A Aversão (2ª parte)
II
A meio da manhã, foi fazer compras. Atravessou o jardim até à garagem pela trilha de pedras, como se caminhasse já pela rua central de Cascais. Olhou de relance o jardim e viu a piscina onde o filtro mergulhava como um animal pré-histórico a beber. Achou que assim estava bem, deixava a casa numa perfeita tranquilidade ( “pax tranquilla libertas est” já dizia o Cícero). Sentiu-se agradecida a Deus por viver naquele sossego, longe da brutalidade de Lisboa. No entanto, quando punha o carro a trabalhar, subiu-lhe uma comoção profunda pela cana do nariz e desaguou num pranto inexorável. Baixou a cabeça de modo a que o chapéu de aba larga lhe ocultasse a cara e... chorou mesmo. “Meu Deus! Como é possível!?”, bramiu, enquanto desferia os punhos no volante. Sentir-se observada daquela maneira, esquadrinhavam-na a cada canto da sua vida íntima, a perseguiam-na a cada segundo!”. Será que a inveja pairava no ar, era o anjo da Morte dos primogénitos, depois das pragas da brutalidade e da falta de educação generalizadas?! Porque é que a perseguiam daquele modo quando escrevia? Sentia os dentes de predadores rangendo nas obscuridades daquela Lisboa de falhados, sentia o catarro de aves absurdas preparando-se para romperem o silêncio, à gargalhada. Tinha a alucinação de que passava numa floresta de espinhos em camisa de noite e uma das fímbrias prendia-se, ela não conseguia libertá-la, ficava nua e esfarrapada à vista das árvores ululantes ( devia andar a ver demasiados vídeos...).
Meu Deus! Tinha de se dominar! Era uma mulher dura! E fria! Não podia deixar-se vencer por estes pânicos sem razão. À noite, isso implicaria no relacionamento conjugal. E começaria logo ao fim da tarde, quando o marido chegasse. Tinham assinado com os olhos um pacto tácito para não jogarem os temores que traziam da rua, na mesa de jantar. Antes de se sentarem à mesa tinham de estar completamente libertados dos pesos do exterior. Se o jantar tardasse, iriam dar uma volta, ao jardim ou às traseiras. Os ligeiros atrasos, por ordens desencontradas e terrores de polémica, tinham valido uma úlcera à Muana. Nem fora preciso falar para que se convencionasse assim. Cerrou os punhos e levantou os joelhos, dominando o próprio exaspero. Ah, Meu Deus! Como sentiu saudades da ordem antiga, dos velhos casarões onde refulgia sabiamente o cristal antigo, onde até a luz das pratas se amassava sob a demão lenta do tempo. As mulheres de outrora, caminhando de sala para sala, reflectindo nas contas da casa, sempre de olhos nos filhos, sabendo em silêncio, não cada passo que davam, mas cada estado de alma, actualizando sempre as tendências que tinham experimentado, ainda ao peito, nos primeiros gestos ou sorrisos.
Ao entrar na loja do costume, deu-se conta que tinha de ir a uma festa. Encarou com calma todas as providências a tomar. O que ia levar, o encontro com o marido em plena sala, ele já de copo na mão... era aliás incomparavelmente elegante acercar-se dele assim, falar-lhe de um modo que espalhava sensação em torno! Ah!... e o som dos fotógrafos a disparar os “flashes” ( mesmo quando era uma máquina registadora a trabalhar...).
Mais nada lhe ocupou a cabeça até ao fim da tarde. Tinha uma lista de coisas para a casa: condimentos, um tempero francês, bolinhos de sândalo, um creme de dia e outro de noite para a Pi, um boné a dizer “Eu amo Nova Iorque” para o Ni, um eliminador de odores para tabaco e um saquinho de alfazema que já não se encontrava em lado nenhum porque já não se fabricavam (sinceramente!!!).
Deixou tudo nas mãos da criada, incumbindo-a laconicamente de ter aquilo tudo à noite. Era para isso que serviam as criadas, afinal. Quando se afastou para ir ver se o fato saia-e-casaco cinzento servia para a recepção, não deu conta que a criada, abúlica, olhava a lista de pernas para o ar.
