Blogue de apoio ao "Boca de Incêndio"

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O nosso outro passado

Portugal é um caso de esquizofrenia histórica: tem dois passados. O mais antigo é quase sempre resumido a grandezas comemoradas com grande unanimidade. O mais recente, pelo contrário, fica-se por uma penosa crónica de decadência e opróbrio, que divide as opiniões e nos deixa desconfiados de todas as possibilidades. Nos últimos dois séculos, fomos sempre menos do que gostaríamos de ter sido: menos ricos, menos livres, menos unidos. (...) Entre outras questões, os portugueses dos últimos dois séculos tiveram de lidar com esta: a passagem da antiga monarquia absoluta para uma democracia moderna. (...) A chamado I República, entre 1910 e 1926, e o estado Novo, até 1974, tiveram isto em comum: chefes de Estado eleitos (directa ou indirectamente) e governantes determinados em usar a força para impedir qualquer alternância no poder. (...) A construção da actual democracia em Portugal foi feita não apenas contra o Estado Novo, mas também contra a I República. dependeu de uma nova cultura política, em que se admitiu o princípio de que a validade das eleições dependia mais das instituições e procedimentos do que das "qualidades" da população" (referindo-se ao sufrágio censitário em vigor durante o Liberalismo e a 1ª República). Dependeu também de se ter voltado a reconhecer novamente, como no tempo da monarquia constitucional, que a razão é algo distribuído a mais de uma opinião ou partido. Obteve-se assim um regime aberto a todos, e em que o voto de todos é a base da alternância no poder. Os exclusivismos, porém, deixaram herdeiros frustrados. Há quem ainda não tenha percebido por que é que não é dono desta democracia, tal como o PRP foi dono da I República ou os salazaristas do Estado Novo. Eis o que representam os contestatários da comemoração de D. Carlos.

Rui Ramos, no "Público" de 30.01.2008

domingo, 13 de janeiro de 2008

Balanxo

Para comodidade de leitura e de arrumação, imaginei duas cores para a Guarda, como se de um semáforo se tratasse. Cada uma delas contem os factos, tendências e ausências que, em meu entender, melhor definiram o ano que passou.
  • Verde:
  1. O Parque Urbano do Rio Diz, um equipamento de lazer que já faltava à Guarda. Espero que a sua localização num leito de cheia não traga dissabores;
  2. A sinalização de dois percursos pedestres em volta da cidade. Vamos ver se outros se seguem;
  3. O bom funcionamento das piscinas municipais;
  4. A oferta cultural do TMG, incluindo a produção própria. Apesar de no ano transacto a programação global ter decaído ligeiramente em termos de qualidade. Facto explicável, quero crer, pela conjuntura orçamental. A confirmá-lo, a programação deste trimestre vem repor os níveis a que estávamos habituados.
  5. A evocação da inauguração do Sanatório Sousa Martins, uma produção do TMG sob encomenda do Hospital. Um espectáculo que conquistou a adesão e o reconhecimento da cidade, para além de a ela ter atraído milhares de pessoas;
  6. O novo fôlego para a finalização da PLIE e o anúncio da remodelação do Hospital;
  7. A conclusão do Polis, apesar do que faltou e dos atrasos;
  8. A qualidade exibida por alguns estabelecimentos de diversão nocturna;
  9. Os muitos guardenses que, na sua cidade ou fora dela, continuam a marcar pontos na inovação, na investigação, na criação artística, no mundo empresarial, político e jornalístico.
  • Vermelho:
  1. A eterna entrada em funcionamento da ponte pedonal de S. Miguel e da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço;
  2. O abandono trágico a que foi votada a Rua do Comércio e o Centro Histórico, para lá das obras realizadas. No primeiro caso, parte dos espaços estão devolutos, por razões puramente especulativas. Por toda a zona, o comércio não tem horários diferenciados, não há estabelecimentos-âncora que sejam também pontos de encontro, mais-valias cívicas: livrarias, lojas de discos, de produtos tradicionais, um café amplo com serviço de qualidade, uma loja de conveniência, estabelecimentos gourmet, etc.
  3. O apoio miserabilista às colectividades do concelho, algo que tem debilitado a incipiente tradição associativa e a criação de valores culturais locais;
  4. A inexistência de incentivos ao investimento privado, local ou não;
  5. A não conclusão da VICEG;
  6. O desemprego que cresce na região;
  7. Certas acções de animação de rua promovidas pela Câmara, que nada acrescentam à cidade nem a ela associam eventos atractivos, diferenciados e de qualidade;
  8. A sisudez e o cinzentismo, que são, infelizmente, apanágio de muitos guardenses.

(publicado no blogue "Café Mondego", em 6.1.2006)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Artigo de Rui Ramos

O Portugal de Luiz Pacheco

Morreu Luiz Pacheco, aos 82 anos. Era um escritor que nem sempre conseguia ser bom, mas que, quando era bom, era muito bom - melhor do que a maior parte dos literatos contemporâneos, mortos e vivos. O Libertino passeia por Braga justifica os elogios. Fátima ou o amor louco, com apenas seis páginas na última edição de Exercícios de Estilo, é talvez a mais directa e melancólica história de amor escrita por cá no último século. Pacheco é datável, o que não o torna menos interessante para uma história intelectual do Portugal recente. No que disse e escreveu, estão os traços da colheita literária de 1945: por exemplo, o culto do "amor" e da "sinceridade". Mas está também um drama: o dos jovens intelectuais (Cesariny, O"Neill e outros) que, no pós-guerra, perante o nacionalismo salazarista e o neo-realismo comunista, resolveram desalinhar (o "surrealismo" foi uma das modalidades desse desalinhamento). Em Portugal, porém, o mundo custou a mudar, e eles passaram os trinta anos seguintes a ser moídos entre a ditadura política do Estado Novo e a ditadura cultural do PCP (bem explicada por Eduardo Lourenço). Com o diário de Virgílio Ferreira ou a correspondência de Jorge de Sena, as inconfidências de Pacheco fazem falar, de uma maneira violenta, essas longas vésperas da liberdade. Numa literatura colonizada por "antifascistas" e académicos, todos muito respeitáveis, Pacheco recorreu a outro estilo: o de Bocage, o do "desgraçado" que revelava, sobre si próprio e em público, coisas que os literatos portugueses geralmente só dizem dos outros e em segredo: faltas de dinheiro, alcoolismo, homossexualidade, prisões por delito comum. Arranjou até o "ismo" necessário para arrumar tudo isso: "neo-abjeccionismo". Nesta lenda do "escritor maldito", cuja desinibição saciou algum voyeurismo, havia algo de defensivo: sem quase nada a perder, pouco lhe podiam tirar. Só assim pôde conduzir a "guerrilha" que o tornou célebre. O grande segredo da cultura literária portuguesa era que, em privado, pouca gente do chamado "meio" levava a sério os "grandes autores" do momento. Em público, porém, todos faziam as esperadas genuflexões. Pacheco não. Imprimiu a "má língua", lembrou o prazo de validade de certas glórias oficiais. Reivindicou, contra a manipulação política da literatura, um "mercado livre das Letras". Através dele, muitos viveram atrevimentos que não ousavam. * Pacheco veio da classe média com criadas, cultura e acesso aos empregos do Estado. Preferiu viver como "libertino", versão clochard. Havia lugar para isso na sociedade portuguesa. Notáveis da província, como o Dr. Maldonado de Freitas, das Caldas da Rainha; milionários do Estado Novo, como Manoel Vinhas; políticos da democracia, como o Dr. Soares, pagaram-lhe quartos e medicamentos, deram-lhe dinheiro. Uns achavam-lhe "graça". A outros, a educação literária terá feito sentir obrigações. Ele aproximava-se (como no seu tardio acompanhamento do PCP, de cujas capelinhas literárias dissera o pior), mas ressalvando a ambiguidade necessária à sua reputação. Era um jogo cujas regras ele próprio descreveu. * Há dois séculos que a literatura portuguesa anda a tentar inventar imagens fiéis da "nossa terra". Quando se fizer o balanço dessa velha mania, ver-se-á que alguns dos esforços mais memoráveis são de Luiz Pacheco. Por exemplo, Porto-Lisboa a pedir esmola. Eis o resumo (versão de Exercícios de Estilo, a melhor): no Porto, decidido a ir de comboio para Lisboa, o autor só tem dinheiro para o bilhete até Soure. Tenta, com uma mentira, comover o chefe da Estação de S. Bento: espera-o em Lisboa uma pessoa de família doente. O chefe de estação percebe a vigarice, mas decide empurrar para a frente: que compre bilhete para Soure, e, em lá chegando, fale com o chefe do comboio. Em Soure, o chefe do comboio barafusta imenso, mas (e é o que importa) não o põe fora na estação, passando a chatice ao revisor. Este, sem vontade de levantar o devido "auto", tem uma ideia para "legalizar" o viajante: e se ele pedisse esmola aos outros passageiros? O próprio revisor chama a atenção da carruagem (de terceira classe, apinhada de gente, cestos e garrafões), e exibe o desgraçado: sem bilhete, em chegando a Santa Apolónia, irá preso (mentira). Todos se condoem: coitadinho. As moedas aparecem, o bilhete e a multa são pagos. Pela cabeça do autor passa a ideia de recorrer novamente ao truque da próxima vez que viajar.Aldrabice, aversão às responsabilidades, sentimentalismo: é um Portugal imaginado, mas a quem é que apetece dizer que não é verdadeiro?

