Blogue de apoio ao "Boca de Incêndio"

terça-feira, 30 de junho de 2009

A Aversão (2ª parte)

II

A meio da manhã, foi fazer compras. Atravessou o jardim até à garagem pela trilha de pedras, como se caminhasse já pela rua central de Cascais. Olhou de relance o jardim e viu a piscina onde o filtro mergulhava como um animal pré-histórico a beber. Achou que assim estava bem, deixava a casa numa perfeita tranquilidade ( “pax tranquilla libertas est” já dizia o Cícero). Sentiu-se agradecida a Deus por viver naquele sossego, longe da brutalidade de Lisboa. No entanto, quando punha o carro a trabalhar, subiu-lhe uma comoção profunda pela cana do nariz e desaguou num pranto inexorável. Baixou a cabeça de modo a que o chapéu de aba larga lhe ocultasse a cara e... chorou mesmo. “Meu Deus! Como é possível!?”, bramiu, enquanto desferia os punhos no volante. Sentir-se observada daquela maneira, esquadrinhavam-na a cada canto da sua vida íntima, a perseguiam-na a cada segundo!”. Será que a inveja pairava no ar, era o anjo da Morte dos primogénitos, depois das pragas da brutalidade e da falta de educação generalizadas?! Porque é que a perseguiam daquele modo quando escrevia? Sentia os dentes de predadores rangendo nas obscuridades daquela Lisboa de falhados, sentia o catarro de aves absurdas preparando-se para romperem o silêncio, à gargalhada. Tinha a alucinação de que passava numa floresta de espinhos em camisa de noite e uma das fímbrias prendia-se, ela não conseguia libertá-la, ficava nua e esfarrapada à vista das árvores ululantes ( devia andar a ver demasiados vídeos...).

Meu Deus! Tinha de se dominar! Era uma mulher dura! E fria! Não podia deixar-se vencer por estes pânicos sem razão. À noite, isso implicaria no relacionamento conjugal. E começaria logo ao fim da tarde, quando o marido chegasse. Tinham assinado com os olhos um pacto tácito para não jogarem os temores que traziam da rua, na mesa de jantar. Antes de se sentarem à mesa tinham de estar completamente libertados dos pesos do exterior. Se o jantar tardasse, iriam dar uma volta, ao jardim ou às traseiras. Os ligeiros atrasos, por ordens desencontradas e terrores de polémica, tinham valido uma úlcera à Muana. Nem fora preciso falar para que se convencionasse assim. Cerrou os punhos e levantou os joelhos, dominando o próprio exaspero. Ah, Meu Deus! Como sentiu saudades da ordem antiga, dos velhos casarões onde refulgia sabiamente o cristal antigo, onde até a luz das pratas se amassava sob a demão lenta do tempo. As mulheres de outrora, caminhando de sala para sala, reflectindo nas contas da casa, sempre de olhos nos filhos, sabendo em silêncio, não cada passo que davam, mas cada estado de alma, actualizando sempre as tendências que tinham experimentado, ainda ao peito, nos primeiros gestos ou sorrisos.

Ao entrar na loja do costume, deu-se conta que tinha de ir a uma festa. Encarou com calma todas as providências a tomar. O que ia levar, o encontro com o marido em plena sala, ele já de copo na mão... era aliás incomparavelmente elegante acercar-se dele assim, falar-lhe de um modo que espalhava sensação em torno! Ah!... e o som dos fotógrafos a disparar os “flashes” ( mesmo quando era uma máquina registadora a trabalhar...).

Mais nada lhe ocupou a cabeça até ao fim da tarde. Tinha uma lista de coisas para a casa: condimentos, um tempero francês, bolinhos de sândalo, um creme de dia e outro de noite para a Pi, um boné a dizer “Eu amo Nova Iorque” para o Ni, um eliminador de odores para tabaco e um saquinho de alfazema que já não se encontrava em lado nenhum porque já não se fabricavam (sinceramente!!!).

Deixou tudo nas mãos da criada, incumbindo-a laconicamente de ter aquilo tudo à noite. Era para isso que serviam as criadas, afinal. Quando se afastou para ir ver se o fato saia-e-casaco cinzento servia para a recepção, não deu conta que a criada, abúlica, olhava a lista de pernas para o ar.

Ao chegar ao pé do Continental ia tendo uma depressão. Depois de andar meia hora ou mais à procura de lugar, descobriu que o porteiro lha fazia sinais. Era um rapaz todo bem posto, músculos proeminentes sob a farda óbvia tipo Disneilândia, de olhos azuis com aquela “faísca” militar que, infelizmente, o marido nunca patenteara. Todo solícito, esperou que abrisse o vidro (os carros atrás apitavam, contraía-se-lhe o fígado imaginando íris sequiosas nos olhos cegos do pára-brisas) e gaguejou: “Se a senhora quiser, deixe-me a chave, que eu procuro lugar. A senhora vem para a recepção da “Fama”, não é?”

Ela sorriu esfuziante e deu-lhe logo a chave. Apressou-se a dar-lhe também umas indicações sobre a embraiagem que não estava a funcionar bem, o que daria uma conversa de garagem ou de telenovela picante tipo “A senhora e o mecânico” que o rapaz cortou logo para canto, fungando brasas e estalando os dedos. Depois, saiu apressada, meneando os joelhos e mordendo os lábios, visto que pisava o território selvagem de Lisboa.

Uma comodidade extemporânea relaxou-a. “Como era boa ideia porem aquele rapaz à procura de lugar!” Certos hábitos antigos renasciam dos escombros e isso dava-lhe espontaneamente uma das sensações que mais procurava: a da longevidade das instituições, no topo das quais os gestos eram todos cheios de flores e de nobreza (mas também uma sanha de gato só de pensar que lhe queriam roubar esse mundo!). Bom, inquietações à parte, tinha a certeza que ia encontrar um ambiente a condizer consigo, lá em cima.

Ao subir, encontrou a Mi, a mulher daquele negociante francês que brilhava em todos os salões, quase sempre sem o marido. Deram três beijinhos supinos, com uma animação que teria suscitado as imprecações dos antigos carrejões e os “ahh!” dos viciados no olhar, mais conhecidos noutros meios por voyeurs (ou “espreitas”). Mas agora, a cidade era um campo de asfalto eriçado de gafanhotos com três olhos e um pavimento móvel de lata, platinados e berros que semeavam o deserto nos espaços. Cirandando entre os carros, já não havia carrejões, nem “espreitas” tropeçando dramaticamente das falésias mas miúdos bem vestidos acercando-se com um ar alucinado e dizendo que precisavam de certo montante para uma agulha, a reverter oportunamente, já.

O musculoso porteiro estacionara o carro em dois palmos de passeio, um pneu no ar, bloqueando dois já estacionados. Saía compondo as abas do uniforme e inspeccionando a rua sem medo, apenas com consideração. O guarda do banco acenou-lhe e o porteiro esvaziou o peito devagar ostentando o mesmo ar satisfeito, de riso latente e olhos brilhantes com que ia abrindo e fechando as facilidades daquele perímetro e o direito de olhar para o céu, a única coisa clara ali à vista desarmada. Tinha momentos em que não fazia nada e, assim, à beira-mar, com uma rotina de aventuras não só futebolísticas e uma mulher prometida desde a infância, já ninguém o tiraria dali, a não ser a reforma.

Isto tudo se via de longe, enquanto a Mi a empurrava pelas escadas acima. À entrada, tinham sido apanhados pelo fotógrafo da revista mundana do costume. Ela fez para a lente um ar bem estudado enquanto a Mi se compunha subitamente numa posição de descanso, de quieta serenidade, puxando um cilindro de ar divino da cabeça até aos pés. A gesticulação de colégio, entre ambas, ficaria fixada para a posteridade, por graça de uma disposição instantânea treinada várias vezes naquelas mulheres que atravessavam o passeio, uma sorrindo como quem a mirasse de olhar pandos, outra enfrentando o auditório dos súbditos que nela cobravam, narinas frementes e olhos esbugalhados, a essência do esplêndido. Via-se dois dedos do joelho moreno esticando a saia. Podia-se imaginar o corpo enxuto, fulminante e já se adivinhava a boca sedenta, de lábios recolhidos para dentro, que se esticariam, com o tempo, até ao esgar, quando a embirração espremesse o seu quinhão de lágrimas. Por agora, os pingentes razoáveis e as pulseiras que as miúdas usavam, a alternância entre o castanho da pele e a brancura da camisa, davam-lhe um ar muito desportivo, de rainha egípcia em saiote. Mas já algo nela era corcunda e sequioso, já algo nela era usado e vendilhão como quem toma o embaraço do comprador por um sacrilégio. Era engraçado, diria um observador, como a boca entreaberta nela, a mistura de impressão e rejeição em toda a figura, se tornariam com o tempo numa espécie de quilha, remoendo as palavras. Os seus últimos gestos de velha seriam de certeza, já sem dentes, abrir e fechar a boca muda, como um papagaio atónito, de penas eriçadas e arrancar em terceira...

Depois, apareceu um homem. Era o negociante francês que, afinal, desta vez, vinha acompanhar a mulher. A sua figura, a cada passo, não descompunha o vinco das calças, e era como uma queda vertical na depressão. Ao cabo dela, com os cabelos já encanecidos, um balão branco com duas azeitonas pretas e um rabisco ofendido, torciam-se até às lágrimas.

