"A Aversão" (1ª parte)
Quinshaza/ Viena de Áustria 1991- 1994
A Clara, pela telepatia, porque a Amizade também é uma forma de Amor
I
Antes do sol nascer, já dói o fígado a quem tem de se levantar.
Se espreitar pela janela descobrirá, então, um pequeno dia, completo, entre as casas. Às vezes há também a neblina que convém num frio atrevido e pica o novelo dos olhos estremunhados, convocando um espirro como uma bala na câmara.
Por outro lado, o arfar – primeiro, compassado, depois sem ordem - dos autocarros, já tinha atravessado o sono há muito tempo, ainda era noite cerrada, até o deixar exangue de anjos e prenúncios. Os boémios vinham esconder-se à pressa, por trás da porta vacilante antes de o sol - se viesse - cerrar o punho flamejante sobre a avenida, onde as manhãs não cantam, nem assobiam.
Longe dali, há orvalho e sarças, vegetação espinhosa, ainda ao alcance do mar. E a manhã pede licença. Os besouros e as cigarras cantam até mais tarde e há sempre alguém percorrendo um carreiro entre a vegetação que, a certo ponto, julga estar sozinho e começa a assobiar... ou até a dar até uns passinhos de dança. Ao longe escuta-se a sirene de um comboio. Sons metálicos, singulares, dobram por roldanas e êmbolos um tempo que apenas pairava.
Neste cenário, posto em movimento atrás do vidro, só o mármore é frio, como é bem capaz de estar lá fora.
A ínfima figura madrugadora que perfazia o semicírculo amarelado sobre a relva ia desaparecendo e o assobio já não atravessava o vidro. Em breve seriam nove horas e o pasmo apossar-se-ia dos indivíduos acordados que dariam os braços como dois peixes compridos ao altar do trabalho, empurrando-se ensonados na fila do sacrifício. Seria doce dormir ali mesmo, à janela, ao ritmo monótono dos insectos que teimavam contra o vidro em bátegas tontas. Alguns dos melhores sonhos, recordações de infância, de Verões largos e entardeceres floridos, vêm naquela altura. Mensagens do fundo, boas notícias, avisos seguros sem violência. De um lado e do outro do vidro, peixes de aquário agitavam com as barbatanas, torrentes de recordações, palmeiras despejavam-se em céus laranja afagados pelo Mar, rimas verdes de Verões parados no começo, eternamente, como um diaporama...
...mas ela queria lá saber disso!
Caminhava pela casa, de joelhos nus, a camisa de noite tinha uma série de fímbrias que se arrastavam pelo chão, como a asa de uma águia a fazer cortesias. O ar condicionado funcionava perfeitamente (este pensamento irritava-a como uma frase publicitária mas sem chegar à fúria, pelo que a repetia como quem alimenta um eco), andava descalça pela alcatifa e, ao passar pela porta envidraçada, achou que talvez fosse a reencarnação duma senhora romana, ou a sua própria reverberação num mundo paralelo deambulando pelo triclínio duma "villa", na Campania romana. Encheu-se de vaidade por conseguir evocar um mundo assim, distante. É este o poder inigualável das pessoas cultas, pensou. Mas não podia perder tempo em devaneios. Não podia adormecer!
Debruçou-se sobre a secretária que sabia manter numa ordem “impecável” e... começou a escrever furiosamente! Com setas e notas à margem, com fotografias que tirava da gaveta e entremeava entre as páginas, para não se esquecer.
Parou uns momentos. O marido estava agora a acordar. Devia ter metido a viola no saco há alguns dias porque deixara de rabujar por dormir sozinho ao angustiante deflagrar da madrugada, quando as gaivotas avisam o Sol ou a chuva, em voos rasantes. Já sabia que aquilo, para ela, era um imperativo, que não podia deixar de o fazer! Era parte integrante da sua condição de mãe e de filha contar a história da família, descrever as paisagens que, como vales secretos, perduravam na vida das pessoas da sua “allure”, pontes do Invisível unindo este Mundo e o outro.
Bom! Uma escritora precisava de ambiente. Desarrumou ligeiramente a secretária antes que o marido lhe pusesse as mãos nos ombros e lhe picasse a cara com um beijo desagradável, agudo como o voo das gaivotas. Apesar da encenação mental, mordeu uma fúria repentina e conseguiu mostrar os dentes sem perturbar minimamente o correr da pena. Nunca lhe faltava inspiração, nem percebia como podia faltar! Havia milhares de coisas para contar e ela fazia-o meticulosamente, registando todos os pormenores, cada cena, uma a seguir à outra. A “estrutura da narrativa” - reflectiu em azáfama - viria mais tarde. Cada coisa a seu tempo, como quando cuidava dos filhos, como quando advogava. Se houve alguma coisa que saiu fora do plano, foi só o casamento. Talvez tivesse sucedido depois de começarem os preparativos. Mas, ainda aí, a decisão foi do coração, foi de repente. Quando deu por si já estava apaixonada e sabia que era ele quem ia ser o pai dos seus filhos, decididos mentalmente, um a seguir ao outro, desde a infância ou talvez, desde o passeio no triclínio na “Villa” romana, da Campania, com o Vesúvio ao fundo.