in "Público", de 09.01.2008

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Escolhas Ipsilon

Uma Grande Razão, Mário Cesariny
Assírio & Alvim

Pais e Filhos, Ivan Turguéniev
Relógio d’Água

A Modernidade, Walter Benjamin
Assírio & Alvim

Memórias, Raymond Aron
Guerra & Paz

A Morte de Theo Van Gogh, Ian Buruma
Presença

Na Praia de Chesil, Ian McEwan
Gradiva

A Estrada, Cormac McCarthy
Relógio D’Água

Metamorfoses, Ovídio
Cotovia

Tudo o que sobe deve convergir, Flannery O’Connor
Cavalo de Ferro

As Benevolentes, Jonathan Littell
Dom Quixote

Século Passado, Jorge Silva Melo
Cotovia

O que foi passado a limpo. Obra Poética, Armando Silva Carvalho
Assírio & Alvim

Colecção da Obra Essencial de Pessoa, Edição de Richard Zenith
Assírio e Alvim

Todo-o-Mundo, Philip Roth
Dom Quixote

Poesia 1963/1995, Vasco Graça Moura
Quetzal

Aprender a rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares
Caminho

Shakespeare. A Biografia, Peter Ackroyd
Teorema

Orlando Furioso, Ludovico Ariosto
Cavalo de Ferro

A Rússia de Putin, Anna Politkovskaia
Pedra da Lua

Personas Sexuais, Camille Paglia
Relógio d’Água

Gente Independente, Halldór Laxness
Cavalo de Ferro

Balada para Sérgio Varella Cid, Joel Costa
Casa das Letras

Como falar dos livros que não lemos?, Pierre Bayard
Verso da kapa

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Crónica de Rui Ramos

(cont.) E depois, há o medo do tubarão. Sim, leram bem: o tubarão. Porque inesperadamente, castigando os seus adversários, Menezes diz isto: “Há dois anos, algures no deserto de Omã, deitado ao luar a olhar para as estrelas, tive tanta pena destas pseudo-elites liderantes do meu Partido, cujo único deserto a que chegaram nunca está a mais de dez quilómetros da sua casa, que nunca tiveram frio à noite no deserto, que nunca tiveram medo de um tubarão...” [...] Não quero ridicularizar Luís Filipe Menezes. Mas não me importaria de ridicularizar esta imagem de Indiana Jones à moda de Gaia que Menezes pensa que lhe convém dar de si próprio. Ou de ridicularizar os conselheiros que o deviam demover destes lapsos. E tudo isto merece comentário, porque há na história do tubarão mais do que ingenuidade ou distracção: há uma estratégia política. [...] Eis a política reduzida a um jogo de espelhos. Peter Schlemil perdeu a sombra. No caso dos nossos políticos, ficaram as sombras e desapareceram as pessoas. E as sombras escondem muita coisa. [...] Talvez por isso, temos visto Menezes a fazer o possível por não se definir: a ameaçar e a retirar as ameaças, a dizer e a desdizer-se, a ser uma coisa de manhã e outra à tarde. Assim vai criando uma imagem de movimento sem precisar de sair do mesmo sítio. Talvez lhe baste ser o suplente de Sócrates. Ousaria ser mais, sem o trauma do tubarão? O do Spielberg era de borracha. E o seu, dr. Menezes? Se era amarelo e foi a sua mãe que o pôs na banheira, não devia ter tido tanto medo.»

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A esquerda bloqueada

(cont.)... De resto, se não me engano, é precisamente em alguns regimes islâmicos, de que a esquerda niilista tanto gosta, que existe pena de morte para os homossexuais. O presidente iraniano - outro herói da esquerda esquizofrénica, só porque ousou afrontar a sede de todo o Mal, os EUA - decretou mesmo que não existem homossexuais no seu país!... Todavia, Daniel Oliveira no seu artigo pugna pelo fim das anedotas com a "panaleiraje". Portanto, nos países "amigos" podem-se matar, tudo bem. Aqui, não se podem contar anedotas sobre eles!... Perceberam? O delírio não tem limites para esta gente... Ficam pois avisados: da próxima vez que contarem uma anedota que aluda a práticas de "homens chexuais, je, je", têm a Inquisição Espanhola à porta (como no celebérrimo sketch dos Monthy Python), com o Daniel y sus muchachos pedindo contas ao prevaricador. É que as coisas andam mal para os lados do Bloco de Esquerda. Que se tornou uma espécie de muleta do PS. Já perceberam que "não vão lá", pelos meios normais em democracia": eleições, credibilidade, seriedade, ampliação da base de apoio, entrada no mundo sindical. Recorrem então às causas fracturantes. As tais que nunca exigem muito trabalho: são ideologicamente inatacáveis, a opinião pública está "receptiva", a comunicação social "adora, sei lá", os partidos de esquerda ficam amarrados ao tema, durante a discussão na AR. Eis o melhor da tal esquerda que se posiciona na política como num show mediático. Não se interessa realmente pela realidade humana que diz defender. Só lhe interessa que a opinião pública acredite que sim. E que está pronta a negar qualquer evidência de barbárie, de genocídio, de fascismo teocrático, de atropelos aos direitos humanos, desde que provenientes de regimes hostis à democracia ocidental, o maior mal de todos, segundo ela. Como exemplo, veja-se o guru desta esquerda de cabeça perdida, Noam Chomsky: 1º apoiou um historiador revisionista francês que negou a existência do Holocausto. A única explicação é que estas luminárias julgam que a "desnazificação" tem que ser feita no Ocidente, e nos EUA em particular. Quando se deparam com o verdadeiro nazismo, dão-se mal, porque para eles já deixou de ser o mal absoluto. Substituído, na sua agenda, como se sabe, pelo "capitalismo hegemónico"; 2º Negou a existência das atrocidades do regime de Pol Pot e seus Kmers Vermelhos no Cambodja. Tendo afirmado que se limitaram a dar umas resposta aos bombardeamentos americanos, durante a guerra no país vizinho; 3º Negou a limpeza étnica praticada pelos nacionalistas sérvios na Bósnia. Chegou mesmo a corroborar que as imagens de Sbrenica e de outros campos de concentração, os relatos dos sobreviventes e os relatórios das autoridades, ONGs e jornalistas não passavam de uma orquestração do governo bósnio para enganar o Ocidente. O BE precisa de causas como do pão para a boca. A próxima será, é claro, a "homofobia", o casamento entre homossexuais, etc. Muito ruído, como é de prever. A ideia é, obviamente, procurar obter um estatuto de excepção para cidadãos que são iguais a todos os outros. Excepto naquilo que fazem no domínio da sua vida privada. O que dispensa, por definição, a necessidade da existência de provedores, de curadores, ou, muito menos, de quem os "defende" só por razões de cálculo político.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Sobre o acordo ortográfico*