Ao chegar ao pé do Continental ia tendo uma depressão. Depois de andar meia hora ou mais à procura de lugar, descobriu que o porteiro lha fazia sinais. Era um rapaz todo bem posto, músculos proeminentes sob a farda óbvia tipo Disneilândia, de olhos azuis com aquela “faísca” militar que, infelizmente, o marido nunca patenteara. Todo solícito, esperou que abrisse o vidro (os carros atrás apitavam, contraía-se-lhe o fígado imaginando íris sequiosas nos olhos cegos do pára-brisas) e gaguejou: “Se a senhora quiser, deixe-me a chave, que eu procuro lugar. A senhora vem para a recepção da “Fama”, não é?”
Ela sorriu esfuziante e deu-lhe logo a chave. Apressou-se a dar-lhe também umas indicações sobre a embraiagem que não estava a funcionar bem, o que daria uma conversa de garagem ou de telenovela picante tipo “A senhora e o mecânico” que o rapaz cortou logo para canto, fungando brasas e estalando os dedos. Depois, saiu apressada, meneando os joelhos e mordendo os lábios, visto que pisava o território selvagem de Lisboa.
Uma comodidade extemporânea relaxou-a. “Como era boa ideia porem aquele rapaz à procura de lugar!” Certos hábitos antigos renasciam dos escombros e isso dava-lhe espontaneamente uma das sensações que mais procurava: a da longevidade das instituições, no topo das quais os gestos eram todos cheios de flores e de nobreza (mas também uma sanha de gato só de pensar que lhe queriam roubar esse mundo!). Bom, inquietações à parte, tinha a certeza que ia encontrar um ambiente a condizer consigo, lá em cima.
Ao subir, encontrou a Mi, a mulher daquele negociante francês que brilhava em todos os salões, quase sempre sem o marido. Deram três beijinhos supinos, com uma animação que teria suscitado as imprecações dos antigos carrejões e os “ahh!” dos viciados no olhar, mais conhecidos noutros meios por voyeurs (ou “espreitas”). Mas agora, a cidade era um campo de asfalto eriçado de gafanhotos com três olhos e um pavimento móvel de lata, platinados e berros que semeavam o deserto nos espaços. Cirandando entre os carros, já não havia carrejões, nem “espreitas” tropeçando dramaticamente das falésias mas miúdos bem vestidos acercando-se com um ar alucinado e dizendo que precisavam de certo montante para uma agulha, a reverter oportunamente, já.
O musculoso porteiro estacionara o carro em dois palmos de passeio, um pneu no ar, bloqueando dois já estacionados. Saía compondo as abas do uniforme e inspeccionando a rua sem medo, apenas com consideração. O guarda do banco acenou-lhe e o porteiro esvaziou o peito devagar ostentando o mesmo ar satisfeito, de riso latente e olhos brilhantes com que ia abrindo e fechando as facilidades daquele perímetro e o direito de olhar para o céu, a única coisa clara ali à vista desarmada. Tinha momentos em que não fazia nada e, assim, à beira-mar, com uma rotina de aventuras não só futebolísticas e uma mulher prometida desde a infância, já ninguém o tiraria dali, a não ser a reforma.
Isto tudo se via de longe, enquanto a Mi a empurrava pelas escadas acima. À entrada, tinham sido apanhados pelo fotógrafo da revista mundana do costume. Ela fez para a lente um ar bem estudado enquanto a Mi se compunha subitamente numa posição de descanso, de quieta serenidade, puxando um cilindro de ar divino da cabeça até aos pés. A gesticulação de colégio, entre ambas, ficaria fixada para a posteridade, por graça de uma disposição instantânea treinada várias vezes naquelas mulheres que atravessavam o passeio, uma sorrindo como quem a mirasse de olhar pandos, outra enfrentando o auditório dos súbditos que nela cobravam, narinas frementes e olhos esbugalhados, a essência do esplêndido. Via-se dois dedos do joelho moreno esticando a saia. Podia-se imaginar o corpo enxuto, fulminante e já se adivinhava a boca sedenta, de lábios recolhidos para dentro, que se esticariam, com o tempo, até ao esgar, quando a embirração espremesse o seu quinhão de lágrimas. Por agora, os pingentes razoáveis e as pulseiras que as miúdas usavam, a alternância entre o castanho da pele e a brancura da camisa, davam-lhe um ar muito desportivo, de rainha egípcia em saiote. Mas já algo nela era corcunda e sequioso, já algo nela era usado e vendilhão como quem toma o embaraço do comprador por um sacrilégio. Era engraçado, diria um observador, como a boca entreaberta nela, a mistura de impressão e rejeição em toda a figura, se tornariam com o tempo numa espécie de quilha, remoendo as palavras. Os seus últimos gestos de velha seriam de certeza, já sem dentes, abrir e fechar a boca muda, como um papagaio atónito, de penas eriçadas e arrancar em terceira...