Ao invés, a entrada de ambas, era fenomenal. Já tinha passado o tempo dos braços no ar e dos enlaces sonoros. Já ficavam mal as gargalhadas e os gritos histéricos de estapafúrdia. Agora todos se deparavam num engelhamento cúmplice porque permitia que cada palavra fosse um gesto de solidariedade. A “solidariedade”, agora, estava na moda. E as reportagens também. Havia aventureiros de corredor de repartição pública com o copo na mão, mesmo atrás, escondidos por umas braças respeitáveis de “tweed”. Além disso, estas recepções de fim-de-tarde ainda não tinham chegado à intimidade, estavam naquele passo em que a pele se revoltava contra a frieza da mármore, se arranhava nas colunas de betão e as Instituições Públicas não eram ainda nossas, as mucosas dos lábios não se tinham habituado a gostar de sal e os tornozelos a serem furados pelas esquinas de aço das secretárias pós-modernas. Havia muitas escorregadelas e sequências de acidentes estúpidos. Por isso, todos caminhavam com cuidado, porque a superstição uivava...

O clamor da recepção já fazia recear quem viesse ainda a meio das escadas. E a quem chega, os olhos fixam-se com calma, mas com nitidez. Há um vislumbre súbito de que são todos uns “fôfos”. Nada mais falso, sabia ela. Tirou o chapéu e deixou-o nas mãos dum indivíduo carrancudo que se esforçava por não parecer criado, correndo para o bengaleiro e correndo mais depressa a aninhar-se noutro sítio, onde escondia os manuais da Universidade.

Em breve, a Mi se despedia. Quanto a ela não lhe faltava com quem conversar. Acercou-se logo do Director do “Europa”, um acossado, e, mirando-lhe subtilmente os sapatos, articulou-lhe uma piada só para ele, acerca da Integração na Euroupa. Ele inclinou-se, é claro, pois não era dos que passasse à vénia por ironia depois de ter tentado alguma coisa.

Antes pelo contrário, era dos que se curvava logo, por precaução, fendendo o peito com a mão desocupada do cumprimento e deixando a voz estalar como colheradas de geleia. Com aquilo, dizia: “Minha senhora, como eu sou humilde curvo-me à senhora, queira desculpar não saber se a estou a cumprimentar como deve ser mas eu sou uma pessoa muito humilde” e, ao repetir aqueles despojamentos até ele próprio estranhar, sabia ela muito bem que era para a isolar e segregar aparatosamente. Mas ela insistia, simulava uma conversa e virava-lhe as costas à primeira oportunidade com um sorriso de rainha cumprimentando laboriosamente o povoléu. Depois de proceder a isto, que considerava as suas desfeitas, era capaz de se sentar num canapé, ou no que houvesse, e mostrar aquilo que considerava o seu fabuloso joelho ebúrneo, como talvez as costas da Maria Eduarda a estrear um salão d’ “Os Maias” e também de acordo com um soneto descabelado dum colega universitário que não seguiu as Letras. Aí, a cabeça desfiava-lhe pensamentos aparentemente importantes, cabalas que ela julgava ser ciência e cultura só porque alguém a impressionou sobre o assunto, fumando cachimbo, numa poltrona de couro. Era o momento das genealogias que alguém lhe fizera, como quem faz uma carta astrológica cheia de bons augúrios (ou agoiros). Todos os dias lhe descobriam mais um primo ilustre e, como nenhum problema se lhe punha, quando cruzava a perna e ajeitava as mãos, já tinha chegado à conclusão segura de que não era uma pessoa qualquer . Por conseguinte, quanto mais aprofundava, mais pressuposto “bom sangue” entretecia nos ramos da sua árvore.

O Director do “Europa” corria de um lado para o outro. E ela observava-o. Não via que ele se desgraçava a cada momento, agora já com os óculos escuros e o cabelo ligeiramente crescido atrás, tomando a posição do adolescente a qualquer personagem professoral e rabiando para que aquilo acabasse, deixando-o ir embora. Não via como ele, depois das gravatas institucionais e dos consensos geométricos que tinham levado a Revolução para a câmara de gás dizendo que era um duche, caía agora na segunda adolescência, apaixonando-se a cada “cocktail”, dando de barato a sua firme moral socialista-e-cristã e tremendo todo, já de um modo estranho, frente a um jovem de busto largo. Mas este era um mundo impiedoso, que ela nem via, disposta que estava no centro de outro sistema solar.

E, já que estamos na Astronomia, os satélites vinham fazer-lhe a corte. Falava-se de coisas importantes como a próxima festa em casa da Fulano de Tal ou na seguinte que, dois dias depois, seria na casa de Sicrano, o tal. Falou-se de roupas, mas brevemente, só por causa da jovem Bi que se iniciara nestas andanças (e noutras também...). Ela gabou-lhe o corpo, sem escolher as palavras. Nestas coisas era muito directa, muito rapariga! E soltou um riso fresco! Achou que a jovem estava com uma cinta formidável e tinha um bronzeado apetitoso. Ela sabia-o porque se apercebia da maneira como os homens perdiam a memória quando a moça, rodando com ódio a si própria, lhes oferecia à vista tudo o que bastava, mesmo se desse um grito ou lhes arrotasse em cima.

Sentou-se ao lado e fez-lhe um grande sorriso, pousou-lhe a mão na mão e tudo corria às mil maravilhas se não fosse o criado, pressuroso, certamente preocupado em ainda ir à aula do Instituto Superior Autónomo que frequentava à noite, depositar-lhe um bilhetinho a dizer que o marido não podia vir.

Não era mulher para dizer, encolhendo os ombros, que isso não lhe interessava... e a festa prosseguia. É evidente que o marido devia ir ali, nem que fosse para esmagar o atrevimento do Director do “Europa”. Sim, porque era daqueles casos em que não bastava relegá-lo para um canto! Era preciso dar-lhe uma lição.

Eis que, já à saída - o Director do “Europa” ouvia espantado, de joelhos unidos e pés para dentro, um deputado qualquer - deu um encontrão no braço de alguém. Não a tinha visto. Quando se voltou, era a Si. Disseram um “Olá-estás-boa” muito rápido e simultâneo enquanto a Si a deixava sumir, atirando-lhe um sorriso aos calcanhares.

Cá fora, o porteiro musculoso provocava-lhe sentimentos sulfurosos, os carros resfolegavam nos semáforos e um grito de bêbedo incomodava-a fortemente. Pensou que aquilo não podia ficar assim. Desde que saíra o seu último livro, ela fizera-lhe uma paródia pública em casa do barão Ti, pusera-se a citar frases inteiras, os convidados fizeram um círculo em torno e saiu com aplausos depois duma onda de gargalhadas que - diz-se - fez abanar o lustre do teto!. Agora, não a podia ver ao fundo de uma sala que estremecia logo. Era uma coisa epidérmica, como o anunciar de um duelo no Oeste. Sentir aquilo já a fazia ponderar em certos convites, ela que, desde há algum tempo, fora chamada a “Restauradora” da vida social, ela que, a partir da sua própria casa, por meio dum cuidado calendário de jantaruchos e recepções, esmagara em prestígio e glamório as tainas oficiosas dos palermas como o Director do “Europa”, onde até eram convidados comunistas. Ela, que desenterrara finalmente as casas da gente bem, devolvendo-as ao roteiro anual de boa sociedade. As constelações sobrepunham-se já há anos em seu favor, anunciavam-lhe uma estrada larga na História. O aparecimento daquela personagem não podia perturbar-lhe os planos. Mulher determinada, tinha simplesmente de esmagar aquela ameaça! Não a preocupava nada a paixoneta que a Si tivera pelo seu (dela) marido quando eram finalistas no liceu. Com isso, até se ria. Aquele grandalhão de fatos britânicos tinha-o pelos colarinhos desde quando quis, e sabia como. O que a preocupava era a insídia latente e isso era imperdoável. Ah, se a pudesse esbofetear! Nem media a diferença de estaturas. A Si era uma mulher nortenha, de olhos claros, com a raiz dos cabelos e dos dentes bem ajustados, quase brancos. Apesar de um bocado apodrecida pelo álcool, rolava o seu corpo grande nos salões com uma segurança considerável e, quando chegava ao pé dela, parecia um urso polar ao pé dum pinguim.

Ah! Se lhe pudesse chegar! Já por causa dela se deixara cair, num momento de depressão, em frente aos canais internacionais a ver lutas de boxe e só tocara o fundo durante um desses torneios entre mulheres e em que as adversárias rebolavam uma na outra, num ringue de lama. Estava quase a definir o que queria... quando o carro se foi abaixo. Depois, um idiota qualquer pôs-se a apitar e fechou o vidro. Estendeu as pernas que, assim, sob a saia torcida, pareciam dois braços esquálidos agarrando o chão e fez uma cara de profundo nojo pelas ruas de Lisboa. Ao lado dela, um taxista de bigode horroroso, veterano da guerra, articulara-lhe à espessura do vidro, algumas perversões, escapulindo-se facilmente. Porque é que ele, o marido, não estava ali?! Sabia perfeitamente que o reconheceriam e, graças a Deus, que ainda havia temor em Portugal! Olhou para o painel de comandos, para os botõezinhos e para os mostradores esperando que aquilo andasse. Mais um instante de espera e voltou a dar à chave. Como previra, o carro avançou e tudo se desenrolou normalmente.

Enquanto isso, a Si voltava a surgir-lhe em cena e não podia deixar de sentir dores no estômago, como se lhe agarrassem a pele da barriga e a arrepanhassem às mãos cheias.

As pernas desconjuntavam-se entre os pedais, as rótulas salientes puxavam-na para fora da lisura da roupa, transformavam-na num bicho feio, nu, que esbracejava e esperneava.