Contra os arautos de uma unificação forçada, afirma MEC: "A lusofonia é uma espécie de estereofonia, só que é melhor. A estereofonia funciona com dois altifalantes, enquanto a a lusofonia funciona com mais de 100 milhões." Sobre as alterações propostas, é peremptório: "se a lusofonia é uma cacofonia de expressão oficila brutoguesa, a tortografia consiste fundamentalmente no conceito de cacografia". Mais à frente, exemplifica como se escreverá o português, quando o Acordo entrar em vigor:
"A
adoção exata deste acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileira, com a ajuda entristorica dos diretores linguisticos sãotomenses e espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que não sabem distinguir uma reta de uma semirrecta, dizem que as bases adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo menos, extraumanas. No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos santo Antonio, mas sem mais maiúscula. A escrever »O mano, que é contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não é sobreumano«? O que é que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar)? A tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?"
Aproveita ainda para rebater o argumento, utilizado pelos defensores do Acordo, de que "a língua portuguesa é a única das dez línguas cultas do mundo que apresenta ortografias diferentes", recorrendo ao caso do inglês. A ortografia inglesa e a americana, como se sabe, apresentam algumas diferenças. E nunca se procurou unificá-las. Ora tomando este exemplo, conclui MEC: "a unificação ortográfica não é uma condição para o intercâmbio cultural. (...) a grande diferença entre um país enorme como os EUA e um país pequeno como o Reino Unido em nada prejudica o entendimento entre eles. No caso do Reino Unido, garante importantíssimas existências culturais (como a indústria editorial, que invariavelmente publica livros americanos com ortografia inglesa) e permite a sobrevivência de uma tradição ortográfica à qual os Americanos poderão sempre recorrer, até para alterarem grafias suas."

* Miguel Esteves Cardoso, "O Acordo Tortográfico", in "Explicações de Português" (Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001)

domingo, 18 de novembro de 2007

Almoço micológico

Sopa de Lentinos
Creme de Boletos

Tarte de Agáricos
Patê de Pleurotos
Balotina de Frango com Tricolomas
Guisado de Fistulinas
Pleurotos "Mimosa"
Cantarelos à Moda de Nice
Cornucópias da Abundância à Moda do Jura
Salada Mista com "Amanitas"

Tarte de Queijo Trufada
Bavaroise de Manga "Amanita"
Mousse de Chocolate
Compota de Frutos Secos
"Strudel" de Tricolomas

António Lino, 17 Novembro 2007

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Comentário

ti Risco disse...

Boníssimo ambiente do dirigente dominar e cavaquear com a figura do bailéu de anteriormente, lobriga pelo espelho, sem que se tenha de converter. O que a encaminhar é chato.
Como ensinamento administra para retocar a pintura no meio do trânsito, Calha sempre bem ter um bom ar da Egitania.
Serve essa imagem igualmente para ir dando uma vista de olhos sobre quem vem na quarenta atrás, nunca se sabe onde se pode encontrar a princesa encantada.
Os artesãos servem-se deste exemplar para olhar para a cara de quem vem no tal carretel após e acção em aceno pouco faladores e coisas afins, e se virem uma "gaja": mandar piropo muito aflito!
Ah, e agrada também para carrear em afoiteza. Na limite em que anui uma fantasia ajuizada do trânsito que vem atrás da dependência e assim atribuído ao pára-raios estar sempre alerta.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

The God Delusion

Dawkins propõe-se demonstrar que Deus não existe. Com a mesma seriedade com que S. Tomás de Aquino quis fazer o contrário. Não é difícil, porque as suas famosas cinco provas da existência de Deus são singularmente vácuas. As três primeiras - o primeiro impulso, a causa indeterminada e o argumento cosmológico - baseiam-se em que não pode haver uma regressão infinita no sentido do movimento, das causas ou do tempo. E, por fim, tem que haver um Impulsor, uma Causa, ou um Criador originários. Mesmo que alguém aceite, a benefício de inventário, que a cadeia haja de partir-se nalgum ponto, não se poderá depreender que o Big Bang tenha que ser omnipotente, omnisciente e demais omnis. E menos ainda que tenha de escutar as nossas preces, ocupar-se dos pecados do mundo ou fazer de redentor.
O argumento número 4, o dos graus de perfeição, nem sequer Dawkins, habitualmente parco em ironia, pode deixar de o expor ao ridículo. A nossa percepção de que neste mundo inferior há coisas mais perfeitas do que outras não necessita de um símbolo máximo de perfeição. A última tese de S. Tomás - tudo o que foi inteligentemente desenhado teve que ter por trás um desenhador inteligente - conduz a isso, ao desenho inteligente. Neste ponto, Dawkins observa que quanto maior o obstáculo a superar, maior será o mérito do criador; se supomos que o universo foi criado por um grande Ser, poderíamos imaginar outro ainda maior, que houvera criado tudo sem mesmo existir. Ergo...