Depois, apareceu um homem. Era o negociante francês que, afinal, desta vez, vinha acompanhar a mulher. A sua figura, a cada passo, não descompunha o vinco das calças, e era como uma queda vertical na depressão. Ao cabo dela, com os cabelos já encanecidos, um balão branco com duas azeitonas pretas e um rabisco ofendido, torciam-se até às lágrimas.
Ao invés, a entrada de ambas, era fenomenal. Já tinha passado o tempo dos braços no ar e dos enlaces sonoros. Já ficavam mal as gargalhadas e os gritos histéricos de estapafúrdia. Agora todos se deparavam num engelhamento cúmplice porque permitia que cada palavra fosse um gesto de solidariedade. A “solidariedade”, agora, estava na moda. E as reportagens também. Havia aventureiros de corredor de repartição pública com o copo na mão, mesmo atrás, escondidos por umas braças respeitáveis de “tweed”. Além disso, estas recepções de fim-de-tarde ainda não tinham chegado à intimidade, estavam naquele passo em que a pele se revoltava contra a frieza da mármore, se arranhava nas colunas de betão e as Instituições Públicas não eram ainda nossas, as mucosas dos lábios não se tinham habituado a gostar de sal e os tornozelos a serem furados pelas esquinas de aço das secretárias pós-modernas. Havia muitas escorregadelas e sequências de acidentes estúpidos. Por isso, todos caminhavam com cuidado, porque a superstição uivava...
O clamor da recepção já fazia recear quem viesse ainda a meio das escadas. E a quem chega, os olhos fixam-se com calma, mas com nitidez. Há um vislumbre súbito de que são todos uns “fôfos”. Nada mais falso, sabia ela. Tirou o chapéu e deixou-o nas mãos dum indivíduo carrancudo que se esforçava por não parecer criado, correndo para o bengaleiro e correndo mais depressa a aninhar-se noutro sítio, onde escondia os manuais da Universidade.
Em breve, a Mi se despedia. Quanto a ela não lhe faltava com quem conversar. Acercou-se logo do Director do “Europa”, um acossado, e, mirando-lhe subtilmente os sapatos, articulou-lhe uma piada só para ele, acerca da Integração na Euroupa. Ele inclinou-se, é claro, pois não era dos que passasse à vénia por ironia depois de ter tentado alguma coisa.
Antes pelo contrário, era dos que se curvava logo, por precaução, fendendo o peito com a mão desocupada do cumprimento e deixando a voz estalar como colheradas de geleia. Com aquilo, dizia: “Minha senhora, como eu sou humilde curvo-me à senhora, queira desculpar não saber se a estou a cumprimentar como deve ser mas eu sou uma pessoa muito humilde” e, ao repetir aqueles despojamentos até ele próprio estranhar, sabia ela muito bem que era para a isolar e segregar aparatosamente. Mas ela insistia, simulava uma conversa e virava-lhe as costas à primeira oportunidade com um sorriso de rainha cumprimentando laboriosamente o povoléu. Depois de proceder a isto, que considerava as suas desfeitas, era capaz de se sentar num canapé, ou no que houvesse, e mostrar aquilo que considerava o seu fabuloso joelho ebúrneo, como talvez as costas da Maria Eduarda a estrear um salão d’ “Os Maias” e também de acordo com um soneto descabelado dum colega universitário que não seguiu as Letras. Aí, a cabeça desfiava-lhe pensamentos aparentemente importantes, cabalas que ela julgava ser ciência e cultura só porque alguém a impressionou sobre o assunto, fumando cachimbo, numa poltrona de couro. Era o momento das genealogias que alguém lhe fizera, como quem faz uma carta astrológica cheia de bons augúrios (ou agoiros). Todos os dias lhe descobriam mais um primo ilustre e, como nenhum problema se lhe punha, quando cruzava a perna e ajeitava as mãos, já tinha chegado à conclusão segura de que não era uma pessoa qualquer . Por conseguinte, quanto mais aprofundava, mais pressuposto “bom sangue” entretecia nos ramos da sua árvore.