Entretanto, os famosos cabelos dos anos cinquenta, pareciam também que se esboroaram. Olhou-se ao retrovisor e parou de repente, sobrelevando mais uma vaga de apitos. Meu Deus, gritou. Em Lisboa, todos se perseguem uns aos outros! Tentou acalmar-se e desenhou uma expressão que lhe destilava um eflúvio brilhante, capaz de a fazer sentir-se outra vez uma figura de proa de um Portugal onde desse gosto voltar a viver, onde todos os sonhos truncados com o 25 de Abril voltavam a valer a pena. Só a imagem da Si a fazia erodir-se lentamente em bílis ácida e humores oxidantes. Ah! Parou pela terceira vez o carro. O fígado saltava-lhe, pulsava-lhe grande como uma bola de futebol e o resto do corpo esticava-se mortiço, com frio e comichão. Apetecia-lhe esmagar as unhas para voltar a sentir. Por baixo do fígado crescia-lhe um vapor entorpecente que a elanguescia para um canto, despenteada e mesquinha como uma miúda humilhada pelos rapazes. Depois, tinha vontade de espirrar e, subitamente vinha o sono. Ah! O pior que a Si lhe fazia, era ver-se naquele estado, irritada, nervosa, incapaz de se dominar. Esperava por estar em frente dela para a reduzir a bocadinhos e pôr toda a gente a segurar-lhe a mão, pedindo-lhe, por sua alta recreação, que se acalmasse. (continua)

André de Melo

quarta-feira, 24 de junho de 2009

"A Aversão" (1ª parte)

Quinshaza/ Viena de Áustria 1991- 1994

A Clara, pela telepatia, porque a Amizade também é uma forma de Amor

I

Antes do sol nascer, já dói o fígado a quem tem de se levantar.

Se espreitar pela janela descobrirá, então, um pequeno dia, completo, entre as casas. Às vezes há também a neblina que convém num frio atrevido e pica o novelo dos olhos estremunhados, convocando um espirro como uma bala na câmara.

Por outro lado, o arfar – primeiro, compassado, depois sem ordem - dos autocarros, já tinha atravessado o sono há muito tempo, ainda era noite cerrada, até o deixar exangue de anjos e prenúncios. Os boémios vinham esconder-se à pressa, por trás da porta vacilante antes de o sol - se viesse - cerrar o punho flamejante sobre a avenida, onde as manhãs não cantam, nem assobiam.

Longe dali, há orvalho e sarças, vegetação espinhosa, ainda ao alcance do mar. E a manhã pede licença. Os besouros e as cigarras cantam até mais tarde e há sempre alguém percorrendo um carreiro entre a vegetação que, a certo ponto, julga estar sozinho e começa a assobiar... ou até a dar até uns passinhos de dança. Ao longe escuta-se a sirene de um comboio. Sons metálicos, singulares, dobram por roldanas e êmbolos um tempo que apenas pairava.

Neste cenário, posto em movimento atrás do vidro, só o mármore é frio, como é bem capaz de estar lá fora.

A ínfima figura madrugadora que perfazia o semicírculo amarelado sobre a relva ia desaparecendo e o assobio já não atravessava o vidro. Em breve seriam nove horas e o pasmo apossar-se-ia dos indivíduos acordados que dariam os braços como dois peixes compridos ao altar do trabalho, empurrando-se ensonados na fila do sacrifício. Seria doce dormir ali mesmo, à janela, ao ritmo monótono dos insectos que teimavam contra o vidro em bátegas tontas. Alguns dos melhores sonhos, recordações de infância, de Verões largos e entardeceres floridos, vêm naquela altura. Mensagens do fundo, boas notícias, avisos seguros sem violência. De um lado e do outro do vidro, peixes de aquário agitavam com as barbatanas, torrentes de recordações, palmeiras despejavam-se em céus laranja afagados pelo Mar, rimas verdes de Verões parados no começo, eternamente, como um diaporama...

...mas ela queria lá saber disso!

Caminhava pela casa, de joelhos nus, a camisa de noite tinha uma série de fímbrias que se arrastavam pelo chão, como a asa de uma águia a fazer cortesias. O ar condicionado funcionava perfeitamente (este pensamento irritava-a como uma frase publicitária mas sem chegar à fúria, pelo que a repetia como quem alimenta um eco), andava descalça pela alcatifa e, ao passar pela porta envidraçada, achou que talvez fosse a reencarnação duma senhora romana, ou a sua própria reverberação num mundo paralelo deambulando pelo triclínio duma "villa", na Campania romana. Encheu-se de vaidade por conseguir evocar um mundo assim, distante. É este o poder inigualável das pessoas cultas, pensou. Mas não podia perder tempo em devaneios. Não podia adormecer!

Debruçou-se sobre a secretária que sabia manter numa ordem “impecável” e... começou a escrever furiosamente! Com setas e notas à margem, com fotografias que tirava da gaveta e entremeava entre as páginas, para não se esquecer.

Parou uns momentos. O marido estava agora a acordar. Devia ter metido a viola no saco há alguns dias porque deixara de rabujar por dormir sozinho ao angustiante deflagrar da madrugada, quando as gaivotas avisam o Sol ou a chuva, em voos rasantes. Já sabia que aquilo, para ela, era um imperativo, que não podia deixar de o fazer! Era parte integrante da sua condição de mãe e de filha contar a história da família, descrever as paisagens que, como vales secretos, perduravam na vida das pessoas da sua “allure”, pontes do Invisível unindo este Mundo e o outro.

Bom! Uma escritora precisava de ambiente. Desarrumou ligeiramente a secretária antes que o marido lhe pusesse as mãos nos ombros e lhe picasse a cara com um beijo desagradável, agudo como o voo das gaivotas. Apesar da encenação mental, mordeu uma fúria repentina e conseguiu mostrar os dentes sem perturbar minimamente o correr da pena. Nunca lhe faltava inspiração, nem percebia como podia faltar! Havia milhares de coisas para contar e ela fazia-o meticulosamente, registando todos os pormenores, cada cena, uma a seguir à outra. A “estrutura da narrativa” - reflectiu em azáfama - viria mais tarde. Cada coisa a seu tempo, como quando cuidava dos filhos, como quando advogava. Se houve alguma coisa que saiu fora do plano, foi só o casamento. Talvez tivesse sucedido depois de começarem os preparativos. Mas, ainda aí, a decisão foi do coração, foi de repente. Quando deu por si já estava apaixonada e sabia que era ele quem ia ser o pai dos seus filhos, decididos mentalmente, um a seguir ao outro, desde a infância ou talvez, desde o passeio no triclínio na “Villa” romana, da Campania, com o Vesúvio ao fundo.

Bateram as nove horas, no relógio da sala. O marido saía, desapertando o último botão do colete com aquele ar de quem usa o fato como um uniforme militar. O..., tratou-o pelo nome íntimo que era aliás usado pelos amigos da universidade (e que suscitava equívocos em encontros casuais - raros - com antigas colegas) onde brilhou desde o primeiro momento que lá pôs os pés, usando sempre uns fatos elegantíssimos e um relógio de corrente, augúrio de altos voos, entre cascatas de aplausos. O facto de os estudantes serem todos tratados assim, até pelos pioneiros do fornecimento de droga, no “campus”, passou-lhe despercebido. Não tinha sequer entrado e os contínuos tratavam-no por “senhor doutor” fazendo uma boca muito pequena no assento circunflexo que deve ser a prova da não-arbitrariedade do signo português. Voltou a enlevar-se com os estudos que fizera de Semiologia e riu-se ao mesmo tempo do caricato da situação. Gostava de se rir sozinha do marido, de vez em quando, primeiro, porque achava que isso era um sinal de intimidade e a distinguia ainda mais no altar da excelência matrimonial. O riso, o pranto e os suspiros, tudo na mesma bandeja. Mas depois, pensando um bocadinho mais, receava que a tomassem por tola, quando a imagem que se reflecte no rio dos outros, despojados aos nossos pés, nos enlouquece...

Ficou a olhar o marido, durante um bocado, pela janela. Não vestia um fato sem que ela lhe desse a opinião final e, geralmente, era ela mesmo que ia ao alfaiate orientar as modificações, algumas em segredo. Claro que não o contrariava muito. Mal o sentia a rabujar, adaptava-se rapidamente aos seus desejos, pelo menos no momento. Era assim que se entendiam e o casamento durava há vinte anos.

Em geral - pensava enquanto o observava, ela de caneta suspensa sobre o papel e ele manobrando desenvoltamente o carro para abrir e fechar a garagem - gostava do seu estilo britânico e professoral. Quando lhe viu o pé estirado para fora, o brilho polido do metal azul, o grosso sapato de cerimónia “Church`s”, numa terça-feira, e a bainha exterior da calça oscilando atrevida, achou que tudo estava perfeito e que era aquela perfeição que devia transmitir na sua escrita. Sobretudo, provar que essa perfeição era uma possibilidade histórica, existindo nas cidades do passado submersas inteiras no oceano do tempo sem que uma trave vacilasse. Provaria assim que este era o Referente de tudo o que havia de sólido, pertinente ou com sentido para dizer na sua História: a sua Atlântida.

Ele parecia pressentir-lhe o correr do pensamento. Ultimamente andava um bocado alvoroçado e agitava-se a qualquer gesticulação, a qualquer presença, de súbito tornada decisiva, sem que se soubesse porquê. Olhava-a agora por cima dos óculos e fez-lhe um sorriso com aquele ar de rapaz extemporâneo, ao atravessar o recreio de um colégio feminino que formara no pátio de saia engomada e suspirava por lhe desabotoar o colete numas inspirações pecaminosas que vinham não se sabe de onde. Rodava o volante, quase sem mostrar as mãos, um pouco ministerial, talvez, traçando os rumos da História com um pequeno meneio que telepaticamente deslocava a esferográfica dela, guiando uma neblina sobre a folha como um flamingo azul. Era assim que ela gostava de o ver. Era o que possuía nele, para inveja das amigas. O domínio do seu riso, o seu segredo de masculinidade, o interruptor daquele pomo de Adão a subir e a descer, como uma aflição, como uma…bem!

Mas era preciso continuar a escrever. Era mulher e não podia deixar de sentir que havia um vale a lavrar com a esferográfica. Não precisava de ser feminista mas era um facto a ter em consideração: todos os desprezos e, pior que isso, todos os paternalismos a que se sujeitava. A mesura não a amedrontava. O mal das feministas é que não sabiam distinguir Educação de sobranceria.