Dawkins descarta igualmente as outras provas demiúrgicas, que habitualmente são consideradas inferiores: as que partem do poder da beleza; as “experiências” pessoais ou extra-sensoriais; as derivadas da autoridade das Escrituras; a aposta de Pascal (mais vale crer em Deus, porque, se existe, alcança-se a vida eterna; se não, nada há a perder).
As melhores páginas do livro referem-se à comparação entre o argumento teleológico com o do relojoeiro cego. Quase todos os que querem descartar a hipótese darwiniana e negar à evolução capacidade para explicar a vida, foram buscar algo a que chamam de “desenho inteligente”. Imaginem que um furacão encontra no seu trajecto um armazém de sucata e, na sua fúria destruidora, acaba por reunir as peças soltas de um Boeing 747, nascendo um novo aeroplano. É claro que isso teria a mesma probabilidade de suceder que a existência de qualquer ser complexo, como resultado da selecção natural.
Mas a questão não é meramente teórica. Ao desenho inteligente aportaram, como náufragos a uma bóia de salvação, todos os criacionistas, antigos e recém-convertidos. Especialmente nos Estados Unidos, os fundamentalistas bíblicos trataram de convertê-lo numa explicação científica da origem da vida. Em suma, os defensores do desenho inteligente partem da complexidade dos seres vivos para afirmar que tal não pode dever-se a acaso. O superior terá de explicar o inferior e não ao contrário, de modo a que o acaso não pode ter dado lugar à infinita complexidade da vida. Contra-ataca Dawkins, afirmando que a contraposição entre desenho e acaso não é genuína, pois o desenho inteligente padece do mesmo infortúnio que o acaso. Não responde à questão básica – quem desenhou o desenhador? E assim, ambos não solucionam a questão central da improbabilidade estatística.
O acaso é um sério problema, mas o desenho inteligente limita-se a formulá-lo com outras palavras. A selecção natural soluciona o enigma de forma mais elegante. Ao contrário dos saltos bruscos – os hiatos– postulados pelo acaso e pelo desenho inteligente, trata-se de um longo processo que divide o improvável em pequenas doses, cada uma delas modesta, mas não completamente quimérica. “Quando grandes números desses sucessos ligeiramente improváveis se acumulam numa série, o produto final é, sem dúvida, muito improvável. Tanto que não pode ser explicado como um acidente” (pág. 121). Para os criacionistas, não há etapas intermédias. “Muitas transições evolutivas estão elegantemente documentadas por séries mais ou menos contínuas de fósseis intermédios que foram mudando lentamente. Outras não, e assim aparecem os famosos hiatos [...] e o seu uso ilegítimo, segundo o qual, se não há fósseis que documentem uma determinada transição evolutiva, terá que concluir-se que esta não existiu e que, por conseguinte, Deus aí interveio” (pág. 127).
Por outro lado, argumentar a partir da existência de complexidades aparentemente irredutíveis (o olho, as asas, qualquer outro sistema biológico provisoriamente consolidado) não é mais do que uma manobra retórica para explorar um conhecimento (ainda) incompleto. Como não podemos reunir todos os dados do processo, os criacionistas deduzem que estes não podem encontrar-se ou simular-se num computador. Desse modo, dão por justificado o recurso a uma entidade superior. Aí reside a grande diferença com o modus operandi dos cientistas. Que não buscam causas sobrenaturais para o que ainda não sabemos: pelo contrário, é a ausência de respostas que estimula essa busca. A evolução não é só um relojoeiro cego; também é um mestre-de-obras descuidado que derruba o andaime logo que finda a sua obra, impedindo-nos de ver como lá chegou. Enquanto que teólogos, metafísicos e demais adivinhos se comprazem nos mistérios, tudo fazendo para que permaneçam intactos, os cientistas vêm neles uma simples oportunidade para prosseguir a sua tarefa.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Artigo de JPP

ESTÁ A INTERNET A MATAR A NOSSA CULTURA?

"Um livro de Andrew Keen tem suscitado uma grande discussão na comunicação social internacional e na rede. O livro ainda não foi traduzido em português, mas o seu título e subtítulo não enganam ninguém: o Culto do Amador - Como a Internet dos dias de hoje está a matar a nossa cultura. É um livro panfletário e simplista, escrito para chocar, mas as questões que lá são levantadas são importantes e cada vez mais presentes, até porque são uma versão nova de problemas muito antigos potenciados numa dimensão que, essa sim, é nova. O livro de Keen não foi o primeiro e certamente não será o último sobre o assunto vindo do lado dos "apocalípticos" das novas tecnologias, para usar a terminologia de Eco. Pode-se até esperar um filão polémico de livros sobre este tema, porque os efeitos de "matança da nossa cultura", usando o título de Keen, são sérios e só se podem agravar nos tempos mais próximos. O catastrofismo é uma longa tradição do pensamento ocidental, principalmente nas mudanças do século, mas lá porque é cíclico e porque as coisas nunca correram tão mal como se anunciava, nem por isso, nada nos garante que, desta vez, não corram mesmo muito mal.

A tese de Keen é que múltiplos aspectos do nosso saber e da nossa cultura milenar (refere-se essencialmente à cultura do Ocidente) estão a ser postos em causa pela potenciação que as novas tecnologias associadas à rede estão a dar à ignorância presumida de saber, ao "amador" que pensa que pode competir com o profissional (seja jornalista, seja crítico literário, seja cientista, seja especialista de qualquer área do saber), apenas porque pode livremente e sem edição colocar num blogue o que lhe vem à cabeça; pela erosão do direito de autor pela pirataria generalizada na rede, com o consequente desinvestimento em produtos culturais caros (por exemplo a produção de CD com um grande investimento em estúdio e qualidade da gravação); pela vulgarização do plágio; pela impossibilidade de no mundo digital se "autenticar" a verdade, com o crescimento da virtualidade da Second Life em detrimento da primeira, etc, etc. O mundo obscuro dos avatars, das identidades virtuais em rede, não apenas deu um teatro tão gigantesco como eficaz às pulsões criminosas, desde a "fraude nigeriana" até ao phishing, passando pela pedofilia, como permitiu outro tipo de fraudes intelectuais como seja a falsificação artificial dos contadores de audiências dos blogues, os truques para se colocar bem uma página nos motores de busca, as falsas notas em blogues cujo objectivo é promover produtos pela sua citação, ou seja, toda uma série de práticas que fora da rede seriam consideradas enganadoras e fraudulentas e controladas pela lei e pela regulação. Keen mostra com exemplos como é possível moldar a realidade em rede usando os comentários anónimos, desenvolvendo formas anónimas de campanhas ad hominem, usando mil nomes de caixa de comentário em caixa de comentário, marcando temas e pessoas tidas como "inimigas", ou autopromovendo-se com elogios que se fazem passar como sendo de terceiros.

Ou seja, a rede é o Oeste selvagem, sem lei e sem ordem, e é nessa escola que milhões de jovens se iniciam sem terem um mínimo de know how para saberem distinguir entre a ciência e a charlatanice, sem conhecerem os mil e um truques que pululam em linha, e, quando os conhecem, praticam-nos sem qualquer padrão de moralidade, entrando em esquemas que cá fora seriam considerados do domínio da fraude. O reclame que as associações produtoras e distribuidoras de filmes, vídeos e DVD fazem passar antes das sessões de cinema ou do visionamento de um filme em casa, em que se coloca a questão de como é que uma pessoa que nunca sonharia roubar uma televisão, ou um vídeo numa loja, o faz através de um download ilegal, é uma tentativa um pouco desesperada de explorar essa contradição. A facilidade com que estas práticas se generalizaram na rede (são hoje já habituais em Portugal e penetraram na blogosfera) mostra como existe uma indiferença, complacência e mesmo colaboração activa com o seu carácter fraudulento.

A este assalto, que podíamos chamar "moral", de dissolução de regras e comportamentos éticos valorizados no mundo real, mas ignorados e hostilizados em rede, acresce que o "culto do amador" legitima uma degradação acentuada dos critérios de qualidade de muitas actividades que implicavam ou um saber especializado, normalmente resultado de muitos anos de estudo e trabalho, ou de uma prática profissional extensiva. É o caso da utopia do "jornalismo dos cidadãos", dentro da crise mais geral da comunicação social de referência, cuja leitura é substituída por uma "cultura de blogues", dispersa, opinativa, pouco rigorosa, extremista e de "causas", mais intolerante do que a imprensa tradicional, mas que cada vez mais funciona como fonte noticiosa e como pedagogia do debate público. É também o caso da Wikipédia, talvez o melhor exemplo da perda de critérios de rigor e qualidade, a favor de uma ideologia utópica do homem comum, das massas, escrevendo por tentativa e erro, uma enciclopédia colectiva. A Wikipédia tem conhecido nos últimos tempos uma séria crise de credibilidade, mas continua a servir como referência para as mesmas multidões que em linha não sabem distinguir a astronomia da astrologia.