Bateram as nove horas, no relógio da sala. O marido saía, desapertando o último botão do colete com aquele ar de quem usa o fato como um uniforme militar. O..., tratou-o pelo nome íntimo que era aliás usado pelos amigos da universidade (e que suscitava equívocos em encontros casuais - raros - com antigas colegas) onde brilhou desde o primeiro momento que lá pôs os pés, usando sempre uns fatos elegantíssimos e um relógio de corrente, augúrio de altos voos, entre cascatas de aplausos. O facto de os estudantes serem todos tratados assim, até pelos pioneiros do fornecimento de droga, no “campus”, passou-lhe despercebido. Não tinha sequer entrado e os contínuos tratavam-no por “senhor doutor” fazendo uma boca muito pequena no assento circunflexo que deve ser a prova da não-arbitrariedade do signo português. Voltou a enlevar-se com os estudos que fizera de Semiologia e riu-se ao mesmo tempo do caricato da situação. Gostava de se rir sozinha do marido, de vez em quando, primeiro, porque achava que isso era um sinal de intimidade e a distinguia ainda mais no altar da excelência matrimonial. O riso, o pranto e os suspiros, tudo na mesma bandeja. Mas depois, pensando um bocadinho mais, receava que a tomassem por tola, quando a imagem que se reflecte no rio dos outros, despojados aos nossos pés, nos enlouquece...
Ficou a olhar o marido, durante um bocado, pela janela. Não vestia um fato sem que ela lhe desse a opinião final e, geralmente, era ela mesmo que ia ao alfaiate orientar as modificações, algumas em segredo. Claro que não o contrariava muito. Mal o sentia a rabujar, adaptava-se rapidamente aos seus desejos, pelo menos no momento. Era assim que se entendiam e o casamento durava há vinte anos.
Em geral - pensava enquanto o observava, ela de caneta suspensa sobre o papel e ele manobrando desenvoltamente o carro para abrir e fechar a garagem - gostava do seu estilo britânico e professoral. Quando lhe viu o pé estirado para fora, o brilho polido do metal azul, o grosso sapato de cerimónia “Church`s”, numa terça-feira, e a bainha exterior da calça oscilando atrevida, achou que tudo estava perfeito e que era aquela perfeição que devia transmitir na sua escrita. Sobretudo, provar que essa perfeição era uma possibilidade histórica, existindo nas cidades do passado submersas inteiras no oceano do tempo sem que uma trave vacilasse. Provaria assim que este era o Referente de tudo o que havia de sólido, pertinente ou com sentido para dizer na sua História: a sua Atlântida.
Ele parecia pressentir-lhe o correr do pensamento. Ultimamente andava um bocado alvoroçado e agitava-se a qualquer gesticulação, a qualquer presença, de súbito tornada decisiva, sem que se soubesse porquê. Olhava-a agora por cima dos óculos e fez-lhe um sorriso com aquele ar de rapaz extemporâneo, ao atravessar o recreio de um colégio feminino que formara no pátio de saia engomada e suspirava por lhe desabotoar o colete numas inspirações pecaminosas que vinham não se sabe de onde. Rodava o volante, quase sem mostrar as mãos, um pouco ministerial, talvez, traçando os rumos da História com um pequeno meneio que telepaticamente deslocava a esferográfica dela, guiando uma neblina sobre a folha como um flamingo azul. Era assim que ela gostava de o ver. Era o que possuía nele, para inveja das amigas. O domínio do seu riso, o seu segredo de masculinidade, o interruptor daquele pomo de Adão a subir e a descer, como uma aflição, como uma…bem!
Mas era preciso continuar a escrever. Era mulher e não podia deixar de sentir que havia um vale a lavrar com a esferográfica. Não precisava de ser feminista mas era um facto a ter em consideração: todos os desprezos e, pior que isso, todos os paternalismos a que se sujeitava. A mesura não a amedrontava. O mal das feministas é que não sabiam distinguir Educação de sobranceria.
Falar com as raparigas da terra ou com aquelas mulheres dos partidos de esquerda a que a carreira do marido a obrigava, ser despachada e concisa na transmissão das ordens aos criados, evitar cumprimentar na igreja muita dessa gentinha que para lá se acotovelava, não era a mesma coisa que conter-se numa crítica em frente à audiência ou adiar uma inflamação verbal. As críticas guardavam-se para privado, para os amigos íntimos, na tranquilidade dum chá. Ah! A ideia de intimidade fê-la cruzar as pernas. Sentiu-se um pouco desnudada e susteve a custo uma espécie de langor, muito súbito, que lhe tomava matreiramente os braços e lhe evocava um desses ambientes íntimos, no escritório do Tó, ali à avenida de Roma ou numa escapada ao “atelier” da Bé, com os amigos da Lá. As mulheres sabem tanto, dizia de si para si e não continha um sorriso de mulher da sua época, bem inserida na estrutura social, no mecanismo do relógio do tempo.