Falar com as raparigas da terra ou com aquelas mulheres dos partidos de esquerda a que a carreira do marido a obrigava, ser despachada e concisa na transmissão das ordens aos criados, evitar cumprimentar na igreja muita dessa gentinha que para lá se acotovelava, não era a mesma coisa que conter-se numa crítica em frente à audiência ou adiar uma inflamação verbal. As críticas guardavam-se para privado, para os amigos íntimos, na tranquilidade dum chá. Ah! A ideia de intimidade fê-la cruzar as pernas. Sentiu-se um pouco desnudada e susteve a custo uma espécie de langor, muito súbito, que lhe tomava matreiramente os braços e lhe evocava um desses ambientes íntimos, no escritório do Tó, ali à avenida de Roma ou numa escapada ao “atelier” da Bé, com os amigos da Lá. As mulheres sabem tanto, dizia de si para si e não continha um sorriso de mulher da sua época, bem inserida na estrutura social, no mecanismo do relógio do tempo.

O filho mais velho tinha ido passar uma semana fora. A Pi e o Ni, os gémeos, iam-se levantar daqui a pouco, como sempre, aos arrulhos. Já sentia a Muana, a criada prêta, a remexer na lata dos biscoitos para escolher os mais branquinhos para a Pi. Suspirou ante a visão do anúncio de pequeno-almoço que era o mote da sua vida. Escrever antes o cenário da Vida. Era esse o seu privilégio, sim...mas também um dom.

Nem todos se lembrariam de pôr em ordem aquelas sensações e recordações, de pegar no fio das coisas e, sobretudo, de explicar ao mundo que o passado é um presente perfeito muito mais-que-perfeito (e sério) do que se julga.

Ai! Suspirou longamente. Ser mãe, mulher, namorada, filha e descendente ao mesmo tempo era um desafio ao qual nunca pensou ter aquele dever, aquela predestinação de corresponder.

As folhas submergiam sob a vaga névoa azul, como se fosse uma relva impressionista ou uma malha regular tecida febrilmente pelo esgravatar dos dedos, ao correr do coração transbordando como uma cornucópia. Tinha a sensação de dar, de ofertar a sua imaginação, a sua inteligência, a sua sensibilidade, a sua carne... ao auditório, às pessoas que corriam no dia-a-dia, em azáfama por causa dos maridos, com os namorados, aflitas com o que iriam servir aos convidados de improviso, naquela noite, com o preço das coisas, com um ou outro pormenor que poderia espalhar o calor e a comunicação em paredes sem alma, como os pequenos boiões de caviar a que hoje qualquer um tinha acesso e que podiam transformar uma vida cinzenta, sem requinte, numa nova troca de alentos, de preocupações, em suma, de vida social. Até os operários, hoje, podiam tentar enriquecer as suas mesas com caviar..! Olhou pelo canto e viu o próprio busto reflectido num prato de baixela. A camisa de noite escorregando um pouco sobre o ombro, a emocionante cabeleira negra que teimava em usar como no tempo dos fabulosos anos cinquenta e aquelas pernas cruzadas, sem manchas nem pontos, deixando balouçar o pé em topete negligência. Gostava de se ver. Estava ali alguém, pontuando um tempo que, como a miniatura da sua trisavó religiosamente passada de mão em mão entre as filhas mais velhas, seria de novo transmitida até às mãos dos arfados e suspirados amores impossíveis dum futuro longínquo. Seria investigada e perscrutada em busca do segredo apaixonante dos seus olhos negros e do seu sorriso - havia que admitir - distinto. Ah, isto era incontestável!

Por agora não sabia mais do que escrever ( as Musas picavam um bilhete no Metro). Por volta das dez, a fonte esgotara-se. A Pi e o Ni tinham ido para Lisboa. Resolveu-se a dar o carro ao Ni em dez vezes menos tempo que a mãe a autorizara, um dia, a ir ao cinema com o primo e escreveu mais uma página sobre o senso dos progenitores de antanho, das catedrais de critério que moviam as pálpebras, por cada resposta enigmática.

Pousou a caneta e olhou o conjunto da secretária com um certo enfado. Ia fazer agora aquilo a que uma mulher como ela não podia deixar de consagrar pelo menos duas horas diárias: a imagem. Não tinha ninguém em casa a não ser a cabo-verdiana. Sentiu-a remexer em qualquer coisa. Devia estar a limpar a cozinha ( na verdade, a mulher fartava-se com o resto mais escuro dos biscoitos, que lhe era sempre concedido, talvez em jeito de crase, e que ela engolia como as piadas a prêto e branco). Fechou a porta que comunicava com a sala e passeou negligentemente até à casa de banho, pôs a água a correr e procurou os sais, tacteando para não desfazer a pose. Não, não ia tomar um banho de imersão. “I”, sibilou entre os dentes! Era uma mulher activa. Ajustou o chuveiro e, leitor, saia enquanto eu me volto de costas... estes eram momentos íntimos, não temos relato possível. (continua)

André de Melo

A Aversão (sinopse)

Sem ser jovem, frequenta um círculo de pessoas fotogénicas e endinheiradas que não perdem uma oportunidade para apareceram na Imprensa de sala-de-espera de dentista. Ela lidera mesmo um processo que chama “ restaurar a vida social de Lisboa”.

A certo ponto, conhece o Director de um jornal da antiga e prestigiada Imprensa nacionalizada que se conseguiu equilibrar, como principal Executivo da Empresa, no mercado livre, de tal modo que o Jornal funciona como uma espécie de Instituição oficiosa do Estado, onde o emprego e a gestão se assemelham aos de uma Repartição.

O Director, vindo duma classe média, laboriosa e republicana, passa assim das “tainas da Presidência da República”, em dias aprazados, para uma vida social intensa onde mulheres-raparigas o deixam à beira de uma crise de idade. Aí, o Director conhece uma antiga colega da Escritora com quem alimenta primeiro o despeito que partilham ambos pelas arrogâncias desta e com quem se envolve depois sentimentalmente. Esta mulher, mais ou menos trágica e semi-alcoólica, não deixa por isso de ser atraente e a sua ingenuidade actua como um formol dentro do qual a degradação da carne e do espírito pararam.

A pretexto de um projecto de triagem rotineira da literatura de cordel, mais ou menos promovida nas classes altas, o Director resolve encomendar uma série de artigos a um profissional do jornalismo venenoso, daqueles ainda encalhados na nostalgia da Revolução, com os quais pretende ridicularizar a Escritora.

Os artigos acertam tão bem no alvo, que a Escritora se vê ridicularizada em público e entra em depressão, passando depois a um estado de obsessão vingativa.

O Director, saciado com o primeiro efeito, passara depois o assunto para um jovem estagiário com pretensões literárias e lá vai progredindo despreocupadamente na sua nova vida social. A relação sentimental com a semi-alcoólica é-lhe consentida por esta, por inércia e devido à aversão da Escritora, que a detesta desde menina.

Após uma breve investigação, a Escritora, determinada a não se deixar ridicularizar, descobre por intermédio de um amigo solteirão, bem instalado no mundo Académico e na Política e que sempre alimentou uma paixão frustrada por ela, quem é o jovem estagiário a espetar-lhe farpas, bem como a arrastar os seus romances pela lama. Vai mesmo ao ponto de, oportunamente, se relacionar com uma colega do rapaz, uma jovem mãe, com quem este tem uma relação de amizade cada vez mais equívoca.

Depois de tentar recorrer, sem êxito, aos conhecimentos marginais do marido, do tempo da Contra-revolução, para pregar uma partida ao rapaz, acaba por encomendar o “trabalhinho” a dois primos cabo-verdianos da criada. A coisa corre tão mal que o rapaz, suposto ser alvo duma “barrela” para que fosse obrigado, na sequência, a pedir ajuda numa casa vizinha, onde a Escritora, as amigas e os fotógrafos da Imprensa de quiosque o esperavam, chega atrasado e encontra-as, a ela e às amigas, por sua vez assaltadas e abusadas. Um dos cabo-verdianos decidira, à última hora, assaltar quem lhe encomendara o trabalhinho. É que a criada cabo-verdiana, mulher decidida, convencera-se que a Patroa estava possessa e fê-lo sentir aos primos: a Patroa precisava de um exorcismo que ele administrou ao seu modo.

A Escritora, presumivelmente violada e em estado traumático, teve de recolher ao hospital para exames. Tendo a criada sido presa por cumplicidade e permanecendo o agressor a monte, a Escritora, depois de se restabelecer, exige ao amigo solteirão que lhe arranje dois marginais competentes para, desta vez, fazer mais que uma simples “barrela” ao rapaz.

O amigo solteirão, desesperado, lá lhe faz a vontade e o rapaz, num dia preguiçoso, é alvo de uma tentativa séria de assalto, à saída da Redacção do jornal.

Ora a jovem mãe, colega do rapaz e, ao contrário deste, mais bem sucedida no Jornal, onde o Director acabara por desviar as forças mobilizadas pela Escritora e pelo seu amigo solteirão, contra o estagiário (erigindo-o como bode expiatório da campanha difamatória) ia a sair naquele preciso momento. Sem pensar, interpõe-se, quase inconscientemente, entre os assaltantes e o rapaz.

Após ter sido envolvida e tentada com a promoção social que a Escritora, entretanto lhe oferecera para saber os movimentos de quem continuava a ridicularizá-la, esta jovem mãe assume, naquele momento inesperado, o sentimento mais do que ternura que alimentava pelo seu desafortunado colega e leva com a facada que era dirigida ao rapaz.