O Director do “Europa” corria de um lado para o outro. E ela observava-o. Não via que ele se desgraçava a cada momento, agora já com os óculos escuros e o cabelo ligeiramente crescido atrás, tomando a posição do adolescente a qualquer personagem professoral e rabiando para que aquilo acabasse, deixando-o ir embora. Não via como ele, depois das gravatas institucionais e dos consensos geométricos que tinham levado a Revolução para a câmara de gás dizendo que era um duche, caía agora na segunda adolescência, apaixonando-se a cada “cocktail”, dando de barato a sua firme moral socialista-e-cristã e tremendo todo, já de um modo estranho, frente a um jovem de busto largo. Mas este era um mundo impiedoso, que ela nem via, disposta que estava no centro de outro sistema solar.
E, já que estamos na Astronomia, os satélites vinham fazer-lhe a corte. Falava-se de coisas importantes como a próxima festa em casa da Fulano de Tal ou na seguinte que, dois dias depois, seria na casa de Sicrano, o tal. Falou-se de roupas, mas brevemente, só por causa da jovem Bi que se iniciara nestas andanças (e noutras também...). Ela gabou-lhe o corpo, sem escolher as palavras. Nestas coisas era muito directa, muito rapariga! E soltou um riso fresco! Achou que a jovem estava com uma cinta formidável e tinha um bronzeado apetitoso. Ela sabia-o porque se apercebia da maneira como os homens perdiam a memória quando a moça, rodando com ódio a si própria, lhes oferecia à vista tudo o que bastava, mesmo se desse um grito ou lhes arrotasse em cima.
Sentou-se ao lado e fez-lhe um grande sorriso, pousou-lhe a mão na mão e tudo corria às mil maravilhas se não fosse o criado, pressuroso, certamente preocupado em ainda ir à aula do Instituto Superior Autónomo que frequentava à noite, depositar-lhe um bilhetinho a dizer que o marido não podia vir.
Não era mulher para dizer, encolhendo os ombros, que isso não lhe interessava... e a festa prosseguia. É evidente que o marido devia ir ali, nem que fosse para esmagar o atrevimento do Director do “Europa”. Sim, porque era daqueles casos em que não bastava relegá-lo para um canto! Era preciso dar-lhe uma lição.
Eis que, já à saída - o Director do “Europa” ouvia espantado, de joelhos unidos e pés para dentro, um deputado qualquer - deu um encontrão no braço de alguém. Não a tinha visto. Quando se voltou, era a Si. Disseram um “Olá-estás-boa” muito rápido e simultâneo enquanto a Si a deixava sumir, atirando-lhe um sorriso aos calcanhares.
Cá fora, o porteiro musculoso provocava-lhe sentimentos sulfurosos, os carros resfolegavam nos semáforos e um grito de bêbedo incomodava-a fortemente. Pensou que aquilo não podia ficar assim. Desde que saíra o seu último livro, ela fizera-lhe uma paródia pública em casa do barão Ti, pusera-se a citar frases inteiras, os convidados fizeram um círculo em torno e saiu com aplausos depois duma onda de gargalhadas que - diz-se - fez abanar o lustre do teto!. Agora, não a podia ver ao fundo de uma sala que estremecia logo. Era uma coisa epidérmica, como o anunciar de um duelo no Oeste. Sentir aquilo já a fazia ponderar em certos convites, ela que, desde há algum tempo, fora chamada a “Restauradora” da vida social, ela que, a partir da sua própria casa, por meio dum cuidado calendário de jantaruchos e recepções, esmagara em prestígio e glamório as tainas oficiosas dos palermas como o Director do “Europa”, onde até eram convidados comunistas. Ela, que desenterrara finalmente as casas da gente bem, devolvendo-as ao roteiro anual de boa sociedade. As constelações sobrepunham-se já há anos em seu favor, anunciavam-lhe uma estrada larga na História. O aparecimento daquela personagem não podia perturbar-lhe os planos. Mulher determinada, tinha simplesmente de esmagar aquela ameaça! Não a preocupava nada a paixoneta que a Si tivera pelo seu (dela) marido quando eram finalistas no liceu. Com isso, até se ria. Aquele grandalhão de fatos britânicos tinha-o pelos colarinhos desde quando quis, e sabia como. O que a preocupava era a insídia latente e isso era imperdoável. Ah, se a pudesse esbofetear! Nem media a diferença de estaturas. A Si era uma mulher nortenha, de olhos claros, com a raiz dos cabelos e dos dentes bem ajustados, quase brancos. Apesar de um bocado apodrecida pelo álcool, rolava o seu corpo grande nos salões com uma segurança considerável e, quando chegava ao pé dela, parecia um urso polar ao pé dum pinguim.