Todos estes exemplos e outros representam problemas reais e que se tem vindo a agravar, mas que Keen retira do seu contexto social, o que não permite perceber o que se passa e nos empurra para uma visão maléfica das novas tecnologias, face às quais nada mais haveria a fazer do que queimar as máquinas, como os ludditas faziam aos teares mecânicos. O pano de fundo daquilo que critica Keen são mudanças sociais profundas, que se tem vindo a dar nas sociedades industriais nos últimos 150 anos, mas que ganharam velocidade de cruzeiro depois da II Guerra Mundial: aquilo que se pode chamar o advento da sociedade de massas, assente no consumo generalizado de bens materiais (electrodomésticos, automóveis, casas nos subúrbios, etc.) e "espirituais" (férias baratas, rádio, televisão, imprensa popular). A pulsão igualitária e demagógica das massas, aquilo que antigamente se chamava a "psicologia das multidões", de facto varre muito dos quadros da cultura e saber tradicional, que julgam e com razão ser elitista. O "culto do amador" é apenas um dos sinais dessa tábua rasa demagógica que está de facto a "matar a nossa cultura" tal como a conhecemos. Se tudo ficar por aqui, caminha-se para uma nova barbárie.

A crítica de Keen e de outros "apocalípticos" falha ao menosprezar o enorme adquirido que se deu nestes mesmos 150 anos, a verdadeira revolução social, que permitiu a muitos milhões de pessoas, que viviam dominadas apenas pelo seu trabalho brutal e pela cultura "folclórica" tradicional, aceder a consumos que nunca tiveram e passar a ter voz em áreas que sempre lhes estiveram vedadas, seja como audiências de televisão, seja em estudos de mercado, seja em sondagens, seja comprando e votando. O efeito dessa voz cria uma enorme perturbação, degrada tudo, simplifica, confunde, mas, ao alterar sem retorno os equilíbrios elitistas do passado, gerou novas condições de democraticidade, competitividade e criatividade que também se verificam na rede.

Não sei até que ponto se encontrará um qualquer equilíbrio que trave o lixo demagógico que hoje enche tudo impante da sua nova voz tecnológica e salve a "nossa cultura", mas não posso, em nome dessa mesma "cultura", deixar de valorizar o acesso de milhões à porta de um mundo em que habita o "espírito", mesmo que assustado com tanta confusão."

Pacheco Pereira, no Publico de 8 de Setembro de 2007

NOTA: a maioria dos comentarios, para nao dizer todos, que vi na blogosfera a este artigo sao de pessoas que afirmam que nao leram livro de Keen. E' para eles absolutamente normal comentar um livro, com opinioes fortes e taxativas, que nao se dao o trabalho de ler. E' alias esta a pratica normal nos blogues, com raríssimas excepções e e' tida como normal. QED.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Cidades Assassinadas

Poupada à guerra, nunca foi subjugada pelas botas cardadas do inimigo. Que me lembre, das capitais europeias, só Lisboa escapou ao demónio da guerra que se manifestou por todo o continente ao longo do fatídico século XX. Contudo, dir-se-ia ter caído por dentro, ultrajada, maltratada e violada como troféu por governantes corruptos, acéfalos e medíocres de todos os credos e bandeiras, servida como trofeú ao camartelo de patos-bravos, reduzida a caricatura viva.

Nos umbrais do século sonhou-a Fialho com monumentalidade, na senda do visionarismo que foi nota da idade do ferro, das exposições universais e outros excessos de confiança no futuro que acompanharam o nascimento da contemporaneidade. Cassiano, na crista da onda modernista, até a quis como coração da indústria cinematográfica europeia, com uma Hollywood na Caparica e adamanes de S. Francisco, antes de a situar no amplo leque de expressões da nacionalidade no Portugal dos Pequenitos. Com Duarte Pacheco, a vaga nacionalista e imperial imprimiu-lhe a gramática de grandeza e monumentalidade: Lisboa, cabeça de um grande Império, Lisboa administrativa e codificadora; Lisboa intemporal, com o típico e o moderno procurando o equilíbrio entre a permanência e a mudança.

Depois, sob Marcello - i.e, sob jugo daqueles que ainda hoje nos governam - iniciou-se a era da destruição, não daquela destruição correlata da mudança inelutável, mas da bangunça nascida do alpinismo dos atrevidos, dos fura-vidas, dos especuladores e demais predadores. Duarte Pacheco, que se conseguira impor a todos os interesses (familiares, políticos, religiosos) que continuam a limitar a liberdade da acção municipal, deixara-a granítica, caiada, hierática, ordeira e temente da racionalidade do plano que traçara. Nos anos 60, vinte anos após a sua morte, já o barraquismo, o improviso e o miniaturismo - velhas pechas portuguesas - haviam voltado.

Com o 25 da Silva e a clara opção terceiro-mundista que marcou o PREC - o PREC não morreu em 25 de Novembro; ficou nas atitudes, no desprezo por todas as formas de acatamento da lei, no culto pelo vandalismo - Lisboa entrou no vórtice. Teve de tudo: Aquilino Ribeiro Machado, que muitos cunharam de aquilixo, pela sujidade infecta em que mergulhou Lisboa, já ferida de morte pelas pinchagens e pelo muralismo revolucionários que nem a Torre de Belém nem os Jerónimos havia poupado; Nuno Abecassis, que destruiu toda a Av.ª da República, permitiu o colapso da Av.ª da Liberdade e quase permitiu a perda do Chiado; Sampaio, que se limitou a remendos e a uns coloridos, entretanto desvanecidos; Soares-Filho, que fez das barracas de zinco barracas de cimento da EPUL; de Carmona, que deixou a cidade irreconhecível, tudo passou pela CML.

A nostalgia é sempre uma condenação e um libelo contra o que está. A torrente de obras sobre Lisboa, que invade as estantes das livrarias, tem uma explicação: os lisboetas detestam a cidade onde vivem, olham para a cidade perdida com um misto de misericórdia e saudade. Lisboa foi assassinada por portugueses. Hoje, é buraco, são grafittis, portas e janelas emparedadas, obras suspensas, jardins devastados, árvores ressequidas, lixo, mendigos e gente esfarrapada, urinóis contra as paredes, fachadas escalavradas. Lisboa já não é cabeça de nada. O império morreu, os ministérios estão entregues a provincianos boçais que a invejam e detestam, os ricos dela se ausentaram, estabelecendo-se nas Cascais e Belouras. Lisboa morreu. Só não demos conta disso porque há por aí alguns necrófagos que querem acabar o trabalho por outros entusiasticamente iniciado.