Pouco depois, no carro onde ele e os colegas correm com a jovem mãe para o hospital, ela esvai-se em sangue e compreendem ambos por fim, o sentimento que os unia há muito tempo. Mas tarde demais...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O mundo pequeno do caso Freeport

in jornal "Público", de 14.02.2009, por Clara Viana

Os Governos de António Guterres funcionaram como epicentro, mas não só. De algum modo, no processo Freeport, investigadores e investigados cruzaram-se ali. Um deles teria sido escolhido para substituir Souto de Moura. Amizades? Ressentimentos? Coincidências? Um retrato de um mundo pequeno, num pequeno país.
Cândida Almeida: No centro do turbilhão
Coordenadora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP). Foi membro da comissão de honra da candidatura de Mário Soares à Presidência da República nas eleições de 2006. O DCIAP avocou, em Setembro passado, o processo Freeport, a cargo desde 2004 do Ministério Público (MP) do Montijo e da Polícia Judiciária de Setúbal. Por altura desta transferência já a polícia inglesa tinha iniciado diligências. Em Novembro, Cândida Almeida reuniu-se com magistrados e investigadores ingleses na sede do Eurojust, em Haia. O Eurojust, criado em 2002, é um órgão da União Europeia (UE) de cooperação judiciária em matéria penal, actualmente presidido pelo português José Lopes da Mota. Na reunião de Haia, Cândida Almeida terá tomado conhecimento do DVD, em poder dos investigadores ingleses, em que Charles Smith, sócio da empresa de consultoria Smith&Pedro, que intermediou o licenciamento do Freeport, admite alegadamente o pagamento de luvas a José Sócrates, ministro do Ambiente na altura em que a construção do outlet foi autorizada, em 2002. A responsável portuguesa recusou a proposta dos investigadores ingleses para a constituição de equipas mistas de investigação.
José Lopes da Mota: Alvo de inquérito
Procurador-geral adjunto e presidente do Eurojust desde 2007. Foi secretário de Estado da Justiça do primeiro Governo de António Guterres (1996-1999), na altura em que José Sócrates era secretário de Estado do Ambiente. O Eurojust é um órgão da UE, composto por 27 procuradores, que trabalha com casos de natureza criminal e tem como objectivo a cooperação entre magistrados com vista a alcançar-se melhores resultados na investigação. Terá sido esta a premissa para a reunião na sede do Eurojust, em Haia, entre os investigadores portugueses e ingleses do processo Freeport. O Eurojust foi uma das entidades pelas quais passou a carta rogatória da polícia inglesa onde são pedidas informações sobre Sócrates.Sobretudo devido ao caso Casa Pia, em 2005, depois do regresso do PS ao poder nas legislativas desse ano, a substituição de Souto de Moura no cargo de procurador-geral da República figurava entre as prioridades da direcção socialista. Lopes da Mota chegou a ser um dos nomes falados para substituir o PGR, mas na altura foram tornadas públicas suspeitas de que teria fornecido a Fátima Felgueiras uma cópia da denúncia anónima sobre o "saco azul" socialista. O inquérito aberto pelo procurador-geral Souto de Moura foi arquivado por falta de qualquer tipo de provas nesse sentido. Na década de 80, tinha sido procurador em Felgueiras.
António Santos Alves: Ex-inspector do Ambiente
Magistrado do Ministério Público, representante português no Eurojust. É referido como um dos participantes na reunião de Haia em que os investigadores ingleses levantaram suspeitas sobre José Sócrates. Era inspector-geral do Ambiente em 2002, quando a construção do Freeport foi viabilizada pelo Ministério do Ambiente, então tutelado por Sócrates. Foi este, como ministro do Ambiente, que o nomeou para o cargo de inspector-geral em Dezembro de 2000. Manteve-se até Agosto de 2002, já Durão Barroso era primeiro-ministro. Foi substituído no cargo pelo chefe de gabinete de Sócrates no Ambiente, Filipe Baptista (actual secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro). Antes de integrar o Eurojust, em 2004, Santos Alves foi assessor da representação portuguesa em Bruxelas para a área do Ambiente, onde se reencontrou com Lopes da Mota. No início da sua carreira no Ministério Público, esteve também colocado em Felgueiras, na altura em que aquele era delegado na comarca.
Fernanda Palma: Nomeada pelo Governo
Professora catedrática da Faculdade de Direito de Lisboa, é membro do Conselho Superior do Ministério Público (CSMP). É um dos dois membros nomeados pelo Ministério da Justiça para este órgão de cúpula do MP. Foi escolhida para substituir o procurador-geral adjunto António Rodrigues Maximiano, marido de Cândida Almeida, que faleceu no ano passado. Já este mês, o CSMP solicitou a averiguação "urgente" de eventuais irregularidades na investigação do processo Freeport. É casada com o ministro da Administração Interna, Rui Pereira.
Rui Pereira: Tutela os Serviços de Informação
Ministro da Administração Interna, tutela, por delegação de competências do primeiro-ministro, o Serviço de Informações de Segurança, agora no centro de mais uma polémica devido a suspeitas levantadas por magistrados e procuradores ligados ao processo Freeport de que estariam sob escuta. A convite de Jorge Coelho, foi director do SIS entre 1997 e 2000, ano em que assumiu a pasta de secretário de Estado da Administração Interna. Em 2005, era membro do CSMP, foi um dos "escutados" no âmbito do caso Portucale. As escutas foram autorizadas pelo juiz titular do processo, Carlos Alexandre, que tutela também agora o processo Freeport. Rui Pereira foi "apanhado" a falar com o seu "irmão" da maçonaria Abel Pinheiro, antigo responsável pelas finanças do CDS, acusado de tráfico de influências. Nas conversas, divulgadas pelo semanário Sol, daria conta a Abel Pinheiro de que tinha sido convidado por Sócrates para substituir Souto de Moura. Este só saiu no final do mandato, um ano depois. Para o seu lugar foi designado Pinto Monteiro.
Júlio Pereira: O homem das informações
Procurador-geral adjunto, secretário-geral do Serviço de Informações da República Portuguesa desde 2005, por nomeação de José Sócrates. Coordena o Serviço de Informações e Segurança (SIS) e os Serviços de Informações Estratégicas de Defesa (SIED). Rui Pereira escolheu-o para seu adjunto quando dirigiu o SIS entre 1997 e 2000.
Carlos Alexandre: O superjuiz
Juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal, passou a ser titular do caso Freeport desde que o inquérito foi avocado pelo DCIAP, em Setembro passado. Foi ele que presidiu pessoalmente às buscas desencadeadas no mês passado. É o homem dos grandes processos: BPN, operação Furacão (fraude fiscal), caso Portucale (processo de tráfico de influências que levou à viabilização, nos últimos dias do Governo de Santana Lopes, de um empreendimento turístico do BES numa zona de montado, protegida por lei). Foi-lhe garantida segurança pessoal em 2007 depois de um assalto a sua casa, mas, em Novembro passado, foram tornadas públicas notícias de que esta lhe iria ser retirada. A PSP negou. Carlos Alexandre, que autorizou e conhece o teor das escutas telefónicas relacionadas com a operação Furacão e caso Portucale (o ministro Rui Pereira foi um dos "apanhados"), é um dos magistrados ligados ao Freeport que terá manifestado suspeitas sobre a possibilidade de também estar sob escuta.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

sábado, 4 de outubro de 2008

147/260


Parte 2

Parte 3

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Parte 5

Parte 6

Parte 7

Parte 8

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Kit para o Jarmelo

(exposição na Assembleia Municipal da Guarda no dia 30 de Setembro de 2008)

Contrariamente ao que se possa pensar, quase todas as intervenções que aqui tenho tido, poderiam ser interpretadas com e não o contrário.

Vejamos que faço aqui apelo ao equilíbrio que deve haver pelo menos na mesma unidade geográfica/administrativa.

Alguém aqui é contrário à igualdade de oportunidade ou condições de vida entre as gentes do mesmo concelho?

Volto aqui a reafirmar que aquilo de que nos queixamos em relação ao Litoral(Lisboa) é à mesma escala (ou até maior o abismo) verdade em relação ao próprio concelho.

Como não temos escola primária, não podemos lançar o Magalhães… também não temos mar… nem sequer água para todos.

O lançamento (apresentação pública) que hoje aqui fazemos é um Kit.

Um kit para visitantes a terras do Jarmelo (pois os que lá moram… amanham-se de outras formas, talvez herdadas desde antes da nacionalidade.

Trata-se de um kit de necessidades básicas, como disse, mais dirigido aos que visitam ou se pretendam instalar nas terras do Jarmelo.

Este kit é composto pelas analogias que seguem:

- Garrafa de água, que analgésicamente substitui a própria torneira ou contador.

- Papel higiénico, que analgésicamente substitui o saneamento

- O paralelipípedo granítico, que por analogia substitui o piso das ruas e acessos.

Embora se diga tratar-se de um analgésico (pelo menos é o que diz a embalagem) e como não sei o que significa… aviso que nenhum dos componentes, deve ser entendido como supositório.

O uso deste kit, é da exclusiva responsabilidade dos utentes.

A obtenção deste kit, não isenta a cobrança pela C. M. Guarda da taxa (ao que parece de 200€) referente à fossa, que se cobra a quem quiser fazer uma habitação nessa aldeias que não têm saneamento.

Será que esta taxa deve ter como objectivo diminuir a percentagem de habitações sem saneamento? Pelo raciocínio lógico quem não tem casa, também não tem falta de saneamento nem de água ou piso.

Quanto à validade deste kit; este género de produtos, expira a cada 4 anos que passam.

O Jarmelo, desde o tempo de D. Afonso IV (pai de D. Pedro) deixou de ter influência… Basta recordar que um dos conselheiros reais da altura (equiparado hoje a amigo pessoal de Primeiro Ministro) de nome Pêro Coelho, era do Jarmelo… daí para cá… D. Pedro mandou destruir a vila do Jarmelo e salgar como castigo, as suas terras; dizem por lá as pessoas que desde então, pouco ou nada tem acontecido de relevante.

