar a limpar a cozinha ( na verdade, a mulher fartava-se com o resto mais escuro dos biscoitos, que lhe era sempre concedido, talvez em jeito de crase, e que ela engolia como as piadas a prêto e branco). Fechou a porta que comunicava com a sala e passeou negligentemente até à casa de banho, pôs a água a correr e procurou os sais, tacteando para não desfazer a pose. Não, não ia tomar um banho de imersão. “I”, sibilou entre os dentes! Era uma mulher activa. Ajustou o chuveiro e, leitor, saia enquanto eu me volto de costas... estes eram momentos íntimos, não temos relato possível. (continua)
André de Melo
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António Godinho Gil
à(s)
15:29