in "Combustões"


quinta-feira, 24 de maio de 2007

A nomeação de António Costa

"Coitados dos políticos - na semana passada quase tivemos pena deles, tantos foram os analistas a demonstrar a solidão dos líderes e a falta de gente dos partidos. Os factos não pareciam autorizar interpretações menos melancólicas. Perante uma eleição em Lisboa, o PS teve de gastar um ministro de Estado, e depois ir buscar um juiz ao Tribunal Constitucional, eleito há dois meses, para o substituir. O PSD dispôs-se a sacrificar o presidente de outra câmara. O CDS recorreu ao seu líder parlamentar, à frente de uma lista em que foi preciso pôr quase metade do estado-maior do partido. Todos analisámos este generalizado rapar dos tachos com a conveniente dose de angústia democrática. Mas, enquanto o país se preocupava com a escassez de políticos, os nossos políticos, que não sentem que haja funcionários a mais, também não deram sinais de sentir que há políticos a menos. Basicamente, porque julgam que têm tudo muito bem controlado. Viu-se pelo modo como, apesar de estar prevista uma eleição para Julho, o Governo tentou nomear um dos seus ministros presidente da Câmara de Lisboa. Há que admirar a mestria. Tudo foi coreografado para provar que, enquanto os outros iam a votos, António Costa descera do ministério à terra para tomar posse. Perante a encarnação autárquica do verbo governamental, os animadores de serviço ergueram as palmas e juncaram o caminho de flores, entoando cânticos à "aposta fortíssima" e ao "peso-pesado". Vale a pena reflectir sobre esta transfiguração de um simples mortal num ser "fortíssimo" e "pesado". Está aqui a chave da nossa política. O currículo atesta que Costa já foi nomeado para quase tudo. Mas na única vez em que arriscou uma candidatura pessoal - Loures, em 1993 -, perdeu. De resto, foi sempre eleito em lugar secundário nas listas. Não discuto as virtudes de Costa: admito que tenha todas. O ponto é este: noutras democracias, "pesos-pesados" são políticos com um apelo eleitoral testado - e não alguém cujo talento foi sobretudo reconhecido pelos correligionários. Os nossos políticos julgam-se capazes de atingir a grandeza pelo singelo método de se promoverem uns aos outros, como a nomenklatura da antiga União Soviética. Para esta política reduzida a um clube de elogio e promoção mútua, é natural que o país não conte - compete-lhe apenas deixar-se impressionar pelo ruído que lhe chega do clube. Não devemos cometer o erro de tomar os nossos políticos por bacocos. O Governo fez um cálculo. Previu que os oligarcas do PSD estariam mais interessados em afundar Marques Mendes do que em reter Lisboa, e que portanto não haveria outro candidato com a folha de serviço de Costa. Entretanto, apagou do quadro o comprometedor PS local, e aproveitou o charme discreto do poder para arrebanhar atracções. Entre candidatos e mandatários, no circo Costa há de tudo. O eleitor é do PSD? Tem o exemplo de José Miguel Júdice. Desconfia da "malandragem"? Tem Saldanha Sanches. Não gostou de Carrilho? Tem Manuel Salgado. Gostou de Alegre? Tem Ana Sara Brito. Até as directoras da Ciência Viva e do Serviço Jesuíta aos Refugiados vieram na rede. Isto não é uma candidatura: é o regime sujeito a um arrastão. Alguém ficou de fora? Só havia um problema para consumar a nomeação: os candidatos independentes. As sondagens mostravam Carmona e Roseta com mais intenções de voto, em conjunto, do que o "peso-pesado". Como de costume, o povo, sempre ignaro e ingrato, ameaçava estragar o passeio. Felizmente, é para prevenir este género de escândalos que existe a burocracia do Estado, com os seus procedimentos e prazos jeitosos. O governo civil removeu assim a dificuldade com um passe mágico do calendário. Estavam as favas a ser contadas, quando, de repente, o sistema deu sinal de anomalia. Geralmente tão fiável, a justiça constitucional abriu brecha na muralha. E foi assim que as eleições de Lisboa, até aí reduzidas a uma oportunidade para o Governo, se tornaram também uma oportunidade para os cidadãos. Por exemplo, para explicarem a estes ministros que a democracia não é uma coisa para ficar calcada debaixo de um qualquer "peso-pesado". É que há mais em jogo do que uns automóveis mal estacionados. Enquanto o Governo exibia Costa à cidade e ao mundo, soube-se que, numa qualquer direcção regional, um professor tinha sido suspenso por causa de uma piada à custa do primeiro-ministro. Eis o que está nas mãos dos lisboetas: garantir que, depois de Julho, podem continuar a contar-se anedotas sobre Sócrates na câmara municipal. Porque é preferível lixo nas ruas do que lixo nas almas."

Rui Ramos, in jornal "Público", de 23.05.2007

quarta-feira, 9 de maio de 2007

White Mansions





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terça-feira, 8 de maio de 2007

Inauguração Sanatório

Visita de Suas Majestades El Rei e a Rainha:
Programa dos Festejos

A chegada do comboio real à estação da Guarda espera-se que seja por 10 horas da manhã pouco mais ou menos, sendo-lhes prestadas ali todas as honras civis e militares, seguindo immediatamente Suas Majestades para a cidade com todo o seu numeroso cortejo, que fechará com um esquadrão de cavallaria.

A cidade encontrar-se-há lindissimamente ornamentada nas ruas do transito, com arcos triumphaes da maior imponência, mastros com seus galhardetes e escudos, artisticamente enfeitados com bandeiras, desde o cruzamento da Dorna até à porta do Sanatório, em extensão de mais d’um kilometro. As janellas, com esplêndidas colgaduras e apinhadas de senhiras, darão à passagem dos régios visitantes um effeito deslumbrante.

Haverá solemne Te Deum na egreja da Misericórdia, que se está ornamentando lindamente, e o seu largo, cheio de gente e das tropas da guarda de honra, deve produzir também um efeito verdadeiramente soberbo.

O Sanatório, franqueado ao público, com suas enormes avenidas e todo cortado de ruas e passeios, conterá á vontade a gente que o quizer ver, por maior que seja a sua quantidade.

Suas Majestades dirigem-se a um dos pavilhões do Sanatório, onde se procederá à inauguração e actos do estylo em occasiões destas.

É natural que Suas Majestades, depois de verem os edifícios do Sanatório, visitem a Sé, que está em quasi completa restauração externa, e o quartel militar, que estará profusa e artisticamente ornamentado. Presidirão também à inauguração do novo hospital da Santa Casa da Misericórdia.

Suas Majestades contam retirar às 5 da tarde, e a cidade offerecerá á noite ao público uma brilhantíssima iluminação de 5 000 balões venezianos no Campo de S. Francisco e suas proximidades, havendo também poderosíssimos focos eléctricos de muitos milhares de velas no recinto do Sanatório, e queimar-se-há um vistosíssimo fogo do ar, à maneira do Minho, fornecido por um dos nossos mais hábeis pyrotechnicos. Haverá também iluminações em edifícios públicos.

Durante o dia várias philarmonicas percorrerão as ruas da cidade, e à noite as bandas militares tocarão em coretos apropriados.