Guarda, 30 de Setembro de 2008.

Agostinho da Silva

(Presidente da Junta da freguesia de S. Pedro do Jarmelo)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Albert Cossery

Os Homens Esquecidos de Deus (1940)
A investigação policial deu origem a uma descoberta sensacional. Não a do assassino, que não tardou, mas uma descoberta de outro interesse, profundamente humana. O vendedor de hortaliça tinha sucumbido, ao que parece, sob a pressão fortíssima de um penico em Terracota que lhe atirou à cabeça, da janela do seu pardieiro, Radwan Aly, o homem mais pobre do mundo. A profunda humanidade do acontecimento residia no seguinte: o penico com que Radwan Aly tinha atingido o vendedor era o único bem, o único móvel da sua casa, e não hesitara em sacrificá-lo para salvaguardar o sono de toda a rua. Perante um tal sentido do sacrifício, até os próprios polícias ficaram confundidos.

A Casa da Morte Certa (1944)
Parecia que a casa, não contente por desabar, encerrava, nas suas profundezas, um espírito doentio que alimentava a perturbação das almas. Com o seu silêncio hostil, Rachwan Kassem exercia uma influência oculta verdadeiramente devastadora. A todos quantos o foram ver tinha oferecido o espectáculo de um homem submetido às piores dores, congeminando vinganças inflexíveis e tenazes. A atitude enquadrava-se com a personagem, mas, desta vez, ultrapassava as medidas. Chegaram a odiá-lo e a desejar a sua morte imediata, a fim de poderem respirar.

Mandriões no Vale Fértil (1948)
Se o mundo se transformou numa coisa mal-humorada, isso deve-se, sem dúvida, ao facto de agora ser preciso muito dinheiro para viver. A vida é muito simples, mas tudo conspira para a tornar complicada. É quando nos vemos livres da ambição do dinheiro, do orgulho ou do poder que a vida se revela formidável.» A mandriice, longe de ser um defeito, é cultivada como uma flor rara e preciosa pelas personagens deste livro. Galal, o filho mais velho, é considerado o mais sábio de todos porque passa a vida na cama desde há sete anos e só se levanta para ir à mesa. Rafik, o do meio, renuncia a casar-se com a mulher que ama temendo que ela perturbe para sempre a doce sonolência que reina lá em casa. Como terá Serag, o mais novo, a loucura de ir trabalhar para a cidade? Porque a verdade é esta: o trabalho só pode engendrar desordem e desgraça.

Mendigos e Altivos (1955)
Por intermédio da personagem central, Gohar, ex-professor universitário de Literatura e Filosofia, mendigo por decisão própria, conduz-nos a uma visão do mundo civilizado, enquanto inutilidade orgânica, num explosivo cocktail de escárnio e reflexão.

A Violência e o Escárnio (1964)
Numa cidade do Próximo Oriente, governada por um tirano grotesco, um pequeno grupo de contestatários, trocistas e cépticos, decide combatê-lo pondo-o a ridículo. Para isso, espalham por toda a cidade um belo cartaz contendo o retrato do governador e um texto tecendo os maiores louvores à sua acção governativa. Inventam assim uma nova forma de acção política...

Uma Conjura de Saltimbancos (1975)
Todos os países tinham o seu contigente de imbecis, de sacanas e de putas. Era preciso ser um débil mental para acreditar que se passavam coisas importantes noutros lados. A única diversidade era a da linguagem e a única novidade era que os mesmos imbecis, sacanas e putas se exprimiam numa língua diferente. Medhat recusava-se a absolver a aberração dos que aprendiam toda a espécie de idiomas estrangeiros a fim de penetrar o sentido das mesmas palermices que podiam ouvir na sua terra, sem precisar de se deslocar e gratuitamente. Pela sua parte, nunca se sentira tentado a percorrer o planeta à procura se sensações ditas transcendentes por se situarem em hemisférios distantes. De que servia mudar de continente, aspirar a outros climas, se não se conseguia ver, em primeiro lugar, o que se passava à nossa volta?

Uma Ambição no Deserto (1984)
O xeque Ben Kadem, Primeiro-ministro do emirado de Dofa, interroga-se sobre como conseguir um papel na cena internacional, encontrando-se ele à frente de um Estado miserável, completamente eclipsado pelos Estados vizinhos, produtores de petróleo. Inventa um estratagema: simular atentados à bomba, reivindicados por uma denominada Frente de Libertação fantasma. Tal medida corre o risco de fazer despertar a simpatia por parte de movimentos revolucionários internacionais e a inquietação dos grandes poderes tutelares. Para executar o seu plano, recorre a um jovem aventureiro, Shaat, que retira da prisão onde este cumpria pena por tráfico de ouro. Shaat passa a fabricar as bombas que Mohi se encarregará de fazer explodir. Mas o controlo desta falsa vaga de terrorismo escapa ao Primeiro-ministro, e Mohi - nem mais nem menos do que o seu próprio filho - é morto pela explosão prematura da bomba que transporta.

As Cores da Infâmia (1999)
O que mais agradava Ossama era contemplar o caos. De cotovelos apoiados no corrimão da passagem aérea cujos pilares metálicos rodeavam a praça de Tahrir, ruminava ideias atrevidamente contrárias aos discursos propagados pelos pensadores oficiais, os quais garantiam que a paternidade de um país estava subordinada à ordem. O espectáculo que tinha diante dos olhos condenava sem apelo essa afirmação imbecil. Desde há algum tempo que aquela construção, imaginada por engenheiros humanistas para evitar aos infelizes peões os perigos da rua, lhe servia de observatório panorâmico, reforçando a sua íntima convicção de que o mundo poderia continuar indefinidamente a viver na desordem e na anarquia.

Conversas com Albert Cossery (1995)
O escritor egípcio Albert Cossery conversou durante horas com Michel Mitrani das origens da sua obra e das influências e amizades literárias que atravessaram a sua vida. Nascido em 1913, Albert Cossery vive, desde 1945, em França onde publicou a maior parte dos seus livros. Os escritos de Cossery lançam um forte desafio à preguiça e à reflexão neste mundo de superprodutividade. Com o seu incomparável olhar sobre os costumes e atitudes contemporâneos, Cossery convida o leitor ao despojamento e ao riso como forma de subverter os valores dominantes, que alienam e oprimem as mulheres e os homens do nosso tempo.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O vómito (2)

(...) Excluo desta caracterização os epifenómenos criados pela voragem mediática, embora não a sua linearidade enquanto pano de fundo. O que se passou então? A investidura no reconhecimento público resulta de um deslumbramento, de um desejo alucinado de amor (lembram-se de "O Perfume"?), os mesmos que os media se prestam a alimentar, condicionar, e mais tarde destruir, se for o caso. Quem adquire a notoriedade sabe que tem um preço a pagar: cumprir o que se espera dele, sob pena de deixar de existir. Veja-se o caso de Luiz Pacheco. O "sistema" precisava desesperadamente de um "bobo da corte" e encontrou-o na personagem do escritor e editor. A partir daí, os media só queriam dele uma coisa: que o maldito dissesse umas "maldades". Nesta análise, notam-se já algumas diferenças entre o antes e o agora. Em síntese: hoje, a relevância pública perdeu o tom aristocrático, a independência; não resulta de um confronto ideológico ou colectivo; na grande maioria dos casos é puramente mediática, sem qualquer implicação social; resulta de um permanente compromisso; defende-se pela blindagem e não pela audácia; foge ao verdadeiro escrutínio público como o diabo da cruz, precisamente porque ele é a única condição para a transparência, a fluidez e a "inscrição", de que falava José Gil. Perceberam agora porque é que MST odeia os blogues? Precisamente porque lhe convém, como a muitos outros, uma redoma censória em volta da blogosfera, que garanta a sua domesticação e inoperância. No fundo, a imposição de medidas proteccionistas que impeçam o livre curso do mercado, da livre circulação das ideias. MST é o porta-voz de uma nomenklatura informal que domina o da opinião e da edição. Os livros que escreve é o que menos importa para o caso. Centremo-nos somente nesta imagem: um grupo de oligarcas defendendo o seu território, sabendo que não resistirá, por muito tempo, à verdadeira democratização do discurso público, à sua descentralização, à rede. Notável, também, a sua incapacidade em colocar a prudência à frente do pânico, ou seja, quanto menos se resiste, menos se pode temer.

sábado, 15 de março de 2008

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Comunicado

Excerto do comunicado do PSD - Guarda

Mas, nos dias que correm, parecem existir novos “grupos” noutras áreas. De facto, o PSD tem que realçar a forma como correu o “Julgamento do Galo” pois nos canais televisivos a Guarda ficou a ganhar. Questionamo-nos: a que preço?
Sabe-se que o grupo Todos à Roda apresentou um projecto, mas não ganhou a realização do evento. O grupo não teve, no entanto, possibilidade de negociar uma vez que rapidamente esse trabalho foi entregue à Culturguarda. O preço acordado foram os vinte e cinco mil Euros mais IVA, mas a despesa da CMG não ficava por aí, porque os funcionários da Câmara ajudaram à concretização do espectáculo. Porque razão essas despesas não foram incluídas no orçamento, ficando assim a empresa municipal em clara vantagem sobre o grupo que teve a ideia.
É notória a vontade que a Câmara Municipal da Guarda tem em financiar o TMG, dando-lhe cada vez mais poderes, sem os saber gerir em prol da cidade. Grupos culturais são ignorados, menosprezados com o objectivo claro de os aniquilar ficando assim, o TMG, rei e senhor de verbas oriundas da CM. que parecem não esgotar.
A contratação, por parte da Culturguarda, de grupos e actores fora da Guarda é a prova do que foi referido anteriormente. Os grupos da cidade são relegados para segundo plano, grupos estes que, não fazendo vida da actividade cultural, conseguem prestações que em nada ficam atrás dos que não sabem fazer outra coisa.
Deve por isso a Câmara Municipal tratar todos os seus munícipes de forma igual, olhando para as necessidades que apresentam com o objectivo de as resolver.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O nosso outro passado