Ah! Se lhe pudesse chegar! Já por causa dela se deixara cair, num momento de depressão, em frente aos canais internacionais a ver lutas de boxe e só tocara o fundo durante um desses torneios entre mulheres e em que as adversárias rebolavam uma na outra, num ringue de lama. Estava quase a definir o que queria... quando o carro se foi abaixo. Depois, um idiota qualquer pôs-se a apitar e fechou o vidro. Estendeu as pernas que, assim, sob a saia torcida, pareciam dois braços esquálidos agarrando o chão e fez uma cara de profundo nojo pelas ruas de Lisboa. Ao lado dela, um taxista de bigode horroroso, veterano da guerra, articulara-lhe à espessura do vidro, algumas perversões, escapulindo-se facilmente. Porque é que ele, o marido, não estava ali?! Sabia perfeitamente que o reconheceriam e, graças a Deus, que ainda havia temor em Portugal! Olhou para o painel de comandos, para os botõezinhos e para os mostradores esperando que aquilo andasse. Mais um instante de espera e voltou a dar à chave. Como previra, o carro avançou e tudo se desenrolou normalmente.
Enquanto isso, a Si voltava a surgir-lhe em cena e não podia deixar de sentir dores no estômago, como se lhe agarrassem a pele da barriga e a arrepanhassem às mãos cheias.
As pernas desconjuntavam-se entre os pedais, as rótulas salientes puxavam-na para fora da lisura da roupa, transformavam-na num bicho feio, nu, que esbracejava e esperneava.
Entretanto, os famosos cabelos dos anos cinquenta, pareciam também que se esboroaram. Olhou-se ao retrovisor e parou de repente, sobrelevando mais uma vaga de apitos. Meu Deus, gritou. Em Lisboa, todos se perseguem uns aos outros! Tentou acalmar-se e desenhou uma expressão que lhe destilava um eflúvio brilhante, capaz de a fazer sentir-se outra vez uma figura de proa de um Portugal onde desse gosto voltar a viver, onde todos os sonhos truncados com o 25 de Abril voltavam a valer a pena. Só a imagem da Si a fazia erodir-se lentamente em bílis ácida e humores oxidantes. Ah! Parou pela terceira vez o carro. O fígado saltava-lhe, pulsava-lhe grande como uma bola de futebol e o resto do corpo esticava-se mortiço, com frio e comichão. Apetecia-lhe esmagar as unhas para voltar a sentir. Por baixo do fígado crescia-lhe um vapor entorpecente que a elanguescia para um canto, despenteada e mesquinha como uma miúda humilhada pelos rapazes. Depois, tinha vontade de espirrar e, subitamente vinha o sono. Ah! O pior que a Si lhe fazia, era ver-se naquele estado, irritada, nervosa, incapaz de se dominar. Esperava por estar em frente dela para a reduzir a bocadinhos e pôr toda a gente a segurar-lhe a mão, pedindo-lhe, por sua alta recreação, que se acalmasse. (continua)
André de Melo


Boníssimo ambiente do dirigente dominar e cavaquear com a figura do bailéu de anteriormente, lobriga pelo espelho, sem que se tenha de converter. O que a encaminhar é chato.
Como ensinamento administra para retocar a pintura no meio do trânsito, Calha sempre bem ter um bom ar da Egitania.
Serve essa imagem igualmente para ir dando uma vista de olhos sobre quem vem na quarenta atrás, nunca se sabe onde se pode encontrar a princesa encantada.
Os artesãos servem-se deste exemplar para olhar para a cara de quem vem no tal carretel após e acção em aceno pouco faladores e coisas afins, e se virem uma "gaja": mandar piropo muito aflito!
Ah, e agrada também para carrear em afoiteza. Na limite em que anui uma fantasia ajuizada do trânsito que vem atrás da dependência e assim atribuído ao pára-raios estar sempre alerta.