Desde a entrada de Suas Majestades na cidade até chegarem ao Sanatório, contínuas girândolas de foguetes subirão aos ares, lançadas das chumbeiras da Sé.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

100 livros

A lista de Martin Seymour-Smith:

I Ching; O Velho Testamento; A Ilíada e A Odisseia, de Homero; Os Upanishads; O Caminho e Seu Poder, de Lao-tzu; O Avesta; Anacletos, de Confúcio; História da Guerra do Peloponeso, de Tucídedes; Obras, de Hipócrates; Obras, de Aristóteles; História, de Heródoto; A República, de Platão; Elementos de Geometria, de Euclides; O Dhammapada; A Eneida, de Virgílio; Da Natureza da Realidade, de Lucrécio; Exposições Alegóricas das Leis Divinas, de Philo de Alexandria; O Novo Testamento; Vidas Paralelas, de Plutarco; Anais, Da Morte do Divino Augusto, de Cornélio Tácito; O Evangelho da Verdade; Meditações, de Marco Aurélio; Hipotiposes Pirrônicas, de Sexto Empírico; Novenas, de Plotino; Confissões, de Agostinho de Hipo; O Corão; Guia para os Perplexos, de Moisés Maimônides; A Cabala; Suma Teológica, de Tomás de Aquino; A Divina Comédia, de Dante Alighieri; Elogio da Loucura, de Desidério Erasmo; O Príncipe, de Maquiavel; Do Cativeiro Babilónico da Igreja, de Martinho Lutero; Gargantua e Pantagruel, de François Rabelais; Institutos da Religião Cristã, de Calvino; Da Revolução das Órbitas Celestiais, de Nicolau Copérnico; Ensaios, de Michel Eyquem de Montaigne; Dom Quixote, de Miguel de Cervantes; A Harmonia do Mundo, de Johannes Kepler; Novum Organum, de Francis Bacon; Primeiro Folio, de Shakespeare; Diálogo Sobre os Grandes Sistemas do Universo, de Galileu Galilei; Discurso Sobre o Método, de René Descartes, Leviatã, de Thomas Hobbes; Obras, de Gottfried W. Leibniz; Pensamentos, de Blaise Pascal; Ética, de Baruch Spinoza; O Progresso do Peregrino, de John Bunyan; Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, de Isaac Newton; Ensaio Sobre a Compreensão Humana, de John Locke; Os Princípios Sobre o Conhecimento Humano, de George Berkley; A Nova Ciência, de Giambatista Vico; Um Tratado Sobre a Natureza Humana, de David Hume; A Enciclopédia, de Denis Diderot; Um Dicionário da Língua Inglesa, de Samuel Johnson; Cândido, de François Marie de Voltaire; Senso Comum, de Thomas Paine; Uma Pesquisa Sobre a Natureza Humana e a Causa da Riqueza das Nações, de Adam Smith; Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon; Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant; Confissões, de Jean-Jacques Rousseau; Reflexões Sobre a Revolução na França, de Edmund Burke; Reivindicações dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft; Uma Pesquisa Sobre Justiça Política, de William Godwin; Ensaio Sobre o Princípio da População, de Thomas Robert Malthus; Fenomenologia do Espírito, de George Wilhelm Hegel; O Mundo Como Vontade e Representação, de Arthur Schopenhauer; Curso em Filosofia Positivista, de Auguste Comte; Da Guerra, de Carl Marie von Clausewitz; Ou Isso/Ou Aquilo, de Søren Kierkegaard; O Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels; Desobediência Civil, de Henry David Thoreau; A Origem das Espécies, de Charles Darwin; Sobre a Liberdade, de John Stuart Mill; Primeiros Princípios, de Herbert Spencer; Experiências sobre Híbridos das Plantas, de Gregor Mendel; Guerra e Paz, de Tolstoi; Tratado Sobre Eletricidade e Magnetismo, de James Clerk Maxwell; Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche; A Interpretação dos Sonhos, de Freud; Pragmatismo, de William James; Relatividade, de Albert Einstein; Tratado da Sociologia Geral, de Vilfredo Pareto; Tipos Psicológicos, de Carl G. Jung; Eu e Tu, de Martin Buber; O Processo, de Franz Kafka; A Lógica da Descoberta Científica, de Karl Popper; Teoria Geral do Emprego, Lucro e Dinheiro, de John Maynard Keynes; O Ser e o Nada, de Jean-Paul Sartre; O Caminho para a Servidão, de Friedrich von Hayek; O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir; Cibernética, de Norbert Wiener; 1984, de George Orwell; Histórias de Belzebu para Seu Neto, de Ivanovitch Gurdjieff; Investigações Filosóficas, de Ludwig Wittgenstein; Estruturas Sintácticas, de Noam Chomsky; A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas S. Khun; A Mística Feminina, de Betty Friedan; Citações do Comandante Mao Tse-tung, de Mao Tse-tung; Além da Liberdade e da Dignidade, de B. F. Skinner.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

A Grande ilusão francesa

"Em tempos, Portugal foi um país traduzido do francês. De certa maneira, porque era assim que a elite portuguesa tentava civilizar o país: copiando as leis, os romances, e o vestuário da França. França e modernidade eram sinónimos. Embora se usasse a expressão “para inglês ver”, era pelos franceses que os portugueses de destaque adoravam ser vistos. Salazar sempre gostou muito de fascinar escritores e jornalistas franceses. Em 1975, o primeiro debate entre Soares e Cunhal aconteceu na televisão francesa – e em francês. As coisas mudaram muito nos últimos 30 anos – ao ponto de os galicismos deixarem finalmente de afligir os puristas da língua. Para emigrar, passámos a preferir a Inglaterra – aliás, como os franceses. A França, para os portugueses, já não é o que era. Mas para os franceses também não, como se tem constatado na eleição presidencial deste ano, que terá a primeira volta no próximo domingo.

Se Portugal deixou de ser “francês”, a França parece mais “portuguesa”. Portugal e a França são os dois países que menos crescem na Europa, e onde nenhum cálculo provou ainda que o “modelo social” é sustentável. Mas nesta França em declínio faltam os costumes que, em Portugal, têm mantido os conflitos no suave limite das marchas ordeiras e providências cautelares. Em França, os subúrbios andam amotinados, e as sondagens de opinião atribuem um peso embaraçoso aos partidos “anti-sistema” (25 % no conjunto).

Talvez Portugal seja, como quer o Economist, o “novo homem doente” da Europa. Mas a França é mais do que isso: é a própria doença da Europa. Portugal, um pequeno país, só incomoda a regra dos 3%. A França, enquanto grande economia, estraga todas as médias europeias. É ainda em França que residem alguns dos principais estrangulamentos do “processo europeu”, desde a recusa da “constituição” até à dissipação de 45 % do orçamento comunitário na agricultura. Muita coisa na Europa precisa de passar pelo desfiladeiro francês. Daí que a imprensa europeia tenha resolvido imaginar estas eleições em França como um momento de decisão para todo o continente. E talvez por isso, não resistiu a encarar a disputa entre os candidatos à presidência francesa segundo um padrão universal, compreensível por todos, como uma batalha localizada da guerra global entre a “liberalização” e o “estatismo”. Ora, esta interpretação globalizante da política francesa é ilusória.

Os limites do exercício notam-se quando se tentam distribuir os papéis de defensores dos grandes princípios pelos candidatos. Sarkozy deveria ser o “liberal”. Infelizmente, adora centros de decisão nacional. A política francesa não é simples nem é traduzível. Para começar, há um sistema eleitoral que permite a desagregação na primeira volta, antes de obrigar à agregação na segunda. Isso faz com que, à partida, tudo pareça possível. Nem Sarkozy, o favorito, consegue melhor do que 26 % de intenções de voto. Os eleitores têm de fazer muitos cálculos, e daí a indecisão, e os candidatos têm de falar para muitos lados, e daí as mensagens confusas. Mas a história não acabará com as voltas das presidenciais. Em Junho, haverá ainda as das legislativas. Em França, o poder dá muitas voltas. O sistema político da “V República” é um dos mais complicados do mundo. Ao contrário do que acontece em Portugal, o presidente tem responsabilidades executivas. Só que não há garantia de a presidência e o governo estarem sintonizados. De Gaulle ainda entendeu que o presidente, como condutor da governação, não podia perder uma única eleição nacional – foi por isso que se demitiu em 1969. Mas Mitterrand e Chirac aceitaram derrotas eleitorais e a coabitação com ministros da área política contrária. O resultado foi um poder executivo partilhado, desorientado e até deslegitimado. Há anos que, em França, nenhuma “grande reforma” resiste a uma “grande manifestação”.