Portugal é um caso de esquizofrenia histórica: tem dois passados. O mais antigo é quase sempre resumido a grandezas comemoradas com grande unanimidade. O mais recente, pelo contrário, fica-se por uma penosa crónica de decadência e opróbrio, que divide as opiniões e nos deixa desconfiados de todas as possibilidades. Nos últimos dois séculos, fomos sempre menos do que gostaríamos de ter sido: menos ricos, menos livres, menos unidos. (...) Entre outras questões, os portugueses dos últimos dois séculos tiveram de lidar com esta: a passagem da antiga monarquia absoluta para uma democracia moderna. (...) A chamado I República, entre 1910 e 1926, e o estado Novo, até 1974, tiveram isto em comum: chefes de Estado eleitos (directa ou indirectamente) e governantes determinados em usar a força para impedir qualquer alternância no poder. (...) A construção da actual democracia em Portugal foi feita não apenas contra o Estado Novo, mas também contra a I República. dependeu de uma nova cultura política, em que se admitiu o princípio de que a validade das eleições dependia mais das instituições e procedimentos do que das "qualidades" da população" (referindo-se ao sufrágio censitário em vigor durante o Liberalismo e a 1ª República). Dependeu também de se ter voltado a reconhecer novamente, como no tempo da monarquia constitucional, que a razão é algo distribuído a mais de uma opinião ou partido. Obteve-se assim um regime aberto a todos, e em que o voto de todos é a base da alternância no poder. Os exclusivismos, porém, deixaram herdeiros frustrados. Há quem ainda não tenha percebido por que é que não é dono desta democracia, tal como o PRP foi dono da I República ou os salazaristas do Estado Novo. Eis o que representam os contestatários da comemoração de D. Carlos.

Rui Ramos, no "Público" de 30.01.2008

domingo, 13 de janeiro de 2008

Balanxo

Para comodidade de leitura e de arrumação, imaginei duas cores para a Guarda, como se de um semáforo se tratasse. Cada uma delas contem os factos, tendências e ausências que, em meu entender, melhor definiram o ano que passou.
  • Verde:
  1. O Parque Urbano do Rio Diz, um equipamento de lazer que já faltava à Guarda. Espero que a sua localização num leito de cheia não traga dissabores;
  2. A sinalização de dois percursos pedestres em volta da cidade. Vamos ver se outros se seguem;
  3. O bom funcionamento das piscinas municipais;
  4. A oferta cultural do TMG, incluindo a produção própria. Apesar de no ano transacto a programação global ter decaído ligeiramente em termos de qualidade. Facto explicável, quero crer, pela conjuntura orçamental. A confirmá-lo, a programação deste trimestre vem repor os níveis a que estávamos habituados.
  5. A evocação da inauguração do Sanatório Sousa Martins, uma produção do TMG sob encomenda do Hospital. Um espectáculo que conquistou a adesão e o reconhecimento da cidade, para além de a ela ter atraído milhares de pessoas;
  6. O novo fôlego para a finalização da PLIE e o anúncio da remodelação do Hospital;
  7. A conclusão do Polis, apesar do que faltou e dos atrasos;
  8. A qualidade exibida por alguns estabelecimentos de diversão nocturna;
  9. Os muitos guardenses que, na sua cidade ou fora dela, continuam a marcar pontos na inovação, na investigação, na criação artística, no mundo empresarial, político e jornalístico.
  • Vermelho:
  1. A eterna entrada em funcionamento da ponte pedonal de S. Miguel e da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço;
  2. O abandono trágico a que foi votada a Rua do Comércio e o Centro Histórico, para lá das obras realizadas. No primeiro caso, parte dos espaços estão devolutos, por razões puramente especulativas. Por toda a zona, o comércio não tem horários diferenciados, não há estabelecimentos-âncora que sejam também pontos de encontro, mais-valias cívicas: livrarias, lojas de discos, de produtos tradicionais, um café amplo com serviço de qualidade, uma loja de conveniência, estabelecimentos gourmet, etc.
  3. O apoio miserabilista às colectividades do concelho, algo que tem debilitado a incipiente tradição associativa e a criação de valores culturais locais;
  4. A inexistência de incentivos ao investimento privado, local ou não;
  5. A não conclusão da VICEG;
  6. O desemprego que cresce na região;
  7. Certas acções de animação de rua promovidas pela Câmara, que nada acrescentam à cidade nem a ela associam eventos atractivos, diferenciados e de qualidade;
  8. A sisudez e o cinzentismo, que são, infelizmente, apanágio de muitos guardenses.

(publicado no blogue "Café Mondego", em 6.1.2006)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Artigo de Rui Ramos

O Portugal de Luiz Pacheco

Morreu Luiz Pacheco, aos 82 anos. Era um escritor que nem sempre conseguia ser bom, mas que, quando era bom, era muito bom - melhor do que a maior parte dos literatos contemporâneos, mortos e vivos. O Libertino passeia por Braga justifica os elogios. Fátima ou o amor louco, com apenas seis páginas na última edição de Exercícios de Estilo, é talvez a mais directa e melancólica história de amor escrita por cá no último século. Pacheco é datável, o que não o torna menos interessante para uma história intelectual do Portugal recente. No que disse e escreveu, estão os traços da colheita literária de 1945: por exemplo, o culto do "amor" e da "sinceridade". Mas está também um drama: o dos jovens intelectuais (Cesariny, O"Neill e outros) que, no pós-guerra, perante o nacionalismo salazarista e o neo-realismo comunista, resolveram desalinhar (o "surrealismo" foi uma das modalidades desse desalinhamento). Em Portugal, porém, o mundo custou a mudar, e eles passaram os trinta anos seguintes a ser moídos entre a ditadura política do Estado Novo e a ditadura cultural do PCP (bem explicada por Eduardo Lourenço). Com o diário de Virgílio Ferreira ou a correspondência de Jorge de Sena, as inconfidências de Pacheco fazem falar, de uma maneira violenta, essas longas vésperas da liberdade. Numa literatura colonizada por "antifascistas" e académicos, todos muito respeitáveis, Pacheco recorreu a outro estilo: o de Bocage, o do "desgraçado" que revelava, sobre si próprio e em público, coisas que os literatos portugueses geralmente só dizem dos outros e em segredo: faltas de dinheiro, alcoolismo, homossexualidade, prisões por delito comum. Arranjou até o "ismo" necessário para arrumar tudo isso: "neo-abjeccionismo". Nesta lenda do "escritor maldito", cuja desinibição saciou algum voyeurismo, havia algo de defensivo: sem quase nada a perder, pouco lhe podiam tirar. Só assim pôde conduzir a "guerrilha" que o tornou célebre. O grande segredo da cultura literária portuguesa era que, em privado, pouca gente do chamado "meio" levava a sério os "grandes autores" do momento. Em público, porém, todos faziam as esperadas genuflexões. Pacheco não. Imprimiu a "má língua", lembrou o prazo de validade de certas glórias oficiais. Reivindicou, contra a manipulação política da literatura, um "mercado livre das Letras". Através dele, muitos viveram atrevimentos que não ousavam. * Pacheco veio da classe média com criadas, cultura e acesso aos empregos do Estado. Preferiu viver como "libertino", versão clochard. Havia lugar para isso na sociedade portuguesa. Notáveis da província, como o Dr. Maldonado de Freitas, das Caldas da Rainha; milionários do Estado Novo, como Manoel Vinhas; políticos da democracia, como o Dr. Soares, pagaram-lhe quartos e medicamentos, deram-lhe dinheiro. Uns achavam-lhe "graça". A outros, a educação literária terá feito sentir obrigações. Ele aproximava-se (como no seu tardio acompanhamento do PCP, de cujas capelinhas literárias dissera o pior), mas ressalvando a ambiguidade necessária à sua reputação. Era um jogo cujas regras ele próprio descreveu. * Há dois séculos que a literatura portuguesa anda a tentar inventar imagens fiéis da "nossa terra". Quando se fizer o balanço dessa velha mania, ver-se-á que alguns dos esforços mais memoráveis são de Luiz Pacheco. Por exemplo, Porto-Lisboa a pedir esmola. Eis o resumo (versão de Exercícios de Estilo, a melhor): no Porto, decidido a ir de comboio para Lisboa, o autor só tem dinheiro para o bilhete até Soure. Tenta, com uma mentira, comover o chefe da Estação de S. Bento: espera-o em Lisboa uma pessoa de família doente. O chefe de estação percebe a vigarice, mas decide empurrar para a frente: que compre bilhete para Soure, e, em lá chegando, fale com o chefe do comboio. Em Soure, o chefe do comboio barafusta imenso, mas (e é o que importa) não o põe fora na estação, passando a chatice ao revisor. Este, sem vontade de levantar o devido "auto", tem uma ideia para "legalizar" o viajante: e se ele pedisse esmola aos outros passageiros? O próprio revisor chama a atenção da carruagem (de terceira classe, apinhada de gente, cestos e garrafões), e exibe o desgraçado: sem bilhete, em chegando a Santa Apolónia, irá preso (mentira). Todos se condoem: coitadinho. As moedas aparecem, o bilhete e a multa são pagos. Pela cabeça do autor passa a ideia de recorrer novamente ao truque da próxima vez que viajar.Aldrabice, aversão às responsabilidades, sentimentalismo: é um Portugal imaginado, mas a quem é que apetece dizer que não é verdadeiro?