O filho mais velho tinha ido passar uma semana fora. A Pi e o Ni, os gémeos, iam-se levantar daqui a pouco, como sempre, aos arrulhos. Já sentia a Muana, a criada prêta, a remexer na lata dos biscoitos para escolher os mais branquinhos para a Pi. Suspirou ante a visão do anúncio de pequeno-almoço que era o mote da sua vida. Escrever antes o cenário da Vida. Era esse o seu privilégio, sim...mas também um dom.
Nem todos se lembrariam de pôr em ordem aquelas sensações e recordações, de pegar no fio das coisas e, sobretudo, de explicar ao mundo que o passado é um presente perfeito muito mais-que-perfeito (e sério) do que se julga.
Ai! Suspirou longamente. Ser mãe, mulher, namorada, filha e descendente ao mesmo tempo era um desafio ao qual nunca pensou ter aquele dever, aquela predestinação de corresponder.
As folhas submergiam sob a vaga névoa azul, como se fosse uma relva impressionista ou uma malha regular tecida febrilmente pelo esgravatar dos dedos, ao correr do coração transbordando como uma cornucópia. Tinha a sensação de dar, de ofertar a sua imaginação, a sua inteligência, a sua sensibilidade, a sua carne... ao auditório, às pessoas que corriam no dia-a-dia, em azáfama por causa dos maridos, com os namorados, aflitas com o que iriam servir aos convidados de improviso, naquela noite, com o preço das coisas, com um ou outro pormenor que poderia espalhar o calor e a comunicação em paredes sem alma, como os pequenos boiões de caviar a que hoje qualquer um tinha acesso e que podiam transformar uma vida cinzenta, sem requinte, numa nova troca de alentos, de preocupações, em suma, de vida social. Até os operários, hoje, podiam tentar enriquecer as suas mesas com caviar..! Olhou pelo canto e viu o próprio busto reflectido num prato de baixela. A camisa de noite escorregando um pouco sobre o ombro, a emocionante cabeleira negra que teimava em usar como no tempo dos fabulosos anos cinquenta e aquelas pernas cruzadas, sem manchas nem pontos, deixando balouçar o pé em topete negligência. Gostava de se ver. Estava ali alguém, pontuando um tempo que, como a miniatura da sua trisavó religiosamente passada de mão em mão entre as filhas mais velhas, seria de novo transmitida até às mãos dos arfados e suspirados amores impossíveis dum futuro longínquo. Seria investigada e perscrutada em busca do segredo apaixonante dos seus olhos negros e do seu sorriso - havia que admitir - distinto. Ah, isto era incontestável!
Por agora não sabia mais do que escrever ( as Musas picavam um bilhete no Metro). Por volta das dez, a fonte esgotara-se. A Pi e o Ni tinham ido para Lisboa. Resolveu-se a dar o carro ao Ni em dez vezes menos tempo que a mãe a autorizara, um dia, a ir ao cinema com o primo e escreveu mais uma página sobre o senso dos progenitores de antanho, das catedrais de critério que moviam as pálpebras, por cada resposta enigmática.
Pousou a caneta e olhou o conjunto da secretária com um certo enfado. Ia fazer agora aquilo a que uma mulher como ela não podia deixar de consagrar pelo menos duas horas diárias: a imagem. Não tinha ninguém em casa a não ser a cabo-verdiana. Sentiu-a remexer em qualquer coisa. Devia estar a limpar a cozinha ( na verdade, a mulher fartava-se com o resto mais escuro dos biscoitos, que lhe era sempre concedido, talvez em jeito de crase, e que ela engolia como as piadas a prêto e branco). Fechou a porta que comunicava com a sala e passeou negligentemente até à casa de banho, pôs a água a correr e procurou os sais, tacteando para não desfazer a pose. Não, não ia tomar um banho de imersão. “I”, sibilou entre os dentes! Era uma mulher activa. Ajustou o chuveiro e, leitor, saia enquanto eu me volto de costas... estes eram momentos íntimos, não temos relato possível. (continua)
André de Melo


Boníssimo ambiente do dirigente dominar e cavaquear com a figura do bailéu de anteriormente, lobriga pelo espelho, sem que se tenha de converter. O que a encaminhar é chato.
Como ensinamento administra para retocar a pintura no meio do trânsito, Calha sempre bem ter um bom ar da Egitania.
Serve essa imagem igualmente para ir dando uma vista de olhos sobre quem vem na quarenta atrás, nunca se sabe onde se pode encontrar a princesa encantada.
Os artesãos servem-se deste exemplar para olhar para a cara de quem vem no tal carretel após e acção em aceno pouco faladores e coisas afins, e se virem uma "gaja": mandar piropo muito aflito!
Ah, e agrada também para carrear em afoiteza. Na limite em que anui uma fantasia ajuizada do trânsito que vem atrás da dependência e assim atribuído ao pára-raios estar sempre alerta.