Isto é assim, porque a França é um país onde a política é, há séculos, pensada em termos de uma latente “guerra civil” -- veja-se, a propósito, Du Bon Usage de la Guerre Civile en France (2006) de Jacques Marseille. Entre revoluções, o medo das clivagens favorece fórmulas de reconciliação, necessariamente híbridas, e governos “sem excessos de zelo” (como recomendava Talleyrand). No seu livro Ensemble (2007), Sarkozy explicou tudo: “a política tem por objectivo unir os franceses, e não dividi-los”. Em vez de uma alternância entre liberais e sociais democratas, a França continuará a gerar fusões e ambiguidades. Porque a prioridade é a “política”, não é a “modernização”. O Economist acertou mais acerca de Sarkozy na capa do seu último número, quando o mostrou como Napoleão (o grande “fusionista”), do que no editorial, onde o tentou imaginar como missionário do liberalismo. Há meses, a mesma revista desejou uma Thatcher para a França. Mas a França não pode ter uma Thatcher: pode ter um novo Giscard (com Bayrou), um Mitterrand rasca (com Ségolène), ou um Chirac em melhor forma (apesar de Sarkozy tentar dissimular a filiação). Não vale a pena ter grandes esperanças nem grandes receios."

RUI RAMOS, no "Público" de 18.04.2007

quarta-feira, 11 de abril de 2007

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sábado, 24 de março de 2007

Artigo de Constança Cunha e Sá

Ficções e caricaturas

O actual CDS, como se comprova pelo exercício da sua liderança, é apenas uma caricatura de um partido que já não existe

Não é fácil escrever sobre a balbúrdia que grassa no CDS: ou se envereda pela justa condenação da "malandragem" que quer tomar de assalto o partido ou se opta por um higiénico silêncio sobre os últimos capítulos deste miserável enredo. O mais fácil, parece-me, é espumar de indignação perante o triste espectáculo oferecido por um grupo de delinquentes políticos que decidiram suicidar-se em directo. O mais prudente, no entanto, é ignorar a matéria, evitando envolver-se na teia de pormenores sórdidos que vieram a público, nos últimos dias. O festival de insultos e de acusações em que se transformou o conselho nacional de domingo não convida, de facto, a grandes reflexões sobre a "refundação" da direita e a sua suposta "modernidade". Dois anos depois de ter perdido as eleições legislativas, a direita (ou que resta dela), em vez de se ter "refundado", como anunciavam alguns espíritos mais optimistas, discute acaloradamente o hipotético empurrão de um tal Hélder de Viseu e as qualidades intrínsecas de qualquer beirão que se preze.

No entanto, quem conhece a tumultuosa história do CDS e observou, ao longo dos anos, a sua desesperada luta pela sobrevivência, sabe que este tipo de espectáculos tem alguma tradição no partido. Na claustrofobia do Largo do Caldas, a convivência entre democratas-cristãos, centristas, liberais, sociais-católicos e populares foi sempre uma fonte de divisões insanáveis onde os grandes princípios teóricos morreram sistematicamente às mãos de pequenas ofensas e de antigas rivalidades. No seu desencontrado percurso, o CDS, por oposição ao albergue ideológico em que se tinha transformado o PSD, especializou-se na pureza dos princípios e nas incompatibilidades doutrinárias e pessoais: foi centrista e democrata-cristão com Freitas do Amaral, liberal e de direita com Lucas Pires, social e católico com Adriano Moreira, populista e demagogo com Manuel Monteiro e Paulo Portas e, mais tarde, conservador e institucional com Paulo Portas. O partido, mantendo-se o mesmo, refundava-se sempre que mudava de líder, incompatibilizando-se invariavelmente com o seu passado e com os seus protagonistas. Pelo caminho, desperdiçou todos os seus líderes e todos os seus líderes se sentiram invariavelmente desperdiçados no CDS. Na altura, havia uma frase famosa que definia este velho e requintado partido como "um grupo de amigos que se detestava cordialmente". A quebra eleitoral que foi sofrendo contribuiu para que o CDS se fechasse, ainda mais, sobre si próprio, eternamente dividido por pequenas divergências internas que nada diziam ao comum dos mortais.

A primeira vitória eleitoral de Cavaco Silva, esse desconhecido de Boliqueime, sem mundo nem pergaminhos doutrinais, pondo fim às ambições de Lucas Pires, agravou substancialmente este estado coisas. Dois anos depois, em 87, quando Cavaco Silva conquista a maioria absoluta, Adriano Moreira, uma das grandes referências da direita portuguesa e do CDS em particular, viu o partido chegar aos 4 por cento, dinamitado pelo voto útil e pela euforia do cavaquismo. O regresso de Freitas do Amaral, com a sua famosa equidistância, foi a última tentativa ideológica de um CDS que morreria, uns anos mais tarde, quando Cavaco Silva obteve a segunda maioria absoluta e o partido, reduzido à sua insignificância, decidiu que tinha chegado a hora de arrepiar caminho e de lutar, com outras armas, contra a hegemonia do PSD. Subvertendo a natureza do CDS, o PP de Manuel Monteiro e de Paulo Portas foi essencialmente uma arma contra o cavaquismo que o velho partido se tinha mostrado incapaz de combater. Como é óbvio, quando o cavaquismo sucumbiu, o PP, reivindicativo, populista e demagogo deixou de fazer sentido. Foi isso que Manuel Monteiro não percebeu. Foi isso que Paulo Portas quis corrigir, ao centrar de novo o partido, repescando alguns dos seus históricos e tentando recuperar a credibilidade perdida. Só que entretanto o CDS tinha, de facto, morrido.

A ideia de que esse CDS ressuscitou, há dois anos, com a eleição de Ribeiro e Castro e o regresso da democracia cristã é uma das inúmeras fantasias que animam a política portuguesa. O CDS de Ribeiro e Castro, a que supostamente se opõe um PP acantonado no grupo parlamentar, é um equívoco, fruto das circunstâncias de um congresso e das fragilidades reveladas pelos apoiantes de Paulo Portas. O CDS de Ribeiro e Castro, como se comprova pelo exercício da sua liderança e pela natureza dos seus apoios, é apenas uma caricatura de um partido que já não existe. E se os políticos, como muitos defendem, dificilmente regressam ao sítio donde saíram, por maioria de razão, os partidos dificilmente conseguem recuperar a sua natureza perdida.

Só num partido que se transformou numa caricatura de si mesmo é que a presidente do conselho nacional é capaz de proclamar que o órgão a que preside é constituído, na sua grande maioria, por golpistas sem escrúpulos e "cães de fila" capazes das piores malfeitorias. Bem sei que é fácil responsabilizar Paulo Portas por todos os vícios da política. Mas convenhamos que difícil acusá-lo de preparar uma "golpada" que conta com o alto patrocínio do conselho nacional e teve luz verde do conselho de jurisdição. Por trás desta suposta "golpada", esconde-se toda a fragilidade de um partido que vive sob o risco permanente de, a qualquer momento, poder deixar de existir. Esse sim é o problema de uma direita que se reduz à sua própria ficção.

Público, 22.03.2007