in "Público", de 09.01.2008

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Escolhas Ipsilon

Uma Grande Razão, Mário Cesariny
Assírio & Alvim

Pais e Filhos, Ivan Turguéniev
Relógio d’Água

A Modernidade, Walter Benjamin
Assírio & Alvim

Memórias, Raymond Aron
Guerra & Paz

A Morte de Theo Van Gogh, Ian Buruma
Presença

Na Praia de Chesil, Ian McEwan
Gradiva

A Estrada, Cormac McCarthy
Relógio D’Água

Metamorfoses, Ovídio
Cotovia

Tudo o que sobe deve convergir, Flannery O’Connor
Cavalo de Ferro

As Benevolentes, Jonathan Littell
Dom Quixote

Século Passado, Jorge Silva Melo
Cotovia

O que foi passado a limpo. Obra Poética, Armando Silva Carvalho
Assírio & Alvim

Colecção da Obra Essencial de Pessoa, Edição de Richard Zenith
Assírio e Alvim

Todo-o-Mundo, Philip Roth
Dom Quixote

Poesia 1963/1995, Vasco Graça Moura
Quetzal

Aprender a rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares
Caminho

Shakespeare. A Biografia, Peter Ackroyd
Teorema

Orlando Furioso, Ludovico Ariosto
Cavalo de Ferro

A Rússia de Putin, Anna Politkovskaia
Pedra da Lua

Personas Sexuais, Camille Paglia
Relógio d’Água

Gente Independente, Halldór Laxness
Cavalo de Ferro

Balada para Sérgio Varella Cid, Joel Costa
Casa das Letras

Como falar dos livros que não lemos?, Pierre Bayard
Verso da kapa

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Crónica de Rui Ramos

(cont.) E depois, há o medo do tubarão. Sim, leram bem: o tubarão. Porque inesperadamente, castigando os seus adversários, Menezes diz isto: “Há dois anos, algures no deserto de Omã, deitado ao luar a olhar para as estrelas, tive tanta pena destas pseudo-elites liderantes do meu Partido, cujo único deserto a que chegaram nunca está a mais de dez quilómetros da sua casa, que nunca tiveram frio à noite no deserto, que nunca tiveram medo de um tubarão...” [...] Não quero ridicularizar Luís Filipe Menezes. Mas não me importaria de ridicularizar esta imagem de Indiana Jones à moda de Gaia que Menezes pensa que lhe convém dar de si próprio. Ou de ridicularizar os conselheiros que o deviam demover destes lapsos. E tudo isto merece comentário, porque há na história do tubarão mais do que ingenuidade ou distracção: há uma estratégia política. [...] Eis a política reduzida a um jogo de espelhos. Peter Schlemil perdeu a sombra. No caso dos nossos políticos, ficaram as sombras e desapareceram as pessoas. E as sombras escondem muita coisa. [...] Talvez por isso, temos visto Menezes a fazer o possível por não se definir: a ameaçar e a retirar as ameaças, a dizer e a desdizer-se, a ser uma coisa de manhã e outra à tarde. Assim vai criando uma imagem de movimento sem precisar de sair do mesmo sítio. Talvez lhe baste ser o suplente de Sócrates. Ousaria ser mais, sem o trauma do tubarão? O do Spielberg era de borracha. E o seu, dr. Menezes? Se era amarelo e foi a sua mãe que o pôs na banheira, não devia ter tido tanto medo.»

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A esquerda bloqueada

(cont.)... De resto, se não me engano, é precisamente em alguns regimes islâmicos, de que a esquerda niilista tanto gosta, que existe pena de morte para os homossexuais. O presidente iraniano - outro herói da esquerda esquizofrénica, só porque ousou afrontar a sede de todo o Mal, os EUA - decretou mesmo que não existem homossexuais no seu país!... Todavia, Daniel Oliveira no seu artigo pugna pelo fim das anedotas com a "panaleiraje". Portanto, nos países "amigos" podem-se matar, tudo bem. Aqui, não se podem contar anedotas sobre eles!... Perceberam? O delírio não tem limites para esta gente... Ficam pois avisados: da próxima vez que contarem uma anedota que aluda a práticas de "homens chexuais, je, je", têm a Inquisição Espanhola à porta (como no celebérrimo sketch dos Monthy Python), com o Daniel y sus muchachos pedindo contas ao prevaricador. É que as coisas andam mal para os lados do Bloco de Esquerda. Que se tornou uma espécie de muleta do PS. Já perceberam que "não vão lá", pelos meios normais em democracia": eleições, credibilidade, seriedade, ampliação da base de apoio, entrada no mundo sindical. Recorrem então às causas fracturantes. As tais que nunca exigem muito trabalho: são ideologicamente inatacáveis, a opinião pública está "receptiva", a comunicação social "adora, sei lá", os partidos de esquerda ficam amarrados ao tema, durante a discussão na AR. Eis o melhor da tal esquerda que se posiciona na política como num show mediático. Não se interessa realmente pela realidade humana que diz defender. Só lhe interessa que a opinião pública acredite que sim. E que está pronta a negar qualquer evidência de barbárie, de genocídio, de fascismo teocrático, de atropelos aos direitos humanos, desde que provenientes de regimes hostis à democracia ocidental, o maior mal de todos, segundo ela. Como exemplo, veja-se o guru desta esquerda de cabeça perdida, Noam Chomsky: 1º apoiou um historiador revisionista francês que negou a existência do Holocausto. A única explicação é que estas luminárias julgam que a "desnazificação" tem que ser feita no Ocidente, e nos EUA em particular. Quando se deparam com o verdadeiro nazismo, dão-se mal, porque para eles já deixou de ser o mal absoluto. Substituído, na sua agenda, como se sabe, pelo "capitalismo hegemónico"; 2º Negou a existência das atrocidades do regime de Pol Pot e seus Kmers Vermelhos no Cambodja. Tendo afirmado que se limitaram a dar umas resposta aos bombardeamentos americanos, durante a guerra no país vizinho; 3º Negou a limpeza étnica praticada pelos nacionalistas sérvios na Bósnia. Chegou mesmo a corroborar que as imagens de Sbrenica e de outros campos de concentração, os relatos dos sobreviventes e os relatórios das autoridades, ONGs e jornalistas não passavam de uma orquestração do governo bósnio para enganar o Ocidente. O BE precisa de causas como do pão para a boca. A próxima será, é claro, a "homofobia", o casamento entre homossexuais, etc. Muito ruído, como é de prever. A ideia é, obviamente, procurar obter um estatuto de excepção para cidadãos que são iguais a todos os outros. Excepto naquilo que fazem no domínio da sua vida privada. O que dispensa, por definição, a necessidade da existência de provedores, de curadores, ou, muito menos, de quem os "defende" só por razões de cálculo político.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Sobre o acordo ortográfico*

Contra os arautos de uma unificação forçada, afirma MEC: "A lusofonia é uma espécie de estereofonia, só que é melhor. A estereofonia funciona com dois altifalantes, enquanto a a lusofonia funciona com mais de 100 milhões." Sobre as alterações propostas, é peremptório: "se a lusofonia é uma cacofonia de expressão oficila brutoguesa, a tortografia consiste fundamentalmente no conceito de cacografia". Mais à frente, exemplifica como se escreverá o português, quando o Acordo entrar em vigor:
"A
adoção exata deste acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileira, com a ajuda entristorica dos diretores linguisticos sãotomenses e espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que não sabem distinguir uma reta de uma semirrecta, dizem que as bases adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo menos, extraumanas. No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos santo Antonio, mas sem mais maiúscula. A escrever »O mano, que é contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não é sobreumano«? O que é que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar)? A tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?"
Aproveita ainda para rebater o argumento, utilizado pelos defensores do Acordo, de que "a língua portuguesa é a única das dez línguas cultas do mundo que apresenta ortografias diferentes", recorrendo ao caso do inglês. A ortografia inglesa e a americana, como se sabe, apresentam algumas diferenças. E nunca se procurou unificá-las. Ora tomando este exemplo, conclui MEC: "a unificação ortográfica não é uma condição para o intercâmbio cultural. (...) a grande diferença entre um país enorme como os EUA e um país pequeno como o Reino Unido em nada prejudica o entendimento entre eles. No caso do Reino Unido, garante importantíssimas existências culturais (como a indústria editorial, que invariavelmente publica livros americanos com ortografia inglesa) e permite a sobrevivência de uma tradição ortográfica à qual os Americanos poderão sempre recorrer, até para alterarem grafias suas."

* Miguel Esteves Cardoso, "O Acordo Tortográfico", in "Explicações de Português" (Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001)

domingo, 18 de novembro de 2007

Almoço micológico

Sopa de Lentinos
Creme de Boletos

Tarte de Agáricos
Patê de Pleurotos
Balotina de Frango com Tricolomas
Guisado de Fistulinas
Pleurotos "Mimosa"
Cantarelos à Moda de Nice
Cornucópias da Abundância à Moda do Jura
Salada Mista com "Amanitas"

Tarte de Queijo Trufada
Bavaroise de Manga "Amanita"
Mousse de Chocolate
Compota de Frutos Secos
"Strudel" de Tricolomas

António Lino, 17 Novembro 2007

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Comentário

ti Risco disse...

Boníssimo ambiente do dirigente dominar e cavaquear com a figura do bailéu de anteriormente, lobriga pelo espelho, sem que se tenha de converter. O que a encaminhar é chato.
Como ensinamento administra para retocar a pintura no meio do trânsito, Calha sempre bem ter um bom ar da Egitania.
Serve essa imagem igualmente para ir dando uma vista de olhos sobre quem vem na quarenta atrás, nunca se sabe onde se pode encontrar a princesa encantada.
Os artesãos servem-se deste exemplar para olhar para a cara de quem vem no tal carretel após e acção em aceno pouco faladores e coisas afins, e se virem uma "gaja": mandar piropo muito aflito!
Ah, e agrada também para carrear em afoiteza. Na limite em que anui uma fantasia ajuizada do trânsito que vem atrás da dependência e assim atribuído ao pára-raios estar sempre alerta.